ENTRETENIMENTO
19/10/2019 04:00 -03 | Atualizado 19/10/2019 04:00 -03

Vamos admitir: A temporada de blockbusters de 2019 foi terrível

Conclusões sobre a crise existencial de Hollywood...

Islustração: Damon Scheleur/HuffPost; Fotos: Universal Pictures, Annapurna, Disney, Sony

O verão americano acabou e finalmente podemos dar adeus ao que foi uma das temporadas mais horríveis na história das temporadas de filmes de verão. Vá com Deus.

Os lucros caíram e a qualidade despencou. A bilheteria nos Estados Unidos e no Canadá deve ficar em 4,33 bilhões de dólares, uma queda de 2% em relação ao ano passado, segundo a empresa ComScore. Mas o que importa está escrito em letras pequenas. A Disney monopolizou o verão, o que significa que uma quantidade desproporcional das receitas ficou com um único estúdio. Até mesmo continuações que pareciam hits garantidos para estúdios concorrentes – Godzilla – Rei dos Monstros, da Warner Bros., e Angry Birds 2 – O Filme, da Sony, por exemplo – ficaram aquém da expectativa.

Quem pode culpar o público? Rei dos Monstros é uma cacofonia sem alma. Por que levantar-se do sofá? Admito o risco de parecer um velho mal-humorado, mas os filmes da temporada tinham pouco a oferecer em termos de variedade, com exceção de algumas pepitas, como Fora de Série, The Farewell e Era Uma Vez em Hollywood.

Hoje em dia, a torrente de blockbusters começa entre meados e fim de abril, o que significa quatro meses de crise existencial se espalhando pela indústria. Eis algumas conclusões.

A Disney teve quantidade. Mas onde estava a qualidade?

O verão começou com Vingadores: Ultimato. Depois de 11 anos e 22 filmes, a franquia central da Marvel deu um adeus de três horas ao Homem de Ferro e aos outros cruzados originais que transformaram os super-heróis no maior capital de Hollywood. Boa sorte para quem queira roubar o lugar do filme no topo do ranking de bilheteria (e também o recorde de filme mais rápido a arrecadar 1 bilhão de dólares nas bilheterias globais).

Além disso, Vingadores: Ultimato foi um prenúncio das enormes receitas da Disney no verão, além da inegável soberania cultural do estúdio. Ninguém pode competir com a casa do Mickey, que em março acrescentou a 21st Century Fox a um repertório que já inclui Pixar, Lucasfilm e Marvel.

Depois de Ultimato, a Disney lançou as versões live-action de Aladdin e Rei Leão, além de Toy Story 4, três máquinas de fazer dinheiro que reciclaram histórias dos anos 1990. O resultado disso é que o estúdio é dono de quatro das cinco maiores bilheterias do ano – um imperialismo que ameaça homogeneizar Hollywood ainda mais.

Se a Disney não tem um concorrente forte no mercado, que incentivo vai ter em amplificar a criatividade de sua produção? (Sinto muito, mas a despeito da sua opinião sobre o remake de Rei Leão, “criativo” não é uma palavra que se aplique ao filme.

E esse não é o único sinal de alerta a vir dos lados da Disney. A empresa cortou vários dos projetos em desenvolvimento da Fox depois de confirmada a aquisição, o que significa que a Fox – dona de clássicos como A Malvada, A Noviça Rebelde, Alien - O Oitavo Passageiro e Uma Babá Quase Perfeita – será moldada à imagem dos novos donos.

Enquanto isso, o serviço de streaming Disney+ anunciou novas edições de Esqueceram de Mim, Uma Noite no Museu e Doze é Demais. Não é novidade reclamar que a indústria adora reciclagens, mas este verão pareceu especialmente pesado nesse departamento.

Disney
Zazu, Mufasa e Simba em "O Rei Leão".

Brad Pitt perdeu para O Rei Leão, mais uma vez

Apesar de ser o filme de maior bilheteria entre os não-associados a nenhuma franquia, Era Uma Vez em Hollywood estreou depois de O Rei Leão, que manteve a liderança nos ingressos vendidos no segundo final de semana. Hollywood é o segundo filme de maior sucesso comercial de Tarantino depois de Django Livre. Mas um dos seus protagonistas, Brad Pitt, teve um dejà vu. Pela terceira vez em sua carreira, seu filme perdeu para os felinos.

Em 1994, meses depois da estreia do Rei Leão original, Entrevista com o Vampiro ficou atrás da animação da Disney em seu sexto final de semana nos cinemas. Em 2011, O Homem que Mudou o Jogo perdeu para uma conversão em 3D do hit de 1994. E agora isso. Pitt mal pode esperar para virar o rei.

Comédia parece uma arte que está morrendo

O verão era uma fábrica de risadas. Dos anos 1980 aos 2000, comédias eram itens obrigatórios do cardápio de filmes da temporada de férias de verão, junto com filmes de ação e de família. Quase todo ano, alguma comédia entrava no top 10 da bilheteria.

O sol não brilhava sem um hit com Eddie Murphy, Jim Carrey, Adam Sandler, Whoopi Goldberg, Will Smith ou Julia Roberts. Mas as propriedades intelectuais tomaram o lugar das estrelas do cinema. Este ano, não tivemos nenhum Trocando as Bolas, De Volta para o Futuro, Mudança de Hábito ou Virgem de 40 Anos.

Era Uma Vez em Hollywood é o que mais se aproxima de uma comédia de sucesso, mas o culto à Tarantino ocupa um lugar especial, que transcende gêneros e classificações. Yesterday, Bons Meninos, As Trapaceiras, Casal Improvável, Fora de Série, Stuber, Late Night, Poms e Os Mortos Não Morrem tiveram estreias mornas, e a maioria ficou muito aquém da expectativa. Até mesmo o mais elogiado dessa lista, Fora de Série, que deveria ser tão bem sucedido quanto o “irmão” Superbad – É Hoje, mas só arrecadou deprimentes 22,7 milhões de dólares.

Annapurna Pictures
Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever em “Fora de Série”.

O efeito Reeves

Mas vamos fazer uma pausa para as boas notícias. Essa é para quem adora Keanu Reeves.

Em maio, o terceiro filme da série John Wick bateu as expectativas e interrompeu três finais de semana seguidos de dominação de Ultimato. Wick é uma das raras séries que mantêm um mega sucesso sem se aproveitar de um material já conhecido. Outro exemplo: Velozes e Furiosos, que recentemente ganhou o spinoff Hobbs e Shaw.

Naquele mesmo mês, usando um golpe dos grandes astros das telas, Reeves interpretou a si mesmo – mas mais agressivo, misterioso e bizarro – na comédia romântica Always Be My Maybe, da Netflix. Em junho, ele fez o papel de um brinquedo em Toy Story 4. E, em agosto, foi anunciado The Matrix 4.

Essa “volta” – já que Reeves nunca nos abandonou – é um ótimo exemplo de um ator esforçado colhendo sua recompensa, e também um testamento da alquimia entre a tela e as estrelas.

Tantas ótimas atrizes desperdiçadas em roteiros terríveis

Uma das histórias de terror menos lucrativas do verão: Anne Hathaway, Octavia Spencer, Tessa Thompson, Melissa McCarthy, Tiffany Haddish, Elisabeth Moss, Cate Blanchett e Diane Keaton trabalhando em filmes ruins. Não decepções de rotina, mas coisas realmente péssimas.

Tenho um lugar especial no coração para Ma, que rendeu a Spencer, 47, seu primeiro papel principal e é quase louco o suficiente para esconder seus defeitos. Mas As Trapaceiras (com Hathaway e Rebel Wilson), Homens de Preto - Internacional (com Thompson), Rainhas do Crime (McCarthy, Haddish e Moss), Cadê Você, Bernadette? (com Blanchett, baseado num best-seller difícil de adaptar) e Poms (com Keaton e várias outras septuagenárias de respeito) mal mereciam a luz verde dos estúdios.

Na Netflix, Wine Country (com Amy Poehler e amigas) e Otherhood (com Angela Bassett, Patricia Arquette e Felicty Huffman) chegaram com pouca festa e muita banalidade.

Se esses filmes pareciam bons no papel, não dá para saber assistindo aos produtos finais. Todos exigiam que suas respectivas estrelas insuflassem vida em pesos mortos. Filmes baseados em personagens, como esses, são uma alternativa aos blockbusters de ação. Mas nenhum deles entregou – o que só complica as coisas para quem espera opções mais diversificadas no futuro.

Warner Bros.
Elisabeth Moss, Melissa McCarthy e Tiffany Haddish em “Rainhas do Crime”.

Os filmes de Sundance dançaram

Todo mês de janeiro, as distribuidoras compram vários filmes no Festival de Sundance. Alguns acabam fazendo sucesso no universo paralelo do cinema independente. Mas não foi o que aconteceu este ano.

A Amazon gastou 13 milhões de dólares com Late Night e 14 milhões com A Maratona de Brittany. A Warner Bros gastou incríveis 15 milhões de dólares com A Música da Minha Vida, com Bruce Springsteen. É fácil entender o apelo desses negócios: são filmes que agradam o público e que teriam poder comercial num mercado menos homogêneo.

Mas a disparidade entre a sensibilidade indie de Sundance e os hábitos dos frequentadores dos cinemas americanos nunca foi tão grande. A Amazon mal recuperou o investimento em Late Night, mas pelo menos a gigante do varejo tem os direitos exclusivos de streaming. A Warner Bros., por sua vez, meio que teve de engolir o prejuízo, já que o filme arrecadou míseros 4,3 milhões no cinema.

Enquanto isso, The Tomorrow Man, Ophelia e Luce nem sequer atingiram 1 milhão de dólares. The Last Black Man in San Francisco conseguiu arrecadar 4,5 milhões – um resultado decente para um drama idiossincrático sobre gentrificação sem grandes nomes, mas nada de parar as rotativas.

The Farewell foi a única história de sucesso de Sundance, e ela nem parece nada demais no papel. Com a estrela do ano passado Akwafina, a comédia dramática faturou 14,7 milhões de dólares em mais de um mês em cartaz. A distribuidora A24 gastou cerca de 6 milhões de dólares pelos direitos. Não dá para ter ideia do lucro sem saber qual foi o investimento de marketing, mas provavelmente foi um bom negócio – e um ótimo sinal para a diretora Lulu Wang, cujo próximo projeto será um filme de ficção científica.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.