12/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 12/02/2019 00:00 -02

Thaís Basile, a mãe que não acredita em uma educação punitivista

“Nunca existiu educação respeitosa. Só tem autoritarismo e permissividade. Quero mostrar que tem um caminho do meio."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Thaís Basile é a 342ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“Mãe, preciso contar uma verdadona”, diz Lorena, 5 anos e sete meses, quando quebra algum objeto em casa. Thais Basile, 37 anos, já se acostumou. Quando ouve essa frase, já sabe o que está por vir. E Lorena também está preparada. Tem a segurança de que não vai levar uma bronca. “Minha filha quebra alguma coisa em casa e ela não esconde, ela não tem medo. Não tem punição, tem reparação. Ela pode assumir o que fez”.

Essa foi uma das conquistas de Thais, educadora parental, após começar a usar técnicas de educação positiva com sua filha. Ela passou a compartilhar a experiência na internet e quando viu a coisa se tornou algo muito maior. Hoje, ela abriu sua própria empresa e faz atendimentos, dá cursos, palestras e workshops para tentar mostrar que existe uma forma diferente de acompanhar e guiar as crianças. “Nunca existiu educação respeitosa no Brasil. Só tem autoritarismo e permissividade. Quero mostrar que tem um caminho do meio”.

Eu tive uma infância muito ruim, perdi uma irmã quando eu tinha 5 anos, minha infância foi de luto.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
“Mãe, preciso contar uma verdadona”, diz Lorena, 5 anos e sete meses, quando quebra algum objeto em casa.

Atualmente ela sabe bem disso. Mas aprendeu pela dor. Quando a filha nasceu, Thais conta que achou que “ia ser o máximo como mãe”, que nunca ia gritar com ela, nunca ia querer bater. Mas as coisas não aconteceram de forma tão tranquila. “Eu tive uma infância muito ruim, perdi uma irmã quando eu tinha 5 anos, minha infância foi de luto, meus pais melancólicos e você acha que ficou na infância”.

Percebeu que não tinha ficado. Passou por um transtorno emocional no puerpério e quando iniciou a introdução alimentar da filha, aos seis meses, enfrentou muitos problemas. “Ela não comia nada, cuspia, fazia cara de nojo e eu me peguei tendo umas raivas que eu não sabia de onde vinha. Ela não ganhava peso e isso mexe com uma parte visceral da mãe, você acha que não é uma boa mãe, que não está fazendo o necessário, é um desespero. E perto de um ano e pouco eu comecei a pirar, gritava, colocava chinelo na mesa, quebrei um pratinho dela uma vez”.

Thais passou a discutir muito com o marido também e a convivência ficou complicada. “A gente brigava um com o outro, brigava com ela, não sabia o que fazer, era um caos. No fim eu descobri que ela tinha um problema de saúde que precisou operar”.

Se aquilo era ser mãe eu não queria.
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Quando a filha nasceu, Thais conta que achou que “ia ser o máximo como mãe”. Mas não foi exatamente assim que aconteceu.

Mas não foi só isso que fez as coisas mudarem e ajudou Lorena a comer. Nesse processo, Thais começou a ler sobre outras técnicas de educação. “Se aquilo era ser mãe eu não queria. Não queria gritar, me sentir esse lixo de pessoa. E quando você está nervosa a criança fica mais nervosa, eles sentem tudo então é um ciclo do horror. Descobri [a disciplina positiva] um pouco antes da cirurgia e calhou tudo. Ela melhorou da garganta e eu comecei a lidar de outra maneira com ela e virou o paraíso”.

Decidiu aprofundar os estudos e começou a querer compartilhar com os outros essa experiência e criou uma rede de pais e mães pela educação não violenta. Com o sucesso da página, foi fazer especialização e criou o perfil no Instagram. Hoje, o seu perfil, Educação pela Paz tem mais de 120 mil seguidores. Com a alta procura, Thais foi diversificando o negócio.

“Tenho curso de áudio por WhatsApp, curso completo para quem quer aprofundar, opções baratas para mães da periferia, atendo mãe solo de graça, respondo o máximo que consigo das mensagens porque é uma informação que não posso reter para mim, quero que se espalhe. Existem outras maneiras de educar”.

E quando você está nervosa a criança fica mais nervosa.
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Thais aprendeu a entender porque as crianças fazem o que fazem – e, o principal, porque os adultos reagem como reagem.

Foi realmente uma grande descoberta. Thais aprendeu a entender porque as crianças fazem o que fazem – e, o principal, porque os adultos reagem como reagem e como mudar esse ciclo. Foca sempre em valorizar os pontos fortes das crianças e apoiar a desenvolver os demais. Estimula a acolher os sentimentos das crianças e a principal mudança ocorre no comportamento do adulto.

