ENTRETENIMENTO
02/04/2019 07:11 -03 | Atualizado 02/04/2019 07:11 -03

'The Act': O conto de fadas perverso de mãe e filha que estreou na TV americana

Nick Antosca, o criador, discute a série baseada na história real da vítima que virou assassina: Gypsy Rose Blanchard.

Hulu
“É uma história de um amor profundamente tóxico”, diz o criador de The Act, Nick Tosca.

Alerta: contém spoilers de The Act.

No segundo episódio de “The Act”, nova série do serviço de TV paga Hulu, Gypsy Rose Blanchard (Joey King) está sentada na sua cadeira de rodas, sorrindo para sua mãe, Dee Dee (Patricia Arquette). Ela fala sobre os cuidados com a filha doente durante uma cerimônia de premiação.

“Nunca salvei Gypsy. Ela me salvou”, diz Dee Dee para o público, olhando para sua filha, careca e com um óculos enorme no rosto. “Nasci para ser sua mamãe. Te trouxe para este mundo, mas desde então você é que me carrega.”

A plateia irrompe em ovação. Gypsy pega o microfone e começa a cantar “I’ll Be There”, dos Jackson 5.

You and I must make a pact
We must bring salvation back,
Where there is love, I’ll be there. 

I’ll reach out my hand to you
I’ll have faith in all you do.
Just call my name and I’ll be there.

(Você e eu temos que fazer um pacto
Temos de trazer a salvação de volta
Onde houver amor, lá estarei

Vou estender minha mão para você
Tenho fé em tudo o que você faz
Basta dizer meu nome, e lá estarei)

Dee Dee começa a cantar junto, e os aplausos tomam conta do auditório.

A letra da música no contexto da série é irônica e inquietante.Nick Antosca, criador da série

O momento singelo não está lá para provocar lágrimas; o objetivo é deixar os telespectadores furiosos. Eles estão assistindo à guerra psicológica levada a cabo por Dee Dee, mãe que sofre da síndrome de Munchausen por procuração – doença mental em que uma pessoa exagera ou induz sintomas ou doenças em crianças sob seus cuidados para obter atenção ou gratificação pessoal.

Dee Dee Blanchard era uma mulher real, assassinada em junho de 2015 depois que Gypsy – que não sofria de doença nenhuma – decidiu dar fim ao abuso. A história ganhou destaque quando foi contada por Michelle Dean em uma reportagem para o Buzzfeed. Em 2017, a HBO produziu um documentário sobre o caso, intitulado Mommy Dead and Dearest. Agora, o Hulu está lançando uma série sobre a história, criada por Dean e por Nick Antosca.

Quando conversei com Nick Antosca sobre The Act, ele deixou uma coisa bem clara: os produtores escolheram I’ll Be There muito antes de ter informações sobre o documentário de 4 horas Leaving Neverland, que investiga acusações de abusos sexuais cometidos por Michael Jackson.

“É claro que tem a reputação de Michael Jackson, que é sinistra”, diz ele ao HuffPost. “Escolhemos a música sabendo que havia algo de inquietante em relação a ela. Mesmo que você não saiba quem a escreveu e quem estava cantando, a letra, no contexto da série, é irônica e inquietante.”

A música aparece algumas vezes ao longo dos 8 episódios da série, mais notadamente no segundo, intitulado Teeth (dentes). Depois do dueto com Dee Dee, vemos o tubo de alimentação de Gypsy sendo trocado. Quando ela chega em casa, I’ll Be There está tocando enquanto ela coloca um unicórnio de pelúcia em cima de uma montanha de outros bichos – brinquedos usados para fazer médicos, vizinhos e desconhecidos pensarem que Gypsy está muito doente – mas, na realidade, ela é uma adolescente perfeitamente saudável que está sendo drogada pela própria mãe.

A própria Gypsy acha que tem leucemia, epilepsia, distrofia muscular e alergia a açúcar, entre outros problemas de saúde. Na verdade, Dee Dee está mentindo para ela e convencendo médicos de que sua filha sofre desses problemas durante a maior parte da vida.

Abaixo, Antosca fala sobre The Act, a história bizarra de Dee Dee e Gypsy, e sobre nosso fascínio com maus pais.

Brownie Harris/Hulu
Patricia Arquette no papel de Dee Dee Blanchard e Joey King, no papel de Gypsy Rose Blanchard.

HuffPost: Por que você decidiu fazer uma série sobre a história de Gypsy Blanchard?

Nick Antosca: Li a reportagem [do BuzzFeed] quando ela foi publicada e vi o documentário depois. Mas a reportagem foi o ponto de entrada. É uma matéria exaustivamente apurada, com tantos detalhes, e ainda assim você pensa: “Como uma coisa dessas pode acontecer?” Para mim, ainda mais importante foi pensar: “Como era a vida dentro daquela casa? Como era a experiência de viver numa jaula de mentiras?”

