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29/04/2020 18:36 -03 | Atualizado 29/04/2020 20:30 -03

'O presidente está preocupado com as pessoas', diz ministro da Saúde sobre pandemia

'E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?', disse Bolsonaro após número de mortes no Brasil ultrapassar total de vítimas na China.

O ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro está preocupado com as pessoas e com a sociedade no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. “O presidente está preocupado com as pessoas. Ele está preocupado com a sociedade. O alinhamento é nesse sentido”, afirmou em audiência pública nesta quarta-feira (29) com senadores feita por videoconferência. 

A frase foi dita quando o oncologista respondeu a pergunta sobre seu alinhamento com o presidente. Sobre um dos principais pontos de divergência entre Bolsonaro e o ministro anterior, Luiz Henrique Mandetta, o isolamento social, Teich disse que a pasta irá apresentar diretrizes, mas não detalhou quais. “Não posso responder superficialmente a perguntas complexas”, disse.

Na terça-feira (28), o País bateu um novo recorde do avanço da pandemia, com 474 novos óbitos confirmados em 24 horas, que levou o número total a 5.017.

Horas depois da divulgação do dado, o ministro da Saúde, Nelson Teich, reconheceu o agravamento da crise sanitária, mas não anunciou qualquer ação específica. Disse que pasta irá “continuar acompanhando e vendo a evolução” nas cidades mais críticas. Afirmou ainda que “a gente não é indiferente ao sofrimento e à morte das pessoas”. 

 Já o presidente Jair Bolsonaro minimizou a situação. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre​”, afirmou na terça à noite, ao ser questionado sobre os números em frente ao Palácio da Alvorada.

O ministro também evitou fazer previsões sobre o cenário da crise sanitária. “Quando vai ser o pico, não sei e ninguém sabe”, disse. Mandetta chegou a afirmar que o pico seria entre maio e junho, porém tanto a cúpula da pasta quanto especialistas afirmam que a resposta é difícil porque depende de medidas como o próprio isolamento social. Teich admitiu que pode haver uma segunda onda da doença. “Já existem relatos isolados de pessoas que tiveram a doença duas vezes”, afirmou.

Ao ser questionado sobre por que discutir flexibilização do isolamento se não chegamos ao pico da pandemia, o oncologista disse que um dos critérios para essa mudança será que a curva de casos e mortes esteja saindo da tendência ascendente e passe a ser descendente. “O fato de a gente estar planejando agora [a flexibilização] não quer dizer que vamos sugerir uma flexibilizado no momento”, disse. O isolamento é usado para conter o ritmo de avanço do vírus e evitar um colapso do sistema de saúde.

Após mais de três horas de audiência, ao falar sobre manter o isolamento social ou não, Teich afirmou que morrem cerca de 1,3 milhão de pessoas no Brasil por ano e que os esforços não podem ser centrados só na pandemia. “Por mais que eu sofra por números da covid, não posso deixar um 1,3 milhão mortes sem estar prestando atenção nelas também”, disse.

Leopoldo Silva/Agência Senado
“Quando vai ser o pico, não sei e ninguém sabe”, disse ministro da Saúde.

Repasses para estados e municípios

A prestação de contas sobre o trabalho da nova equipe - Teich assumiu em 17 de abril - é fruto de um requerimento feito pela senadora Rose de Freitas (Podemos-ES). No início da reunião, o ministro chamou de “evento do século essa dificuldade que estamos passando hoje”. “Nunca vi um momento tão Brasil como esse. A gente nunca teve tantos grandes problemas ao mesmo tempo”, afirmou.

Segundo o ministério, foram repassados R$ 4,5 bilhões para ações de enfrentamento à crise da covid-19. De acordo com o balanço apresentado a senadores, até 29 de abril, foram entregues 1,6 milhão testes de RT-PCR (usados para diagnóstico da doença) e 3,1 milhões de testes rápidos (usados para profissionais de saúde), além de 3 milhões de doses de cloroquina.

A pasta recomenda o uso do medicamento, que não tem comprovação científica para tratar a covid-19 apenas para casos graves. Defendido por Bolsonaro, o uso da cloroquina também é controverso porque há risco de problemas cardíacos.

Questionado sobre possível ampliação do uso do remédio, Teich afirmou que na primeira semana de maio devem ser publicados novos estudos no Brasil. O ministro lembrou, contudo, que a China recuou na aplicação. “Dados preliminares mostram mortalidade alta e que remédio não vai ser um divisor de águas em relação à doença”, disse. “A cloroquina ainda é uma incerteza. Você teve estudos iniciais que sugeriram benefícios, mas estudos mais recentes que falam o contrário”, completou.

Foram habilitados 2.258 leitos de UTI (unidade de tratamento intensivo), além da alocação de 540 leitos de UTI volantes e 79 milhões de equipamentos de proteção individual para proteger os profissionais de saúde.

A pasta também irá mudar os critérios de repasses de recursos para estados e municípios enfrentarem a pandemia do novo coronavírus. Em vez de basear no tamanho da população, a pasta irá considerar diferenças regionais de gravidade da crise.

“O que define o peso de distribuição de recursos é a prioridade de socorro a estados e municípios a partir da situação crítica verificada pelo ente federado”, disse em audiência pública nesta quarta-feira (29) com senadores feitas por videoconferência.

O valor é um adicional ao montante que os entes da Federação já recebem para custeio de ações e serviços relacionados à saúde. De acordo com a portaria publicada em abril, na gestão de Luiz Henrique Mandetta, municípios que recebem recursos para média e alta complexidade terão direito a uma parcela mensal extra, em igual valor. Os que não recebem, terão direito ao valor repassado para a atenção primária, também em igual quantia. 

Segundo o secretário-executivo da pasta, Eduardo Pazuello, a primeira estratégia discutida na nova gestão foi para Manaus (AM), uma das cidades mais afetadas pela pandemia. “Quem tem prioridade hoje é quem está em maior calamidade. Nenhuma região está deixando de receber o que foi combinado”, disse.

De acordo com Pazuello, nesta quinta-feira (30), decola um avião para a capital amazonense com respiradores e EPIs (equipamentos de proteção individual) e uma equipe médica será enviada nesta semana. Há 800 profissionais cadastrados pela pasta. O secretário também anunciou que Belém (PA) também receberá insumos nesta quinta.

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