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05/10/2019 02:00 -03 | Atualizado 07/10/2019 15:56 -03

O Brasil que dorme sem destino na maior rodoviária do País

A voz dos "moradores" do terminal Tietê, em São Paulo.

Fernanda Seavon/Especial para HuffPost Brasil
Terminal Tietê, a maior rodoviária do País, serve de "moradia" para dezenas de pessoas.

Faz frio. Dentro de alguns minutos, o metrô fechará suas portas. Quase todos estão com pressa. Entretanto, algumas pessoas se ajeitam para dormir. As cadeiras da rodoviária Tietê – a maior de São Paulo e do País – são rígidas e não foram feitas para esperas longas. José Antônio, vendedor aposentado, arruma seu corpo magro de 72 anos como pode. Antes de cair no sono, responde: “É José Antônio, só José Antônio mesmo”.

O homem faz parte de um grupo que usa as dependências da Rodoviária Tietê para pernoitar. Em diversas ocasiões, a reportagem deparou com cerca de 40 pessoas nessa situação. Elas decidem passar a noite na rua por desavenças familiares, desemprego, desconfiança em relação a abrigos municipais ou simplesmente pela distância de suas casas em relação ao centro da cidade.

Habituado a dormir na Tietê, o boliviano Gabriel Gutierrez, 35, conta que se sente seguro no ambiente. Robusto, de estatura mediana e cabelos escuros arrumados com gel, fala um portunhol grave.

Dá para se lavar no banheiro da rodoviária, tem rostos familiares e, embora não seja ideal, não deixa de ser uma casa.
Fernanda Seavon/Especial para HuffPost Brasil
O costureiro Gabriel Gutierrez não tem dinheiro suficiente para pagar pensão no Bom Retiro, onde trabalha.

Gutierrez ouve com atenção ao ser questionado, intercalando, às vezes, um olhar distante antes de responder. “Dá para se lavar no banheiro, tem rostos familiares e, embora não seja ideal, não deixa de ser uma casa”, diz, com uma expressão dura.

Ele é costureiro e trabalha em uma loja de confecção no Bom Retiro. Segundo ele, com o salário que recebe, não é possível pagar um quarto de pensão de modo contínuo. Por isso, ele recorre à Rodoviária de duas a três vezes por semana.

No Brasil há mais de sete anos, o boliviano afirma que a rotina tem sido essa desde que chegou em São Paulo. “Com o dinheiro que envio à minha família, sobra pouco e eu não me incomodo de ficar aqui”, diz, apontando para a rodoviária.

Sério, sorri ao falar de música brasileira. Segundo ele, o melhor baile da cidade acontece na Rua Coimbra, com “estrangeiros, música boa e pinga caseira”. Gutierrez diz que só bebe aos fins de semana e que suspeita que bebidas alcoólicas pioram os tremores que sente na mão esquerda. “Um costureiro não pode tremer”, alerta.

Quando questionado a respeito de planos em relação ao trabalho e à moradia, Gutierrez hesita: “Se eu ganhasse mais, não sei se seria diferente”. Um levantamento do FipeZap mostrou que, entre janeiro de 2008 e março de 2018, os preços dos imóveis cresceram 257% e o salário mínimo, 130%.

Esses números preocupam o urbanista Luiz Kohara, pós-doutor em sociologia urbana pela Universidade de São Paulo, que defende um orçamento maior quando se trata de investimento público destinado ao direito à moradia. “Em tese, o programa de Locação Social seria a solução, pois ele incentiva a construção de apartamentos mais baratos para alugar, mas o problema é que contempla apenas pessoas com renda”, discorre Kohara.

Em São Paulo, o parque público de Locação Social conta com 903 unidades habitacionais distribuídas entre seis empreendimentos. Todos estão localizados em áreas próximas à região central da cidade. “A localização é muito importante”, continua Kohara. “Mas parece que o programa está mais orientado à lucratividade das empreiteiras do que à questão social.” O urbanista diz que, idealmente, o governo isentaria as pessoas do aluguel e faria um acompanhamento socioeducativo.

Mariana Vilela/Especial para HuffPost Brasil
Francisco prefere dormir no terminal do Tietê a ir par albergues de São Paulo.

Entre cobertor sujo e sono interrompido

“Durmo aqui porque os albergues são ambientes muito ruins”, conta Francisco da Silveira, 62, enquanto coça o olho doente e fala baixo para não incomodar quem está dormindo. Silveira é um homem alto, magro e solene. Seus gestos são como sussurros e portam uma inocência pueril.

Segundo ele, no começo do ano – não lembra em qual mês – estava em um albergue perto da Tietê quando um homem entrou ameaçando os inquilinos. Desde então, não voltou. “Estou aqui [na rodoviária] porque fui roubado, perdi todo meu dinheiro, mas não quero falar sobre isso”, comenta.