A mãe de Gypsy construiu essa jaula para ela e manteve as mesmas dimensões durante o crescimento da filha – até o ponto em que a única coisa que Gypsy poderia fazer era usar a manipulação e as artimanhas que aprendeu com a mãe para fugir. O que aconteceu com Gypsy foi realmente um pesadelo. Eu tive um pesadelo depois de ler a reportagem.

E as perguntas que eu tinha eram o tipo de perguntas que a não-ficção não consegue responder. Quando penso em boas dramatizações, estou falando em coisas como Meninos Não Choram e Almas Gêmeas. Os dois tratam de crimes impensáveis, histórias sensacionalistas de tabloides como ponto de partida para as experiências humanas que existem por trás.

Michelle Dean, autora da reportagem original do BuzzFeed, esteve envolvida no projeto desde o princípio?

Greg Shephard e Britton Rizzio, os outros produtores executivos da série, compraram os direitos do artigo de Michelle e me procuraram. Conversei algumas vezes com ela sobre o projeto. São pessoas reais. É um assunto delicado, mas, ao mesmo tempo, pode-se dizer que é uma história de interesse público, que despertou fascínio e curiosidade nas pessoas. Queríamos atacar o projeto com a mentalidade correta, aí procuramos o Hulu e eles aceitaram.

De certo modo, é a história de amadurecimento mais bizarra e perversa que já ouvi.Nick Antosca

Você queria que a série ficasse do lado de Gypsy? Porque essa é a impressão que fica...

Queríamos abordar a história levando em conta a humanidade das duas personagens, sem mascarar o fato de que Dee Dee obviamente foi responsável por monstruosidades ao longo dos anos. Queríamos mostrar isso.

Não queríamos que os roteiristas pensassem nela como um monstro – ela sofreu na infância e estava numa posição difícil. Dee Dee também foi vítima de suas próprias patologias, de certa maneira. Mas não queríamos retratá-la como a mãezinha carinhosa.

Ao mesmo tempo, para mim a história é, no nível mais fundamental, uma história de mãe e filha, focada no amadurecimento da filha. De certo modo, é a história de amadurecimento mais bizarra e perversa que já ouvi. Então é claro que ela tende a focar na experiência de Gypsy como protagonista, porque ela é a vítima e é ela que está passando por um processo de autodescoberta.

Você encontrou Gypsy ou conversou com ela sobre a série?

Não. Michelle entrevistou Gypsy e outras pessoas para a reportagem. Para a série, trabalhamos com o material existente, documentos e as entrevistas e pesquisas feitas por Michelle.

Gypsy sabe da existência da série, por acaso?

[Pausa] Não sei. Não faço ideia. Para mim, o processo foi usar as pesquisas e ter uma certa licença dramática. Não é um documentário – já existe um documentário, não é o que fizemos. Mas tentamos mostrar o que parecia ser a verdade psicológica e emocional da história, com base na grande quantidade de informações que tínhamos.

A síndrome de Munchausen por procuração é parte importante da história – você já tinha ouvido falar dela antes de trabalhar na série?

Eu sabia do que se tratava. Não tinha trabalhado em histórias parecidas antes, mas acho que esse tema tem aparecido mais nos últimos tempos. Temos este caso, em particular, e certas outras histórias [Sharp Objects, Love You to Death]. Parece que há uma fascínio nacional com a síndrome de Munchausen por procuração. Não sei por que, mas acho que todo mundo meio que fica fascinado com mães que fazem coisas terríveis com os filhos, tipo “Como uma coisas dessas pode acontecer?”

Essa pergunta – “Como alguém pode fazer uma coisa dessas?” – é intrigante. Ela também aparece, de outra forma, no documentário de Michael Jackson [Leaving Neverland] ou em “Sequestrada à luz do Dia”. Você pensa: “Como um pai ou mãe é capaz de algo assim?” É uma pergunta que te pega de jeito.

A série tem esse lado dramático e inquietante, mas também um lado de terror, que é definitivamente seu gênero, considerando Channel Zero e a futura série Chucky. A possibilidade de evocar o terror da situação te empolgou?

Fazendo The Act, não pareceu que eu estava usando músculos diferentes em comparação com Channel Zero ou Hannibal. Em todos esses casos, estou interessado no terror psicológico e em contas histórias baseadas nos personagens. Você encara as história de acordo com os méritos de cada uma delas, e esta certamente tem muito terror. Com certeza ela me marcou e me deu pesadelos porque existe um aspecto de terror humano.

Você queria que as atrizes tornassem a história mais humana, imagino. Você escalou Patricia Arquette, então não tem como errar nesse departamento.

Você precisa de alguém ancorado na humanidade para o papel de Dee Dee. Alguém que tenha essa qualidade naturalmente. Patricia é fundamentalmente humana, e quando ela vai a esse lugar sombrio temos um conflito muito interessante.

E Joey King se transformou fisicamente para fazer Gypsy.

Joey é uma revelação. Nunca tinha trabalhado com ela antes, e só a conhecia por Fargo e Invocação do Mal. Foi a audição dela e, mais que isso, nossas conversas com ela. Ela tinha muita curiosidade sobre o papel, além de compromisso e dedicação para descobrir qual foi a experiência vivida por Gypsy Blanchard.

