ENTRETENIMENTO
25/09/2020 16:36 -03

Segunda temporada de 'The Boys' segue tão desvairada e irresistível quanto a primeira

Dois repórteres do HuffPost discutem os novos episódios no retorno da série satírica da Amazon.

Jasper Savage/Rebecca Zisser for HuffPost
Antony Starr e Erin Moriarty na segunda temporada da série "The Boys".

Se você ainda não viu The Boys, da Amazon, comece a assistir agora.

A série estreou no ano passado com uma primeira temporada cmpletamente maluca e voltou com uma segunda temporada que traz um olhar ainda mais satírico e introspectivo sobre a paixão por celebridades.

The Boys é baseada na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson do mesmo nome e foi criada por Erick Kripke, de Supernatural. A história acompanha um grupo de rebeldes liderados por Billy Butcher (Karl Urban), dedicados a expor as intenções corruptas e perversas dos super-heróis (“supes”) da megacorporação Vought, liderados pelo grupo de elite dos “Sete”.

Esses super-heróis, comandados por Homelander (Anthony Starr), uma figura do tipo Superman, realizam atos de justiça para o público que os venera, mas também são processados pela máquina de relações públicas – representando a eles mesmos em filmes comerciais, aparecendo em embalagens de salgadinhos e dando palestras.

O problema é que esses supes não são nem um pouco heróis, na realidade. São profundamente imorais.

A primeira temporada procurou dissecar o poder exercido pelos famosos e analisar se ele é justificado. Mas a segunda - lançada em partes pela Amazon - vai mais fundo e questiona a noção de que os super-heróis sejam formados, e não nascidos assim.

Os repórteres do HuffPost Leigh Blickley e Bill Bradley discutem toda a doideira instigante de The Boys após mais um episódio da série ser lançado pela plataforma nesta sexta (25).

Resumindo

The Boys é um comentário satírico sobre a cultura “stan” (dos fãs ferrenhos), lançando um olhar introspectivo sobre corporações da vida real como a própria Amazon, Marvel e Disney e dissecando os efeitos não tão glamurosos assim que eles exercem sobre a sociedade. É profundamente convincente, instigante e inesperada. 

Jasper Savage/Amazon Studios
Butcher (Karl Urban), Hughie (Jack Quaid), Frenchie (Tomer Kapon), Mother’s Milk (Laz Alonso) e Kimiko (Karen Fukuhara), os Boys. 

Onde a segunda temporada retoma a narrativa

Bill Bradley: Leigh, a primeira temporada de The Boys nos deu bebês com visão laser, sequências de fuga de golfinhos e anti-heróis simpáticos tentando derrotar supes moralmente falidos. A segunda temporada retoma a história, com os The Boys ainda tentando derrotar a empresa Vought, criadora de super-heróis, e acrescentando novas personagens como Stormfront (Aya Cash) e até o Piano Man em pessoa, Billy Joel. O que você pensa da nova temporada até aqui?

Leigh BlickleyConfesso que o que pude ver até agora me impressionou, Bill. A primeira temporada em alguns momentos foi um pouco confusa, mas a nova define seu rumo desde o começo e já começa forte.

A história é retomada bem onde a temporada 1 terminou, com a Vought tendo que absorver a morte de sua vice-presidente Madelyn Stillwell (Elisabeth Shue). Considerando que era ela quem controlava Homelander, há uma vibe tenebrosa no ar. Quem sabe o que ele será capaz de fazer agora? (bom, na realidade nós já temos uma ideia, já que ele matou Madelyn, incendiando-a com seus olhos de laser). Os Boys também estão em choque depois que uma operação dá errado e seu líder, Billy, desaparece, tendo descoberto que sua esposa Becca (Shantel VanSanten), que ele achava que estivesse morta, na realidade está viva, morando numa comunidade secreta com seu filho, que tem superpoderes e que ela teve com Homelander. O que você achou da história de Becca?

