OPINIÃO
03/08/2020 11:42 -03 | Atualizado 03/08/2020 11:44 -03

É urgente o letramento digital nestes tempos de fake news e ódio nas redes

“Quando cobramos as ferramentas e não apenas uma parcela de usuários, evitamos colocar ainda mais cobrança sobre quem já precisa dar conta de uma existência problemática."

Pela primeira vez na história, um homem trans estrela uma campanha nacional de uma grande marca em comemoração ao dia dos pais. Pela primeira vez na história, uma autora negra consegue o feito de ter três livros de sua autoria ocupando o topo da lista dos livros mais vendidos no Brasil.

No primeiro caso, a estrela em questão é Thammy Miranda, ator, filho da cantora Gretchen, e pai de primeira viagem de um bebê de oito meses (fruto de um tratamento de fertilização in vitro) com sua companheira, a modelo Andressa Ferreira. Em se tratando de um País católico, com crescente adesão popular a igrejas neopentecostais, conservador e, sobretudo, o País que tristemente lidera o ranking mundial de assassinato de transsexuais, tal feito é histórico e digno de reverberações.

No segundo caso a autora negra é Djamila Ribeiro, mestra em filosofia, professora, colunista da Folha de S. Paulo, idealizadora de projetos editoriais como as coleções  Feminismos Plurais e Selo Sueli Carneiro, ganhadora do prêmio holandês Prince Claus Laureate, além de uma das mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo segundo a poderosa lista anual 100 BBC Women. Em se tratando do País que lidera o ranking de assassinatos de jovens negros a cada 23 minutos e do País onde mulheres negras recebem menos da metade do salário dos homens brancos, tal feito é também histórico e digno de reverberações.

Mas não é bem isso o que vem acontecendo. Em ambos os casos, tanto na campanha da Natura com Thammy, quanto no caso de sucesso dos best-sellers de Djamila, o que temos visto nos últimos dias é uma avalanche de ódio virtual e proliferações de fake news de todas as ordens contra os dois episódios. E a origem dos ataques é algo ainda mais aterrador do que os ataques em si: em ambos os casos, o ódio vem de minorias, que, teoricamente, deveriam ser solidárias e empáticas aos feitos notáveis no que tange as comunidades LBTQ+ e a comunidade negra.

Mas qual a razão desses ataques vindos de grupos minoritários?

A mesma sociedade que produz hierarquias também segrega indivíduos em caixinhas. Esse modelo de organização social nos coloca o tempo todo num processo contínuo de individualização. É como se a opressão do outro que decorre do mesmo sistema que também me oprime não tivesse nenhuma relação com o outro e suas lutas.

Nesse modelo de sociedade, uma das principais estratégias operadas é a perda do nosso senso de coletividade. Por ser parte da estrutura social, tal condição está para todos nós, mesmo para pessoas que são minorizadas em decorrência dos seus marcadores sociais.

Por isso, nada impede uma mulher branca de ser racista ou um gay sem deficiência em ser capacitista, por exemplo.

Por esse e outros motivos vemos uma enxurrada de pessoas pertencentes a grupos minorizados repercutindo transfobia e articulando boicotes à Natura por conta da feliz escolha da empresa em contratar um homem trans como Thammy para protagonizar sua campanha do Dia dos Pais.

Da mesma forma também vemos uma enxurrada de pessoas de grupos minorizados alavancarem uma série de fake news e ataques contra a figura de uma pensadora negra retinta e bem sucedida como Djamila Ribeiro, pelo simples fato dela desenvolver um excelente trabalho intelectual direcionado à luta antirracista e à igualdade de direitos de gênero e raça.

Reprodução/Instagram
Thammy Miranda e empresa Natura viraram alvo de ódio nas redes sociais após veiculação de campanha dos Dia dos Pais. 

A violência chegou a tal ponto que pseudo-grupos revolucionários de esquerda encabeçados por pessoas brancas se valendo da imagem de pessoas minorizadas iniciaram campanha difamatória contra a filósofa. Entre outras coisas, a avalanche de ódio culminou com uma ameaça direta à filha adolescente de Djamila via Twitter, o que a levou a registrar um B.O. na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo, além de entrar com representação contra o Twitter no Ministério Público.