Silveira diz que sua família mora no norte do País. Marceneiro e pai de dez filhos, o homem sonha em construir uma casa para cada. “Eu tenho saúde, religião, não sou diabético e a cabeça tá boa; precisa de mais?”, indaga. Logo em seguida, responde à própria pergunta com um sorriso dolorido: “um cobertor limpo ajudaria também, né?”.

Para entender o tom da pergunta, é preciso compreender o que a antecede. Em nota, a Socicam, empresa responsável pela administração do Terminal Rodoviário Tietê, explica como a gerência lida com o grupo que pernoita. “Sempre que identificamos pessoas em situação de mendicidade ou que necessitam de qualquer auxílio social, direcionamos para o Centro Pop Santana, serviço especializado oferecido pela Prefeitura de São Paulo”, diz a companhia em nota.

Entretanto, essa diretriz não pôde ser observada na prática. A equipe de limpeza foi a única vista pela reportagem circulando pelas dependências da Rodoviária no período da madrugada. Os funcionários seguem um padrão. Acordam as pessoas e pedem que elas se retirem para dar início à faxina. Desta maneira, a cada hora, em média, as pessoas têm seu sono interrompido.

“Nós não temos descanso”, diz Daniele dos Santos, 30, atendente comercial desempregada. Enquanto conversa no WhatsApp, num celular simples com a tela quebrada, a mulher exala um perfume doce e diz que não pretende ficar dormindo na Tietê por muito tempo.

Magra, de baixa estatura e vaidosa, retoca o batom rosa assim que termina o lanche. Comenta que nunca saiu do estado de São Paulo e que está procurando emprego, mas não encontra. O celular desvia novamente sua atenção.

Com um olhar inquieto, Santos afirma que tem sido perseguida pelo ex-companheiro em albergues e locais públicos. Enquanto elabora sua história, o homem citado aparece, senta-se ao lado dela e ambos começam a discutir. Ao ser questionada se gostaria de uma intervenção do segurança do Terminal, responde: “Não faça isso. Eles vão me tirar daqui e perco meu teto”.

Fernanda Seavon/Especial para HuffPost Brasil
São diversas as razões que levam pessoas a pernoitar na rodoviária em SP.

Moradia em São Paulo

Estima-se que 20 mil pessoas estejam atualmente em situação de rua na cidade de São Paulo. Inclusive, a gestão Bruno Covas (PSDB) decidiu antecipar o censo – que seria realizado apenas em 2020 – para averiguar os números exatos e discutir possíveis soluções.

“Devido à crise econômica que vem afligindo o País nos últimos anos, a perspectiva é que esse número [de pessoas em situação de rua] tenha crescido”, explica a prefeitura em nota. Embora a cidade tenha uma das maiores redes de serviços socioassistenciais da América do Sul, com 18 mil vagas em 104 centros de acolhida, temporários e permanentes, o déficit hoje chegaria a dois mil lugares.

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informa que equipes de orientadores socioeducativos atuam nos arredores do Terminal Rodoviário Tietê para oferecer encaminhamentos necessários, incluindo questões como acolhimento, almoço e relacionadas à empregabilidade. “Vale ressaltar, no entanto, que as pessoas não são obrigadas a aceitar acolhimento, sendo o aceite voluntário”, pondera a assessoria da SMADS.

Acontece que os orientadores em questão não foram vistos pela reportagem no local. No momento, apesar dos esforços das instituições responsáveis, “os moradores da Tietê” contam somente com eles próprios.

Fernanda Seavon/Especial para HuffPost Brasil
Sono dos "moradores" da rodoviária Tietê é interrompido de hora em hora por funcionários de limpeza.

Crise de moradia em outros países

Em Nova York, nos Estados Unidos, uma ONG chamada Breaking Ground constrói unidades habitacionais para pessoas em situação de rua. “Nós fornecemos alojamento provisório enquanto trabalhamos com eles [moradores de rua] para garantir moradia estável, permanente”, explica a CEO, Brenda Rosen.

“Temos um modelo misto que funciona muito bem. Normalmente 60% das unidades em nossos projetos são destinadas a indivíduos anteriormente sem-teto, e os 40% restantes são lares para trabalhadores de baixa renda.” Dessa forma, Rosen defende que consegue reduzir o estigma a respeito de moradores de rua e criar um forte senso de comunidade.

“Para que isso ocorra na realidade brasileira, os movimentos sociais precisam ser fortalecidos”, argumenta Kohara. Na cidade de São Paulo, existem mais de 100 grupos organizados pelo direito à moradia com diferentes focos nos problemas habitacionais. Eles são os responsáveis por pressionar órgãos públicos pela formulação e implementação de programas habitacionais de interesse social. “A luta é para que não haja exploração e para que as iniciativas sejam transparentes, participativas e justas”, conclui.