BB: Agora deve ser uma boa hora para soltar um meme do Pikachu surpreso – é como ficou minha cara quando foi revelado que Becca estava viva e tinha tido um filho supe com Homelander. No material de origem, a HQ, mamãe e bebê não estão presentes. E isso muda tudo para Billy Butcher, cuja missão na vida era acabar com Homelander por ter assassinado sua mulher. Temos uma novidade para te contar, cara....

Como Billy lida com isso é apenas uma das perguntas que pairam no ar na segunda temporada: O que acontece com A-Train (Jessie Usher) depois de sofrer um infarto combatendo Starlight (Erin Moriarty)? O que está acontecendo com a novata estranhamente rebelde Stormfront? The Deep (Chace Crawford) vai parar de matar seus amigos seres marinhos sem querer? (Ahn... não.) quais são as histórias mais interessantes da segunda temporada, para você?

Crescimento dos personagens

LB: Na primeira temporada eu estava gostando especialmente de Hughie (Jack Quaid). Ele era um peixinho ingênuo fora d’água no mundo rebelde dos Boys. Agora ele está um pouco mais quieto. Ele passa a maior parte do tempo ouvindo música de Billy Joel e contemplando sua vida sem Billy e Starlight, sua inimiga convertida em amiga e depois amante, que está se fazendo passar por supe nos Sete, atuando como agente dupla.

Até agora nesta temporada estou mais interessada em Homelander, que está prestes a desmoronar completamente sem a presença tranquilizadora de Madelyn. Cada cena em que ele aparece é realmente assustadora. A atuação de Starr é incrível; ele se engaja com cada excentricidade. Stormfront também é uma nova personagem bem-vinda, uma supe que certamente vai suscitar polêmica nos próximos capítulos (é isso aí, Aya Cash!).

E The Deep tentando entender o que o está levando a violar e humilhar mulheres é um jeito interessante de os criadores da série falarem de homens famosos e comportamentos predatórios. Suas sessões de terapia formam algumas das cenas mais fascinantes, apesar de incômodas. Você está acompanhando a história de The Deep? 

BB: Não poderíamos ser apresentados a alguém pior que The Deep, revelado como assediador sexual na primeira temporada. Mas ele também está em algumas das cenas mais divertidas, mais humanizadoras (como na acima mencionada fuga de golfinhos ou quando ele sem querer vira cúmplice em um assassinato de lagostas). A tal ponto que você precisa se lembrar: “Não esqueça que esse cara é um bosta”.

A segunda temporada mergulha ainda mais fundo nas inseguranças dele. The Deep é um bom exemplo do modo como a série mergulha nas múltiplas camadas de todos os personagens, chegando a mostrar que os bonzinhos da história não são tão bons assim. Você acaba tendo que se perguntar quem é que vai parar, olhar o que está fazendo e se perguntar: “Será que os vilões somos nós?” Na realidade, até que ponto Homelander é diferente de Billy Butcher?

No que diz respeito a The Deep, ele garante alguns dos primeiros bons momentos na segunda temporada, incluindo outro encontro infeliz com uma amiga aquática e um número de musical de quebrar a banca. Quais são os momentos aos quais as pessoas deveriam prestar mais atenção, em sua opinião? 

Jasper Savage/Amazon Studios
Colby Minifie (Ashley Barrett), Aya Cash (Stormfront), Antony Starr (Homelander) e Dominique McElligott (Maeve).

Altos e baixos 

LB: The Deep tem alguns momentos de destaque nesta temporada (isto não é um spoiler). Mas, apesar do humor que cerca seu personagem, nunca questiono que ele seja capaz de nos fazer gostar dele. Como você disse, ele é um lixo. É por isso que retratá-lo como “o vilão que se endireitou” é tão convincente. E Chace Crawford transmite bem o fedor dele.

