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15/05/2020 16:43 -03 | Atualizado 15/05/2020 16:50 -03

'A vida é feita de escolhas, e hoje eu escolhi sair', diz Teich, sem explicar o porquê

Bolsonaro pressionou Teich a ampliar uso da cloroquina no SUS, mesmo contra evidências científicas para tratamento da covid-19.

Horas após decidir deixar o Ministério da Saúde, Nelson Teich, convocou uma coletiva de imprensa, mas não explicou o motivo de deixar o governo de Jair Bolsonaro. “A vida é feita de escolhas e hoje eu escolhi sair”, disse em pronunciamento de pouco mais de 5 minutos na tarde desta sexta-feira (15). Ele não respondeu a perguntas de jornalistas.

O oncologista e conselheiro de Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018 assumiu a pasta em 17 de abril, em meio à pandemia do novo coronavírus, e pediu exoneração nesta manhã. Assim como o antecessor, Luiz Henrique Mandetta, o fundador do Instituto COI foi isolado pelo Palácio do Planalto da condução das ações para enfrentamento da crise sanitária.

Nesta sexta, Teich agradeceu à equipe que “sempre esteve ao seu lado” e aos secretários de saúde estaduais e municipais, assim como o convite de Bolsonaro. “Eu não aceitei o convite pelo cargo. Eu aceito porque eu achei que podia ajudar o Brasil e ajudar as pessoas”, disse.

“Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro a oportunidade que me deu de ter feito parte do Ministério da Saúde. Isso era uma coisa muito importante para mim. Seria muito ruim na minha carreira não ter tido a oportunidade de atuar no ministério, pelo SUS [sistema único de saúde]. Eu escrevi uma fez que eu fui uma pessoa formada, eu nasci graças ao serviço público. Sempre estudei em escola pública. Minha faculdade foi pública. Minhas residências foram em hospitais federais. Eu fui criado pelo sistema público”, afirmou Teich.

O oncologista, contudo, nunca teve um cargo de gestão pública e ganhou projeção por sua atuação na iniciativa privada. 

Teiche relatou dificuldade em algumas ações à frente do ministério, como distribuição de EPIs (equipamentos de proteção individual), respiradores, habilitação de leitos e contratação de profissionais. “É uma luta diária, é uma luta intensa para que a gente consiga entrar e auxiliar estados e municípios a passar por isso. E quando a gente fala estados e municípios a gente está falando dos pacientes e das pessoas”, afirmou.

O ex-ministro também agradeceu a atuação dos profissionais na linha de frente. “Quando você vai na ponta e vê o dia a dia dessas pessoas você se impressiona. A dedicação dessas pessoas correndo risco, o tempo todo do lado dos pacientes e das pessoas é uma coisa realmente espetacular”, disse. 

ASSOCIATED PRESS
'"A vida é feita de escolhas e hoje eu escolhi sair", disse Teich ao deixar Ministério da Saúde

A disputa da cloroquina

No pronunciamento, o oncologista não fez qualquer menção à cloroquina. Nesta semana, Bolsonaro passou a pressionar o ministro para ampliar o uso do medicamento no tratamento da covid-19 no SUS, mesmo sem comprovação científica do medicamento. A pasta só recomenda para casos graves e moderados, posição tomada pela gestão anterior.

Em videoconferência com empresários na quinta-feira (14), o presidente voltou a reforçar o entendimento de que cabe a ele tomar decisões, ainda que na contramão de evidências científicas. “Estou exigindo a questão da cloroquina agora também. Se o Conselho Federal de Medicina decidiu que pode usar cloroquina desde os primeiros sintomas, por que o governo federal via ministro da Saúde vai dizer que é só em caso grave?”, questionou.

Em parecer emitido em 23 de abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) fixou critérios para que medicamentos possam ser usados na pandemia, como a prescrição médica e o aceite por parte do paciente, mas informou que “após analisar extensa literatura científica, a autarquia reforçou seu entendimento de que não há evidências sólidas de que essas drogas [cloroquina e hidroxicloroquina] tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença [covid-19]”.

Pressionado por bolsonaristas, Teich chegou esclarecer, por meio do Twitter, a regulação do uso do medicamento no Brasil.

O Ministério da Saúde só indica o uso da cloroquina para casos críticos e graves de covid-19. Essa decisão foi anunciada em 25 de março. No dia, o então secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos da pasta, Denizar Vianna de Araújo, afirmou que seria adotado um protocolo de tratamento por 5 dias nos hospitais, junto com outros recursos já usados, como o uso de respiradores.

Em 1º de abril, foi publicada uma nota informativa pela Secretaria de Tecnologia da pasta que liberava o uso do medicamento em casos confirmados da doença e a critério médico, “como terapia adjuvante no tratamento de formas graves, em pacientes hospitalizados, sem que outras medidas de suporte sejam preteridas”.

Uma versão das “Diretrizes para diagnóstico e tratamento da covid-19” publicada em 7 de abril pelo ministério recomenda aos médicos o uso apenas para pacientes internados com quadros graves ou críticos. A orientação especifica a dose e recomenda, em ambiente hospitalar, o acompanhamento do risco cardíaco do paciente.

A principal preocupação é com o potencial da droga em gerar arritmias cardíacas. “O coração é uma bomba que depende da ativação de um sistema elétrico próprio. Esse medicamento - tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina - pode produzir o prolongamento de uma dessas fases elétricas do coração e propiciar um ambiente favorável a uma arritmia que pode ser potencialmente fatal”, explicou Denizar, na época.

Devido ao risco do uso amplo do medicamento, Teich já havia se mostrado cauteloso. Em 29 de abril, ele lembrou que a China recuou na aplicação. “Dados preliminares mostram mortalidade alta e que remédio não vai ser um divisor de águas em relação à doença”, disse. “A cloroquina ainda é uma incerteza. Você teve estudos iniciais que sugeriram benefícios, mas estudos mais recentes que falam o contrário”, completou.

Na data, o ministério informou a senadores que foram enviadas aos hospitais 3 milhões de doses de cloroquina.

Isolamento social

Nos últimos dias, também houve embate envolvendo o isolamento social, tema que também levou ao desgaste na relação entre Mandetta e Bolsonaro. Na última quarta-feira (13), estava previsto que Teich detalhasse uma nova diretriz para orientar estados e municípios sobre possível flexibilização do isolamento social, mas a explicação foi cancelada devido a divergências com os secretários municipais e estaduais de saúde.

“Desde o último sábado (9), a estratégia tem sido debatida com os conselhos dos secretários de saúde estaduais e municipais, o Conass e o Conasems. O objetivo era ter um plano construído em consenso. No entanto, esse entendimento não foi obtido nas reuniões conduzidas até o momento”, disse o ministério, em nota, na quarta.

Apesar de a decisão sobre restringir a circulação de pessoas caber aos gestores locais, orientações técnicas do governo federal poderiam guiar esse entendimento. Usado para conter o ritmo de contaminação do novo coronavírus e evitar um colapso de saúde, o isolamento social demora ao menos duas semanas para ter efeito, devido ao ritmo de contágio. 

Militares no comando da pandemia

Sem autonomia na prática - o que ficou mais do que evidente no recente decreto de Bolsonaro, que tornou, sem o aval do ministério, atividades essenciais academias e salões de beleza -, Teich tinha uma atuação discreta enquanto o cenário de disseminação do novo coronavírus e o colapso do SUS se agravam.

Com Mandetta fora, o protagonismo de militares na resposta à crise ficou nítido, seja nos cargos dentro do ministério, seja nas coletivas de imprensa conduzidas no Palácio do Planalto pelos ministros Walter Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

Dentro do ministério, o general Eduardo Pazuello passou a ser o secretário-executivo, cargo responsável pelo dia a dia operacional e a organização do esforço para combate à pandemia. O militar assume interinamente o comando da pasta e é apontado como sucessor do oncologista, mas ainda não há uma decisão definitiva anunciada.

Secretários de saúde estaduais e municipais relatam que, na prática, é Pazuello e não Teich, que tem voz nas reuniões. Pazuello escolheu 5 militares para vagas na cúpula do ministério.

Sem experiência na área da saúde, o militar ganhou projeção ao ficar responsável pela coordenação operacional da Força-Tarefa Logística Humanitária em Roraima, conhecida como Operação Acolhida, relativa ao tratamento de imigrantes venezuelanos que buscam abrigo no Brasil.

Pazuello foi uma indicação direta do presidente. O militar e Teich se conheceram só dois dias antes de o titular da Saúde anunciar o general como seu suposto braço direito. 

O descompasso entre decisões do Palácio do Planalto e possíveis orientações da pasta foi ilustrada com a reação de surpresa de Teich ao saber que Bolsonaro havia incluído academias de ginástica, salões de beleza e barbearias entre os serviços considerados essenciais. “Isso aí saiu hoje?”, reagiu ao ser questionado em coletiva de imprensa, em 11 de maio.

O ministro da Saúde também estava ausente na visita surpresa feita por Bolsonaro e empresários ao presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, para criticar medidas de isolamento social adotadas pelos estados, em 7 de maio. Outros integrantes do primeiro escalão, como Ramos e Braga Netto, estavam ao lado do chefe do Executivo no dia.