“Eu sou anti-punitivista porque quando você pune uma criança você vai contra o que você quer porque você quer ela aprenda, mas com punição ela sente muita vergonha, muita raiva e o cérebro se fecha para se proteger daquele estresse, isso é científico, então você não consegue ensinar”.

Para ela, isso tem muita relação com o tipo de criação que cada um recebeu de seus pais e parte do desafio é refletir sobre isso, ver o que faz sentido e buscar novas formas de relacionamentos.

Dá trabalho. Mas ela garante que o esforço e o cuidado vale a pena. “A proteção à infância no Brasil é recente. Se a proteção física é tão recente, imagina a emocional? As pessoas não pensam nisso, acham que as crianças esquecem [o que acontece na infância] e não é verdade. As coisas vêm da infância, os rótulos que os adultos colocam de dizer que a criança é preguiçosa, é inútil... O que a gente fala para uma criança é sagrado e isso não quer dizer que temos que passar a mão na cabeça e falar que são lindos e perfeitos, mas você tem que incentivar, falar das forças e incentivar nos pontos fracos. Não é elogiar toda hora, não é criar reizinhos”.

Esse, aliás, e é um dos desafios do trabalho. Há uma confusão entre dar limite e ser agressivo, acolher e mimar e isso gera um pouco de preconceito e resistência com o método.

“A geração que foi muito abusada, apanhou muito dos pais em geral é muito permissiva e isso não é respeitoso, não é legal deixar a criança sem limite, sem certo e errado. Mas tem N maneiras de dar limites para uma criança baseado no respeito. Confundem dar limites com ficar contra a criança. Você pode dar limite estando a favor da criança. As pessoas têm medo porque confundem acolher com mimar”.

O que a gente fala para uma criança é sagrado.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

Thais deixa claro que são coisas totalmente diferentes e que a ideia é sim, dar limites. Mas de uma outra forma e de levar em consideração as particularidades e sentimentos das crianças.

“Não prejudicar o ambiente, nem a si e nem as outras pessoas são as premissas do limite. Somos da geração do ‘não fui eu’ e tem uma geração agora que é a do ‘desculpa ai’. Mas você sabe o que você fez? Não adianta ficar no ‘desculpa aí’ e não reparar o erro”.  

Nem sempre é fácil, é claro. E a ideia também não é criar um novo manual de como criar os filhos e colocar mais um peso nas mães e famílias na criação das crianças. “Não é para colocar como maternidade perfeita. Claro que vai ter briga, vai ter grito às vezes, mas não vai ser uma constante”. E Thais lembra que já foi essa pessoa e pode falar por experiência própria que não é um peso a mais mudar esses comportamentos, pelo contrário.

“Isso livra a mãe. Ela ter ferramentas para ser mais respeitosa vai sobrar tempo, vai sobrar paz para olhar para ela, para conseguir brincar com a criança e vai ter força para outras coisas. Não entra na lista de maternidade romantizada, isso é uma potência”.

E como foi para ela.

“Mudou minha vida completamente, não tomo mais remédio, não sou refém de nenhum transtorno, você vira uma chave e vê a criança como uma grande oportunidade e não como um problema e um fardo e isso ter livra de muitas coisas”.

Não é para colocar como maternidade perfeita. Claro que vai ter briga, vai ter grito às vezes, mas não vai ser uma constante.
Caroline Lima
Thaís defende com empenho a educação positiva e respeitosa

Ela comemora o alcance que tem conseguido, mas avalia que ainda é uma bolha e que a procura tem bastante relação com movimentos anteriores de humanização do parto, criação com apego. Mas é algo que ela realmente vê como essencial para o futuro e como muito relevante para a vida das crianças. “Nossa ideia é criar pessoas autorreguladas que sabem por que fazem o que fazem e o amor incondicional. Eu aceito tudo que minha filha sente, mas não aceito todos os comportamentos. Uma coisa é falar que ela é feia e outra que o que ela fez é feio. É essa a diferença”.

Por isso defende com empenho a educação positiva e respeitosa. Espera que, assim, cada vez mais gente possa compreender esses conceitos. “Minha grande esperança é que saibam o que é, que vejam que não precisa ser nem autoritário e nem permissivo para criar e guiar as crianças de uma maneira próxima. Quero levar para o máximo de pessoas que existe um caminho do meio.  Tem uma opção mais humana”.

Aquela opção em que se pode, sempre, falar a verdade nas relações. Com aquela naturalidade – e às vezes até pureza, como tantos dizem – que toda criança tem. Que essa essência seja mantida.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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