Os efeitos de 2020 sobre a saúde mental, de acordo com terapeutas

Aqui está como nosso bem-estar pode mudar até o final deste ano: ansiedade, trauma e menos estigma em relação à terapia.

Comecei a fazer terapia pela primeira vez. Minha saúde mental nunca tinha afetado seriamente meu dia a dia, nem mesmo em 2019, quando um parente foi diagnosticado com câncer em estágio avançado. No entanto, em 2020, com a pandemia de covid-19, a ansiedade e o desespero passaram a ser protagonistas.

É claro que não sou a única. Os efeitos psicológicos da pandemia sobre as pessoas em geral, os trabalhadores de serviços essenciais e sobreviventes do coronavírus são semelhantes aos causados por desastres de grande escala, quando a depressão, o estresse pós-traumático e a ansiedade aumentam bastante. Esses sentimentos também chegaram a um pico um ano depois do surto de SARS em 2003. Além disso, a quarentena também afetou negativamente a saúde mental.

Nos Estados Unidos, a pandemia não é o único fator responsável pela perturbação da saúde mental da população. A turbulência política do país gerou angústia em muitos grupos marginalizados. Por exemplo, no caso da comunidade negra, a brutalidade policial e o racismo tiveram efeitos negativos sobre a saúde mental.

De acordo com um estudo de acompanhamento da resposta à covid feito recentemente pelo Centro Nacional de Pesquisa de Opinião dos EUA, não houve melhora dos sintomas que indicam danos à saúde mental dos americanos entre maio e agosto de 2020.

Então, como ficará a saúde mental das pessoas até o final do ano? Quais desafios enfrentaremos? Haverá algum aspecto positivo? Para celebrar o Dia Internacional da Saúde Mental, pedimos que terapeutas compartilhassem suas percepções:

As pessoas enfrentarão a tristeza e a perda de uma forma totalmente diferente

Desde que o senso de normalidade foi abalado pela covid-19, as pessoas passaram por grandes perdas e tristezas, mesmo que elas não percebam isso.

Além de estar de luto por entes queridos que morreram, as pessoas também estão sofrendo com a perda de empregos, eventos especiais, planos de viagem e rotinas. Sima Kulshreshtha, terapeuta de Seattle, disse que a tristeza aumentará cada vez que as pessoas descobrirem um aspecto de suas vidas que não voltará a ser como era antes da pandemia.

O estresse aumentará, pois alguns seguirão as restrições e outros não

“A esta altura, as pessoas já sabem o que fazer para manter a segurança e estão tomando decisões por si mesmas sobre os riscos que estão dispostas a correr”, disse Kulshreshtha.

Segundo ela, saber que há pessoas que não estão seguindo as orientações de saúde e segurança pode causar danos psicológicos. Por exemplo, os trabalhadores essenciais, que estão fazendo o possível para proteger os entes queridos do vírus, podem ficar estressados com familiares e amigos agindo com imprudência. Também pode haver controvérsia sobre o que é seguro ou não em relação a reuniões sociais ou familiares.

As terapeutas estão preocupadas com o estresse dos pais que monitoram o ensino à distância dos filhos enquanto trabalham.
As terapeutas estão preocupadas com o estresse dos pais que monitoram o ensino à distância dos filhos enquanto trabalham.

As pessoas podem ficar ainda mais esgotadas

Ashley Ertel, terapeuta da Talkspace, disse que está preocupada com o bem-estar dos profissionais de saúde, que devem estar exaustos devido às exigências do trabalho. Ela disse que eles provavelmente estão sacrificando o tempo de folga, os relacionamentos ou outros aspectos que trazem tranquilidade às suas vidas para lutar contra o coronavírus.

As pessoas com filhos em idade escolar também têm outro motivo de preocupação. Christina Hong Huber, pós-doutoranda residente em psicologia e terapeuta no Instituto de Terapia Comportamental de Arlington/DC, está preocupada com o estresse dos pais que monitoram o ensino a distância dos filhos durante o trabalho. Além disso, os pais que já cuidavam dos filhos em tempo integral não têm mais horários livres.

Os estudantes também podem ter que suportar uma carga emocional singular

Akeera Peterkin, assistente social clínica licenciada e proprietária da Amani Nia Therapeutic Services, preocupa-se com a falta de socialização dos jovens adultos por não estarem na escola ou na universidade.

Segundo Peterkin, a socialização auxilia no crescimento e na formação da identidade e é uma maneira de reduzir o estresse entre os jovens. A falta de válvulas de escape e dos recursos proporcionados pela escola e a ausência dos colegas podem prejudicar o amadurecimento emocional.

“Eles podem se sentir angustiados, impotentes ou preocupados e tentar controlar até as coisas mais insignificantes. Alguns podem não ser tão vulneráveis quanto outros e tentar não expor os sentimentos nem pedir ajuda para criar uma sensação de segurança para si mesmos”, refletiu ela.

Os índices de depressão podem aumentar

De acordo com uma pesquisa, enfrentar dificuldades contínuas e prolongadas, como as que estão acontecendo durante a pandemia, pode aumentar o risco de depressão.

“A interrupção da rotina, o confinamento em casa e a redução das distrações fizeram com que os sentimentos negativos viessem à tona. Essa sensação de isolamento pode contribuir para o aumento da ansiedade e dos sintomas da depressão. Além disso, o distanciamento social pode agravar ainda mais a angústia”, disse Hong Huber.