Quanto aos outros destaques da segunda temporada, Kimiko (Karen Fukuhara), ou The Female, é uma força da natureza. Ela é um cruzamento de Eleven de Stranger Things com uma mutante dos X-Men, tendo algumas das melhores cenas de ação que vimos até agora. E a trama com o irmão dela insere um novo elemento na série que eu achei realmente bem feito. Acho que outros dos Boys, como Frenchie (Tomer Capon) e Mother’s Milk (Laz Alonso), também ganham o destaque devido, não?

BB: Todo mundo aqui tem muitas camadas, como cebolas e como Shrek. A série mostra mais para frente que há uma razão mais profunda do amor de Frenchie por Kimiko, uma ligação que ela nem sempre aprecia. E, como você falou antes, Homelander é assustador. Em praticamente todas as cenas você fica imaginando que ele vai explodir a qualquer momento ou então, quem sabe, fazer outras pessoas explodir.

E há Stormfront, inspirada por um personagem nazista homem na HQ. Apesar dessa origem, ela é apresentada como uma estrela jovens e divertida das redes sociais que chega para combater o status quo. Já sabemos que Homelander tem um problema com ela, mas também já nos foi mostrado que a encarnação do patriotismo tem uma relação mais íntima que imaginávamos com ela. Especialmente considerando que ela é potencial simpatizante nazista.

O que vocês estão querendo nos dizer, The Boys? Na realidade, não faz mal. O que vocês estão dizendo está super claro, considerando que estamos em 2020 e pessoas estão indo ao Walmart usando máscaras com suásticas na estampa.

LB: Sem dúvida alguma The Boys encara de frente vários tópicos que fazem parte de nosso dia a dia em 2020: supremacia branca, preconceito de gênero, cultura do cancelamento, cientologia e principalmente a América de Trump. (Se a pandemia tivesse acontecido antes das filmagens, aposto que ela também teria aparecido na série).

A série reflete a indústria do entretenimento, especialmente as franquias de super-heróis e as estratégias de marketing que cercam cada filme da Marvel ou DC. É distorcida, inteligente, hiper violenta e francamente hilária. Às vezes fico rindo de nervosa, em choque ao ver as coisas que conseguiram incluir nesses roteiros.

BB: Total. A impressão é que o objetivo de The Boys é questionar todo o mundo, desde celebridades que falam em defender causas sociais até fãs que aplaudem tramas de filmes baseados em gibis que são meio horrendos. (Você não, Martha, estou falando em... outra coisa.) Ninguém está livre de virar alvo.

Tudo é terrível. Há até um evento para a imprensa em que jornalistas de entretenimento ficam repetindo as mesmas perguntas cansativas a Starlight e Stormfront, perguntando “mulheres são heróis melhores?”. Pessoalmente, isso me deu arrepios, não gostei, e me obrigou a pensar: “Oh, meu Deus. Será que eu já falei desse jeito?”. Mas também me fez pensar, “peraí, será que elas são heróis melhores mesmos?”

Lave as mãos, porque The Boys vai levar todo o mundo a fazer um facepalm, cobrindo o rosto com as mãos.

Panagiotis Pantazidis/Amazon Studios
Frenchie (Tomer Kapon), Hughie (Jack Quaid) e Billy Butcher (Karl Urban) em uma das muitas sequências de ação de "The Boys".

E então, você deveria assistir a The Boys

LB: Se você é fã da da primeira temporada, é claro que deve ver a segunda! Acho que esta nova leva de episódios apenas ressalta os objetivos da série. Para quem ainda não viu, não há melhor hora para assistir a The Boys já que estamos com muito tempo para fazer isso. 

BB: Mesmo que você não seja fã! Eu já maratonei Jogo da Lava, Brincando com Fogo, Mansão de Praia e um monte de séries que tenho até vergonha de mencionar. Basicamente você tem a escolha de assistir a The Boys ou ficar sentada em casa olhando fixamente para a parede. Assista The Boys, sem dúvida.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost