26/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 26/02/2019 14:58 -03

Thais Roland, a mecânica que ensina mulheres a não cair em 'papo de mecânico'

“Na primeira aula na oficina eu vi que era isso que eu queria pra minha vida, achava demais de legal, magnífico”.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Thais Rollanda é a 356ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“Olha só, tem as rodas iguais as do meu”, diz sobre um carrinho de brinquedo que guarda desde a infância e ostenta em sua mesa de trabalho sob os pistões originais do Maverick que comprou em 2013. É fácil perceber o amor que ela tem por esse carro. No fundo de tela dos computadores, lá está ele de novo, dono da cena. No fundo de sua casa, em São Caetano do Sul, peças e mais peças dele tomam conta de parte da lavanderia. Mas isso não é um problema. “São todas dele”, explica com um largo sorriso no rosto. Fala de seu Maverick com uma alegria de quem enfim ganhou o presente que sempre quis. O que é realmente verdade. Thais Roland, 38 anos, mecânica, lembra que quando criança ganhou um caminhão que levava quatro carrinhos de brinquedo. Um deles, o Maverick verde. Ficou apaixonada e sonhava em ter um carro daqueles.  

Hoje, além do brinquedo, possui um, de verdade, em sua garagem. O batizou de Damien, “Damião para os íntimos”. Trabalha nele há anos. E ama cada etapa. Consultora automotiva, tem experiência com restauração de carros antigos e é autora do blog Coisa de Meninos Nada – que já existe há dez anos. Thais produz conteúdo com diversas dicas de mecânica para ajudar as pessoas a entenderem melhor seus veículos, além de realizar palestras e workshops. Acredita que é dessa forma que consegue alcançar mais gente.

Até tinha umas bonecas, mas meu lance era carrinho, sempre gostei e acho que nasceu comigo essa paixão.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Assim, já adulta e formada, um dia resolveu olhar melhor para esse gosto que tinha e foi fazer seu primeiro curso de mecânica de fato.

Mas antes disso, trabalhou em diversas oficinas e ao longo do tempo foi ficando cada vez mais apaixonada pelo ofício e certa de que seu lugar era em uma oficina. Mas levou um tempo para assumir esse gosto como profissão. Por muitos anos, Thais desenvolveu uma bem sucedida carreira na área de tecnologia. “Sou formada em Ciência da Computação e não me passava pela cabeça que podia trabalhar com carros. Estudei, fiz carreira, trabalhava em multinacionais, mas chegou um ponto...quando você não faz o que você gosta você fica saturado. E deu esse estalo de que tinha alguma coisa errada”.

Nessa época, o gosto por carros, que veio da infância, era apenas um hobbie. Acostumada a ver o avô realizar pequenos reparos nos carros dos vizinhos e parentes, Thais já se encantava pela atividade. “Ninguém na minha família é louco por carro, isso veio de mim. Mas meu avô era louco por ferramentas e depois que se aposentou ele começou a fazer pequenos reparos nos carros da família e eu era criança, voltava da escola e ficava com ele e acompanhava. E tinha meu pai que também fazia reparos em casa, mexia nas coisas e sempre gostei”. Tanto que a família notou e começou a dar presentes  que eram realmente do gosto de Thais. Foi assim que aquele Maverick de plástico verde entrou em sua vida. “Até tinha umas bonecas, mas meu lance era carrinho, sempre gostei e acho que nasceu comigo essa paixão”.

Na primeira aula na oficina eu vi que era isso que eu queria pra minha vida, achava demais de legal, magnífico.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O Maverick estacionado em sua garagem foi apresentado "formalmente" à reportagem como seu "xodó".

Assim, já adulta e formada, um dia resolveu olhar melhor para esse gosto que tinha e foi fazer seu primeiro curso de mecânica de fato. Lembra que era um workshop só para mulheres. “Tinha umas peças desmontadas e eu achei aquilo encantador”. Depois, já foi para um curso técnico e tudo foi ficando cada vez mais claro. “Na primeira aula na oficina eu vi que era isso que eu queria pra minha vida, achava demais de legal, magnífico”. E foi um caminho sem volta. Foi demitida da empresa em que trabalhava e pode se dedicar totalmente a nova formação. Começou a fazer estágios em oficina e já traçava ali sua nova carreira, feliz da vida.

O ambiente majoritariamente masculino não foi um empecilho para ela. Admite que realmente sempre esteve em equipes de homens, mas que nunca foi desrespeitada nesses ambientes. “Olha, eu sofri assédio em empresa e em oficina sempre fui muito respeitada. O preconceito que tinha de vez em quando era dos clientes que não queriam que eu mexesse no carro. Mas os donos [das oficinas] faziam questão de deixar claro que esse comportamento não era bem vindo. Isso eu achava o máximo”.

Temos essa cultura de que o cara tem que saber de carro. Então a mulher pergunta tudo, quer saber, quer ver. É muito mais fácil enganar um cara do que uma mulher.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Por muitos anos, Thais desenvolveu uma bem sucedida carreira na área de tecnologia.

E, para Thais, esse estereótipo de que mulher não entende de carro é algo ultrapassado. Aliás, ela acredita que hoje é muito mais fácil um homem ser enganado em uma oficina do que uma mulher. “Temos essa cultura de que o cara tem que saber de carro. Então a mulher pergunta tudo, quer saber, quer ver, o cara, como ‘tem que’ saber o mecânico faz duas perguntas e já percebe se ele entende ou não e lança o que ele quiser e o cara, para não mostrar que não sabe, concorda e fala que ‘era isso mesmo que ele estava achando’, então pronto. É muito mais fácil enganar um cara do que uma mulher”.

Mas, claro, Thais sabe que em alguns momentos ela, como mulher nessa área, precisa tomar alguns cuidados diferentes. Nos vídeos que produz, por exemplo, ela faz questão de sempre buscar mais informações, por mais que ela domine o assunto, porque sabe que existe um outro tipo de cobrança. “Procuro a indústria, os fabricantes, peço informação para embasar porque na internet tem muita gente que se incomoda demais com uma mulher falando de mecânica e eu não posso falar nada errado. Um cara pode, pode ensinar uma gambiarra e gostam, mas eu tenho que tomar muito cuidado. Então sempre fundamento o que estou falando”.  

Faz isso tranquila. Porque gosta. E é natural para ela continuar estudando, buscar de um novo desafio. Tanto que além do Maverick, Thais tem ainda uma DKV vinho – e um “carro moderno” para o dia a dia. “A DKV é minha com meu namorado, ele gosta de carro antigo também e queremos que seja um projeto nosso...pegar, levantar e vender. É demais de legal”. Tudo para ela nessa área é assim. Fala como se fosse algo mágico. “É muito gostoso você acordar e ir lá mexer nos carros... Você fica lá batendo papo com o carro, é uma delícia mexer com mecânica, é gostoso, encantador. Você pegar com um carro parado e daqui a pouco ele está andando de novo”.

Olha, eu sofri assédio em empresa e em oficina sempre fui muito respeitada. O preconceito que tinha de vez em quando era dos clientes.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Você fica lá batendo papo com o carro, é uma delícia mexer com mecânica, é gostoso, encantador."

É o que sempre espera que aconteça. Enquanto desencapa o Maverick estacionado em sua garagem para apresentar à reportagem seu xodó, fala ansiosa sobre o que ainda precisa arrumar nele e lembra desse grande encontro. “Foi amor à primeira vista. Não estava nem funcionando, paguei barato porque ele é podre, tive que fazer o motor inteiro, o carro está péssimo”, conta sem tirar aquele sorriso do rosto. Para ela isso não é um problema. Está animada com todo o trabalho que ainda tem. O próximo passo, é juntar dinheiro para a funilaria do carro. O resto, para fazê-lo andar tranquilo, vai ser por conta dela. Está tudo certo. Thais sabe o que fazer.  

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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