OPINIÃO
24/11/2019 06:00 -03 | Atualizado 24/11/2019 06:00 -03

Mesmo trocando jogadores, 3ª temporada de 'The Crown' marca um gol ao não mexer no esquema tático

Claire Foy e companhia deixarão saudades, mas Olivia Colman e o novo elenco mantêm a qualidade da série da Netflix.

Disponível no catálogo da Netflix desde o último domingo (17), a terceira temporada de The Crown corria um sério risco de perder seu público cativo, já que todo o seu elenco - incluindo Claire Foy, a queridinha dos fãs - foi renovado.

No entanto, por mais que a rainha Elizabeth II de Foy e (principalmente) a princesa Margaret de Vanessa Kirby deixem saudades, a estrutura de antologia bem costurada, os diálogos precisos de Peter Morgan e companhia e a maravilhosa direção de arte continuam intactos. Não afastando os fãs mais antigos e deixando as coisas mais simples para quem começou a ver a série agora.

Isso sem falar no quanto Olivia Colman (atual vencedora do Oscar de Melhor Atriz interpretando outra rainha em A Favorita) acrescenta à trama. Aos mais fanáticos, um aviso: não espere uma imitação de Foy. Pode causar certa estranheza no começo, mas a Elizabeth de Colman é uma visão dela do personagem. Uma rainha que luta entre a frieza e a hesitação bem diferente da que vimos nas duas primeiras temporadas, mas que é tão cativante quanto a versão mais incisiva de Foy.

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Olivia Colman como a rainha Elizabeth II no melhor episódio da terceira temporada: "Aberfan".

Uma das mudanças que pode, sim, ter um impacto maior na história era inevitável. A trama começa em 1964, ou seja, não teremos mais a forte presença de Winston Churchill (John Lithgow), mas o inexpressivo Harold Wilson (Jason Watkins) como o novo primeiro-ministro. Mas esse fato dá ainda mais força à presença de Elizabeth.

Já a outra mudança não tem caráter histórico. É uma questão de gosto mesmo. O estilo de Helena Bonham Carter não tem nada a ver com a sutileza de Colman. Ela é famosa por performances mais afetadas. No entanto, a princesa Margaret era conhecida exatamente por sua excentricidade, característica que cai como uma luva para Carter. Mesmo assim, Vanessa Kirby segue sendo a ausência mais sentida na terceira temporada. 

Sobre os episódios... Como toda série que opta por um estilo de episódios fechados, mesmo com um fio narrativo utilizado para ligá-los entre si, a trama de The Crown tem seus altos e baixos. Há capítulos incríveis, como o terceiro, quarto e sexto: AberfanBubbikinsTywysog Cymru, mas há também alguns fracos, como Poeira Lunar e Golpe (sétimo e quinto, respectivamente).

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A personagem da princesa Alice (Jane Lapotaire) é tão boa que poderia ter uma série só para ela.

Ao analisar os melhores episódios, algo curioso acontece — e que serve para explicar o segredo do sucesso desta terceira temporada. Cada um deles é estrelado por um personagem diferente. Em Aberfan quem brilha mais é Colman. Já Bubbikins traz o personagem mais intrigante e cativante da trama, a princesa Alice (Jane Lapotaire). Muita gente vai se interessar pela história da mãe de Philip (Tobias Menzies), que poderia muito bem ter uma série só para ela.

O outro destaque fica para o episódio em que o Príncipe Charles (belamente interpretado por Josh O’Connor) precisa ir para o País de Gales e aprender a complicadíssima língua local, pois será “coroado” como príncipe de Gales. Um episódio que nos dá uma bela base para entender Charles.

O saldo desta terceira temporada de The Crown é dos mais positivos. A série mantém sua qualidade sem muitos solavancos. Pode não entrar no Top 10 do ano, verdade, mas conseguiu fazer mudanças indispensáveis sem mexer em suas maiores qualidades. Colman e boa parte do novo elenco agrega muito ao produto final, o que não deixa de ser uma cereja no bolo. Longa vida à rainha!