"Ou as pessoas querem se proteger e criar uma sensação de segurança e controle ou sentem que não têm capacidade de manter o controle e a segurança", diz a assistente social clínica aposentada Akeera Peterkin.
"Ou as pessoas querem se proteger e criar uma sensação de segurança e controle ou sentem que não têm capacidade de manter o controle e a segurança", diz a assistente social clínica aposentada Akeera Peterkin.

Provavelmente a ansiedade também aumentará

“Muitas pessoas estão sofrendo com a ansiedade devido a vários fatores, como a incerteza deste ano, o medo da covid, a brutalidade policial, a injustiça social, a falta de liderança e muitos outros. É muito provável que esses sentimentos persistam até o final de 2020”, disse Peterkin.

Ela está bastante preocupada com os últimos meses de 2020, já que as festas de fim de ano podem provocar ainda mais ansiedade devido às reuniões familiares e trocas de presentes, especialmente para quem perdeu o emprego.

“Também temos uma eleição muito importante, por isso, o fim de ano pode trazer muitas discussões ou brigas familiares dependendo das opiniões políticas”, disse Peterkin.

Os trabalhadores essenciais que não atuam na área de saúde também podem estar preocupados com o próprio bem-estar. Para Kulshreshtha, os funcionários de restaurantes ou lojas podem perder a confiança em empregadores que não estejam levando a covid-19 tão a sério como no início da pandemia.

Quem trabalha na área da saúde enfrenta um desafio diferente. Esses profissionais podem ficar sobrecarregados, já que mais pessoas adoecem no inverno, com gripe e outras doenças além da covid-19.

Por fim, Kulshreshtha prevê que a ansiedade aumentará quando as restrições à pandemia forem aliviadas e as pessoas começarem a pensar em participar novamente de eventos sociais que sempre consideraram estressantes, como reuniões de trabalho, e em frequentar espaços públicos ou voltar a uma rotina em que existe a possibilidade de exposição.

Os meses mais frios podem agravar os problemas de saúde mental

“Para algumas pessoas, o frio pode agravar os problemas de saúde mental e aumentar a sensação de tristeza”, disse Hong Huber.

A cada ano, quando o clima muda com a chegada do outono e do inverno, pelo menos 5% dos americanos apresentam transtorno afetivo sazonal e aproximadamente 14% deles apresentam alguma forma de tristeza. A diminuição da socialização ao ar livre, que é uma das consequências da pandemia, pode piorar o problema.

Algumas pessoas podem desenvolver transtornos de estresse pós-traumático

As pessoas que são constantemente expostas a traumas correm mais riscos de desenvolver problemas de saúde mental. Em alguns casos, esses problemas podem evoluir para um transtorno de estresse agudo ou até mesmo um transtorno de estresse pós-traumático.

Essas afirmações são verdadeiras principalmente para quem trabalha na área da saúde lutando contra a covid-19 e para a comunidade negra que lida com a injustiça social e a brutalidade policial, mas também valem para outras pessoas que passam por dificuldades durante a pandemia. Peterkin acrescentou que, com o trauma, o sistema fica sobrecarregado com fatores de estresse, o que pode ser arrasador.

“O corpo tende a ficar alerta o tempo todo”, disse Peterkin. “Ou as pessoas querem se proteger e criar uma sensação de segurança e controle ou sentem que não têm capacidade de manter o controle e a segurança. Quem se sente incapaz costuma apresentar sintomas de estresse pós-traumático″, completa.

Esses sintomas podem incluir insensibilidade emocional, fuga persistente das memórias do trauma, dificuldade para dormir e concentrar-se, nervosismo e irritação.

O ano de 2020 nos ensinou a manter contato com as pessoas que amamos, ter conversas verdadeiras e estender uma mão amiga.
O ano de 2020 nos ensinou a manter contato com as pessoas que amamos, ter conversas verdadeiras e estender uma mão amiga.

O retorno de algumas certezas pode ajudar

“Como percebemos que não teremos uma vacina tão cedo e que o vírus continuará circulando em 2021, temos um pouco mais de certeza dos fatos, o que nos permite tomar fôlego para enfrentar a segunda metade do ano”, disse Hong Huber.

Além disso, sabemos o que esperar em termos de possíveis lockdowns e o que precisamos fazer para cuidar da saúde. Essas informações podem fazer com que a pandemia pareça um pouco mais clara do que quando começou.

Até o final do ano, Kulshreshtha também prevê que quem não aderiu às interações virtuais no início da pandemia passará a utilizar mais a tecnologia, o que também pode ajudar a melhorar a saúde mental.

Mais pessoas pensarão em fazer terapia para melhorar o bem-estar

Ao longo do ano, “as pessoas mais privilegiadas financeira e socialmente tiveram mais tempo, motivação e empenho para dedicar a si mesmas e a suas famílias e parceiros”, disse Hong Huber.

Cada vez mais pessoas e casais estão fazendo terapia com frequência para aprender a lidar com problemas de saúde mental, e essa tendência continuará em alta. É provável que finalmente a ajuda profissional passe a ser vista com bons olhos.

Segundo Peterkin, a resiliência também será fundamental para ter resultados positivos em relação à saúde mental. A terapia e outros recursos profissionais podem ser muito úteis.

As comunidades podem ficar mais conectadas

Peterkin disse que há um lado positivo em tudo o que aconteceu em 2020. Esse ano nos ensinou a manter contato com as pessoas queridas, ter conversas verdadeiras sobre questões como racismo estrutural e oferecer ajuda a estranhos.

“Podemos chegar ao final de 2020 como uma comunidade mais forte, capaz de ajudar as pessoas a se sentirem mais conectadas, mesmo com o distanciamento social. Essas lições serão muito importantes para a saúde mental”, concluiu ela.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Austrália e traduzido do inglês.

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