OPINIÃO
30/10/2020 04:00 -03 | Atualizado 30/10/2020 04:00 -03

O paradoxo de 'Tenet': Como pode um filme ser divertido e chato ao mesmo tempo?

Primoroso tecnicamente, novo filme de Christopher Nolan perde impacto quando insiste em explicar trama rocambolesca.

Logo após uma alucinante sequência ao estilo “filme de roubo” que praticamente virou uma marca d’água na filmografia de Christopher Nolan, uma personagem tenta explicar ao protagonista de Tenet sobre objetos que tiveram sua entropia invertida. Ao fim da mini-aula de física em que tanto o protagonista quanto o espectador ficam com cara de paisagem sem compreender bulhufas, ela diz: “Não tente entender, apenas sinta”.

Mesmo que muito rápida, essa cena é essencial para quem quer (finalmente) curtir o tão aguardado filme do diretor britânico, que estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (30). Por mais que o próprio Nolan não tenha seguido o sábio conselho de sua personagem.

Se por um lado Tenet nos agracia com algumas das sequências de ação mais impressionantes dos últimos tempos, a constante “obrigação” do cineasta em nos explicar o que está acontecendo beira o insuportável.

Muitos críticos compararam Tenet a filmes de James Bond e eles não estão totalmente errados. Aliás, é aí que reside o ponto forte da produção. Quando se concentra em ser apenas uma trama de espionagem amalucada, Tenet é extremamente divertido. Mas Nolan não se contenta com isso. Histórias cheias de truques narrativos complexos estão em seu DNA. A questão é que, aqui, ele leva esse conceito tão ao extremo, que o feitiço se volta contra o feiticeiro.

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John David Washington e Robert Pattinson em cena de "Tenet".

Para entender esse conceito com mais clareza, talvez seja melhor fazer uma breve comparação de Tenet não com 007, mas com John Wick. A trilogia de Chad Stahelski (um dublê de formação) conquistou crítica e público com sua trama quase inexistente entremeada por desbundantes cenas de ação. Ou seja, dependendo do objetivo do filme, você não precisa de uma história profunda para proporcionar uma experiência cinemática marcante. Essa é a grande falha de Nolan em Tenet.

Ao focar demais em como nos explicar as complexidades do conceito de tempo invertido, o cineasta deixa seus personagens ocos. Porém, como acabamos de demonstrar, a falta de profundidade dos personagens em si não é necessariamente um problema se seu objetivo é entreter da forma mais pura em se tratando de cinema, com imagens em movimento.

Só que não é isso que acontece em Tenet e, ao invés de engajar o espectador, o filme muitas vezes o repele. Como se envolver com personagens sem uma história pregressa quando situações dramáticas nos são colocadas? Se o plano de Nolan fosse tornar a trama o mais minimalista possível para que seu filme fosse uma experiência mais próxima do cinema mudo, isso faria todo o sentido. Mas ao impor um enredo cheio de complexidades que demandam constantes explicações, ele depõe contra seu próprio filme. 

É melhor não entrar em muitos detalhes sobre a história para evitar spoilers, mas, resumindo, a trama de Tenet gira em torno de um agente da CIA sem nome, que nos é apresentado como Protagonista (John David Washington). Após uma missão mal-sucedida, ele é recrutado por uma organização ainda mais secreta chamada Tenet. Seu objetivo é impedir um traficante de armas anglo-russo chamado Andrei Sator (Kenneth Branagh), que está contrabandeando partes de um aparelho que reverterá o curso do tempo, causando um conflito mundial entre o mundo do presente e do futuro. Para se aproximar do vilão, o Protagonista entra em contato com Kat (Elizabeth Debicki), uma negociante de obras de arte que tem um casamento conturbado com Sator.

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Elizabeth Debicki, que viverá a princesa Diana na última fase da série "The Crown" no papel de Kat, em "Tenet".

Em Tenet, os únicos personagens que possuem alguma profundidade, mesmo que restrita, são Sator e Kat. Não porque Nolan tenha um carinho especial por eles, mas simplesmente porque o relacionamento dos dois é parte fundamental para a existência de algumas sequências e para a conclusão da história.

Já John David Washington, coitado, tem um protagonismo de ocasião. Ele é um ótimo ator, mas aqui serve apenas como um agente que representa o público na tela. Seu personagem é usado por outros para que o espectador não perca o fio da meada.

Algo parecido acontece com Robert Pattinson, que faz um tipo de agente parceiro do Protagonista. No entanto, ele consegue se sair melhor que Washington, pois o mistério encaixa com seu personagem à lá Roger Moore como James Bond, que se equilibra entre a ameaça e o humor cínico. O fato de não sabermos nada sobre ele e suas motivações não atrapalha seu personagem, isso tem até um propósito. Mas o mesmo em relação ao Protagonista tira qualquer vínculo que poderíamos ter com ele, que aqui é um mero acessório para a trama rocambolesca.

Mas nem tudo está perdido, claro. Ou já não foi falado que o filme pode ser extremamente divertido? Tenet é de um primor técnico impressionante. Com excessão da péssima escolha feita para mixar o som (que não é sentida caso o filme seja visto com legendas), tudo salta aos olhos - e em partes até aos ouvidos - do espectador. A fotografia do suíço Hoyte Van Hoytema é belíssima, a trilha sonora do sueco Ludwig Göransson é instigante na medida certa e o trabalho hercúleo de Nolan na montagem de grandiosas e criativas sequências de ação é para se aplaudir de pé.

Quando Tenet se deixar levar pela experiência cinemática mais básica, é o filme certo para marcar a volta do público para as salas de cinema. Tanto que não há melhor forma de vê-lo do que em uma imensa tela IMAX, mesmo que ele tenha o que há de melhor e pior no cinema de Nolan. O filme sofre da mesma ameaça que o mundo do Protagonista, com duas grandes forças de intensidade e massa idênticas empurrando seus objetivos em direções opostas. Mas, gostando ou não, é altamente improvável que sua experiência com este filme seja morna.