MULHERES
22/08/2019 06:00 -03

Erin Moriarty fala sobre a pesada cena de Luz-Estrela na série 'The Boys'

“Estou cheia dessas menininhas ingênuas que vemos em séries e filmes baseados em quadrinhos: a mulher objeto sexual”, diz Moriarty.

Amazon Studios
Erin Moriarty se prepara para encarnar Luz-Estrela, a super-heroína que conhece, da pior maneira possível, o lado sinistro dos super-heróis.

No piloto da nova série da Amazon The Boys, Annie January (Erin Moriarty), recém-integrada ao grupo de super-heróis de elite Os Sete, é apresentada ao mundo como Luz-Estrela. Com o poder de emitir uma luz ofuscante, ela se junta ao adorado grupo da Vought Corporation, que também conta com Capitão Pátria (Antony Starr), Rainha Maeve (Dominique McElligott), Trem-Bala (Jessie T. Usher), Translúcido (Alex Hassell), Profundo (Chace Crawford) e Black Noir (Nathan Mitchell).  

Mas Luz-Estrela logo começa a ver um outro lado desses heróis-celebridades quando Profundo, sozinho com ela no quartel-general dos Sete, abaixa as calças e começa a se masturbar depois de ela dizer que tinha um pôster dele no quarto quando era criança.

Luz-Estrela reage horrorizada, e Profundo ri. “Que foi?”, pergunta ele. “Você disse que era apaixonada por mim. Achei que tipo...”

Ela começa a se afastar, mas é manipulada a fazer sexo oral com ele, que ameaça dizer à Vought que foi atacado por ela. “Vai na onda, tipo uns três minutos. Não é nada demais”, diz ele. “E você sabe o que acontece depois? Todos os seus sonhos viram realidade.”

Na sequência, vemos Luz-Estrela vomitando no banheiro, com a maquiagem borrada.

“É um momento importante, que catalisa a história de abuso sexual da minha personagem”, disse Moriarty ao HuffPost. “A resposta visceral dela não é o que a maioria das pessoas consideraria moralmente correto, mas ela é uma boa pessoa, sem dúvida. Então fica a ideia de que pessoas boas podem fazer coisas ruins e muitas de nossas escolhas estão nessa área cinzenta.”

Nos quadrinhos originais de Garth Ennis e Darick Robertson, Luz-Estrela é vítima de um estupro coletivo – Capitão Pátria, Black Noir e Trem-Bala a atacam num trote de iniciação.

Moriarty diz que a equipe de The Boys, o responsável pela série Eric Krupke e os produtores Seth Rogen e Evan Godlberg, inicialmente acharam que a cena seria chocante demais para o público, mas as roteiristas mulheres queriam incluir essa parte essencial da história de Luz-Estrela de alguma maneira. Como disse Kripke à Entertainment Weekly, “foram minhas roteiristas e produtoras dizendo: ‘Isso é um tipo de coisa que acontece, temos de falar a respeito’”.

Moriarty concorda.

“Queremos contar uma história de abuso sexual que jogue luz sobre as mulheres, o que elas têm de passar e o fato de que elas nem sempre têm de fazer o papel da vítima”, afirma a atriz. “Elas podem se tornar pessoas mais fortes e ao mesmo tempo condenar os homens responsáveis pelo abuso sexual.”

Eis o conceito dessa série sombria e satírica: Billy Bruto (Karl Urban) é o líder de uma gangue de justiceiros chamada Os Caras, que é afetada diretamente pelas ações dos super-heróis e busca vingança contra os Sete. Becca (Shantel VanSanten), a mulher de Billy, teria sido estuprada e assassinada pelo Capitão Pátria, e ele quer revelar a natureza sinistra desses amados super-heróis.

“Esse evento chocante o polariza a ponto de que ele se recusa a aceitar a regras da sociedade, a viver neste mundo que ele sabe que é falso”, disse Urban ao HuffPost. “A tragédia do personagem me atraiu. Você sente empatia por ele e entende por que ele é assim.”

Mas um novo integrante da gangue, Hughie Campbell (Jack Quaid), complica as coisas para os vingadores quando se apaixona por Luz-Estrela, apoiando-a enquanto ela lida com o trauma.

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Jack Quaid e Erin Moriarty em cena da série The Boys.

Desde o escândalo envolvendo Harvey Weinstein, em 2017, há cada vez mais histórias nas telas tratando das situações infelizes enfrentadas pelas mulheres em setores dominados por homens, incluindo o mundo do entretenimento.

Fosse/Verdon, por exemplo, abordou o “comportamento problemático” do lendário coreógrafo e dançarino Bob Fosse. E The Loudest Voice recentemente mostrou as experiências reais das vítimas do falecido executivo da Fox News, Roger Ailes.

“Acho que as coisas estão mudando porque as mulheres estão enfrentando a situação e se recusando a ficar caladas. E a história de Luz-Estrela tem tudo a ver com isso”, avaliou Moriarty.

“Acho que The Boys tem vários níveis”, acrescentou Urban. “É um ótimo entretenimento escapista, com partes chocantes, humor e excelentes personagens, e também uma metáfora não só da situação política de hoje em dia, mas da cultura das celebridades. Provavelmente sempre foi assim, mas estamos vivendo numa época em que as celebridades estão sendo denunciadas por esses comportamentos. The Boys é uma maneira maravilhosa de explorar os problemas insidiosos desse mundo.”

Luz-Estrela, que é heroína e celebridade, também tem seus defeitos. Mas, como diz Moriarty, ela é “o coração pulsante da série”. Ela reage quando a Vought tenta trocar seu uniforme conservador por um collant justinho. Luz-Estrela também questiona a religião em um evento com fãs. Ela se recusa a baixar o tom depois de ser repreendida por sua chefe (Elisabeth Shue), que pede que a heroína “pare com essas merdas de diva petulante”.

“Estou cheia desses papeis de menininhas ingênuas que vemos em séries e filmes baseados em quadrinhos: a mulher objeto sexual”, explica Moriarty. “Quando você conhece Luz-Estrela, meio que acha que ela vai ser essa menina boazinha e sincera. Mas na verdade ela não é assim. Em termos de super-heroínas, ou elas são o interesse romântico ou então a mulher ‘fodona’ e durona. Luz-Estrela é meio que uma combinação das duas coisas.”

Como Moriarty, Jack Quaid aprecia a jornada de Luz-Estrela, especialmente dentro da premissa maluca da série.

“Em uma série chamada The Boys, você com certeza precisa ter um equilíbrio com o ‘girl power’”, afirmou ele ao HuffPost. “É um estudo de personagem surpreendentemente profundo de todos – não só dos mocinhos, mas também dos vilões.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.