A filósofa ainda fará parte da campanha internacional Stop hate for profit que denunciará a bilionária rede social de forma global.

No caso da campanha da Natura, manifestações de boicote à marca já foram iniciadas, como a comandada pelo pastor Silas Malafaia alegando ser a campanha estrelada por um homem trans “uma afronta aos valores cristãos”. Nas redes sociais, internautas chegaram a criar a hashtag  #NaturaNão na noite de segunda (27).

Em contrapartida, ações da Natura disparam como nunca na Bolsa por conta da polêmica campanha e figuras proeminentes, como o digital influencer Felipe Neto, se ofereceram para fazer gratuitamente publicidade para a marca em sua conta do Twitter em clara retaliação ao boicote dos religiosos, dentre os quais se encontram muitas mulheres, pessoas negras, pardas, mestiças e de outros grupos minorizados.

O Twitter é a deep web das redes sociais, uma espécie de “terra de Marlboro”, onde perfis reais e fakes encontram um terreno fértil para a disseminação do ódio, das fake news, das intrigas e difamações com viralizações em tempo recorde. Reorganizar uma vida e reerguer uma reputação após um ataque de ódio viral no Twitter é coisa muito séria.

E a maioria desses ataques tem alvo específico.

Um estudo da Anistia Internacional conduzido em conjunto com a empresa de softwares Element AI chegou à conclusão que as mulheres negras são 84% mais propensas do que as brancas a serem incluídas em um tuíte abusivo ou problemático. “Um em cada dez tweets mencionando mulheres negras era abusivo ou problemático”, escreve a Anistia, “em comparação com um em cada quinze para mulheres brancas”.

O relatório conclui que, como empresa, o Twitter está falhando em sua responsabilidade de respeitar os direitos das mulheres online ao não investigar devidamente e responder a denúncias de violência e abuso de maneira transparente, o que leva muitas mulheres a se silenciarem ou se censurarem na plataforma. 

A Anistia define tuítes abusivos como aqueles que “incluem conteúdo que promove violência ou ameaças a pessoas com base em sua raça, etnia, origem nacional, orientação sexual, gênero, identidade de gênero, afiliação religiosa, idade, deficiência ou doença grave”, que podem incluir “ameaças físicas ou sexuais, desejos de dano físico ou morte, referência a eventos violentos, comportamento que incite medo ou calúnias repetidas, epítetos, tropos racistas e sexistas ou outro conteúdo que degrade alguém”.

E como lidar com ataques dos próprios grupos minoritários que sofrem os mesmos tipos de opressão que reproduzem? A questão é ter consciência da estrutura hierárquica que produz este tipo de discurso de ódio. O pertencimento a um grupo minorizado não livra ninguém de reproduzir preconceitos.

Todavia, a cautela nesse tipo de abordagem pública é necessária, pois tais críticas podem acabar saindo como tiro pela culatra, no sentido de que ao culpabilizar os próprios grupos minorizados pela perpetuação da exclusão e preconceito que eles mesmos sofrem, estamos oprimindo ainda mais os próprios oprimidos. Ou seja, não saímos do lugar. É necessário educar essas pessoas.

Por esse motivo também é importantíssimo que apontemos a maioria esmagadora que criticou os atos e não somente aqueles que, por motivos individuais, complexos e estruturais reproduzem a lógica da opressão.

Uma campanha de letramento digital viria a calhar nesses tempos de proliferações irresponsáveis de fake news e violências nas redes. A começar pelos que ocupam o topo da pirâmide: empresas como o Twitter e Facebook, que fazem vista grossa a esses crimes virtuais. 

Além disso, ao direcionarmos às críticas e cobranças para as ferramentas e não apenas para uma parcela de usuários evitamos colocar ainda mais cobrança sobre quem já precisa dar conta de uma existência problemática. Até porque, principalmente em se tratando de um País racista, homofóbico, transfóbico, machista e desigual como o Brasil, a corda sempre arrebenta para o lado do mais fraco.

É como diz Jorge Ben Jor na canção: “cautela e canja de galinha não faz mal a ninguém”.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.