E os papéis exigem muita amplitude. A história se desenrola ao longo de muitos anos. Gypsy evolui e tem de executar vários níveis de artimanhas. É um papel que muitas atrizes experientes não dariam conta de interpretar. Ela nos deixou boquiabertos.

É uma história de amor tóxico entre mãe e filha, e as atrizes só a realçam.

Era muito importante para os roteiristas, e trabalhando com Patricia e Joey, não esquecer que as duas personagens se amam. E é um amor que vira uma coisa perversa e deformada, que acaba em assassinato. É uma história de amor profundamente tóxica.

Um dos motivos pelos quais Gypsy matou a mãe foi o amor que ela sentia. Todo mundo pergunta: “Por que não simplesmente ir embora?” ou “Por que você não contou para alguém o que estava acontecendo?”. E ela não conseguia, por causa do impacto que isso teria no relacionamento com a mãe, por causa das consequências que a mãe teria de enfrentar. Ela não conseguia pensar na ideia da mãe na cadeia; não conseguia aturar a ideia da mãe sofrendo sem ela. Apesar de ao mesmo tempo vir a odiar a mãe, ela achava que o assassinato era um ato de misericórdia.

A série se concentra principalmente em Dee Dee e Gypsy, mas você mostra algumas personagens coadjuvantes, interpretadas por Chloe Sevigny e AnnaSophia Robb, que fazem o papel de vizinhas. Como você tomou a decisão de incluir os papéis de Mel e Lacey?

Os vizinhos e médicos são personagens fictícios. São amálgamas de várias pessoas. O importante era ter personagens que gerassem empatia fora daquela casa cor-de-rosa, gente que representasse o público, porque quando você ouve a história você pensa: “Como as pessoas acreditaram nessa merda? Como as pessoas acreditaram nessa farsa durante tanto tempo?”.

E parte de você quer acreditar que as pessoas próximas das duas eram idiotas ou cegas, mas acho que não era o caso. Acho que qualquer um de nós seria enganado por uma mãe que consideramos excêntrica, mas parece movida por amor e pelo desejo de proteger a filha. Não vamos duvidar de alguém que diz que a filha está doente, que faz tudo por ela. Por isso é importante ter esse ponto de vista e ter a outra história de mãe e filha [Mel e Lacey], como reflexo de Dee Dee e Gypsy.

Hulu
“O importante era ter personagens que gerassem empatia fora daquela casa cor-de-rosa, gente que representasse o público, porque quando você ouve a história você pensa: 'Como as pessoas acreditaram nessa merda?'”, diz Antosca.

Você mencionou a casa cor-de-rosa – fale da direção de arte, da cara que você queria dar para o bairro, porque ele parece uma coisa meio conto de fadas. 

Bom, elas eram obcecadas por contos de fadas e foram morar nessa casinha num bairro [erguido pela ONG] Habitat for Humanity. Elas tinham ficado desabrigadas por causa do furacão Katrina, então, para elas, era um castelo. Era onde elas viveriam o resto de suas vidas. Até mesmo uma vida que pareça pequena para quem vê de fora pode ser grande para quem está dentro. Isso orientou nosso design.

Construímos o bairro inteiro com a intenção de recriar o bairro, mas com algumas melhorias. Queríamos criar essa sensação de um mundo insular. Boa parte da série se passa dentro da casa, então era importante recriar a experiência que era morar ali.

Na vida real, o bairro inteiro foi construído pela Habitat for Humanity, então tentamos recriar aquele senso de comunidade. Quando desmontamos tudo, doamos boa parte dos materiais para a Habitat for Humanity.

Você visitou o bairro real para ter uma ideia de como era?

Não. Michelle foi quando estava apurando a reportagem, muito antes da série. Nos baseamos em plantas, fotos e todas as evidências documentais para decidir o que iríamos recriar fielmente e o que mudaríamos por motivos dramáticos. Mas a casa em si é uma reprodução muito fiel.

A ideia é que esta seja a primeira temporada de uma série que reproduza crimes reais, como American Crime Story. Como vocês escolhem os crimes que vão dramatizar nas próximas temporadas?

Sinceramente, nem tenho como falar disso agora. Estou tão envolvido com a primeira temporada, esse é nosso único foco. Decidi fazer esse projeto por causa da história das Blanchard. Se fôssemos fazer uma segunda temporada, gostaria de algo que tenha uma relação igualmente rica, intrigante e complexa. Uma história que não seja sobre o crime ou o assassinato, mas sim sobre as pessoas por trás dele. Por falta de uma expressão melhor, uma história sobre gente comum.

Não é a história de O.J. Simpson ou Gianni Versace. Em The Act, estamos interessados em gente normal, que está em busca do sonho americano, mas não consegue alcançá-lo.

The Act estreou nos EUA no dia 20 de março, na plataforma de streaming Hulu.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.