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15/05/2020 13:06 -03 | Atualizado 15/05/2020 15:32 -03

Demissão de 2º ministro da Saúde em menos de 1 mês preocupa políticos à direita e à esquerda

Nelson Teich anunciou nesta sexta-feira (15) saída do Ministério da Saúde devido à pressão de Bolsonaro por ampliar uso da cloroquina no tratamento à covid-19.

Andressa Anholete via Getty Images
Jair Bolsonaro e Nelson Teich na posse deste no Ministério da Saúde em abril.

Em um dos momentos mais críticos da pandemia do novo coronavírus, com mais de 800 mortes confirmadas diariamente, a saída de mais um ministro da Saúde do governo preocupa autoridades e políticos brasileiros. Nelson Teich pediu demissão nesta sexta-feira (15) porque era pressionado pelo presidente Jair Bolsonaro para ampliar o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, mesmo sem comprovação científica do medicamento para todo tipo de caso.

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, com quem Bolsonaro travou guerra fria por meses, tuitou: “Oremos”. Usou hashtag para as pessoas ficarem em casa e destacou as palavras “ciência” e “fé”.

Sem citar o nome de Teich, o ex-ministro Sergio Moro ressaltou o número de mortes e afirmou que o cenário é “difícil”.

Ministro da Ciência, Tecnologia e Comunicações, Marcos Pontes, soube da demissão do colega pela imprensa. “Eu não sabia disso, deve ser informação nova. É sempre preocupante, porque é um momento de batalha, mas certamente ele tem uma equipe e essa equipe vai continuar a trabalhar”, disse. “Nós temos muitos problemas para resolver, e é um problema sem dúvida nenhuma, mas nós vamos conseguir vencer, com certeza”, completou. 

Líder do DEM, partido de Mandetta, na Câmara, o deputado federal Efraim Filho (PB) disse que Teich “parte sem deixar saudades”. “A impressão é de que ele nunca assumiu realmente... Foi praticamente um mês perdido de Ministério da Saúde no ponto mais crítico da pandemia”, afirmou.

Por sua vez, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSL), tuitou que ”é mais um herói que vai”. E disse que governadores e prefeitos é que devem comandar a resposta à crise do coronavírus e não o presidente:

Com a demissão do ministro, o governador de São Paulo, João Doria, um dos alvos do presidente Jair Bolsonaro, por defender o isolamento social, foi categórico: “o barco está à deriva”. 

Candidato derrotado para Bolsonaro nas eleições de 2018, o petista Fernando Haddad sugeriu no Twitter que a escolha do novo ministro da Saúde não é o maior problema deste momento:

Terceiro lugar na campanha eleitoral de 2018, o pedetista Ciro Gomes classificou de “irresponsabilidade assassina” a demissão “provocada” de Teich.

Apoiador de Bolsonaro na eleição de 2018, o MBL (Movimento Brasil Livre), que já entrou com pedido de impeachment de Bolsonaro, ironizou a saída de mais um ministro e os interesses por trás dessa mudança. Utilizou uma foto de Valdemar Costa Netto, político do Centrão, que já foi preso pelo esquema do mensalão petista. Bolsonaro tem se aproximado dos partidos fisiológicos para assegurar apoio parlamentar.

A líder do Psol na Câmara dos Deputados, Fernanda Melchionna (RS), avaliou como “muito grave” mais uma demissão no Ministério da Saúde. “Essa dança de cadeiras é mais uma tentativa do Bolsonaro de tutelar todo e qualquer ministro para impor sua visão obscurantista, autoritária e contra a Ciência”, destacou. O Psol também protocolou pedido de impeachment contra o presidente, com 1 milhão de assinaturas, incluindo integrantes da sociedade civil e de artistas. Já são dezenas de pedido de impedimento do presidente na Câmara dos Deputados.

A bancada do Novo na Câmara também disse que é “preocupante” a saída de mais um ministro. ”É preocupante, em meio a uma pandemia, evidenciar instabilidade no Ministério da Saúde enquanto mais de 14 mil vidas foram perdidas e os números só tendem a aumentar”, diz nota assinada pelos 8 deputados federais do partido, que destaca a necessidade de “decisões baseadas em fatos e evidências científicas”.

Para o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), é “lamentável”a segunda troca do ministério em 1 mês. O deputado tucano pediu a união dos políticos em prol “da construção desse grande entendimento, essencial para o fortalecimento do Brasil neste momento de grave crise que vivemos”.

Em nota, a diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, afirmou que “salvar as vidas de brasileiros e brasileiras está nas mãos do Presidente Jair Bolsonaro”. ”É seu dever liderar o enfrentamento dessa pandemia com responsabilidade. A instabilidade política eleva ainda mais os riscos a que brasileiros e brasileiras estão expostas. Todas as autoridades precisam trabalhar de forma coordenada para dar respostas adequadas à crise, sobretudo para as populações em situação de maior vulnerabilidade. Não temos tempo a perder. E as autoridades brasileiras precisam assumir compromissos rígidos com os direitos humanos imediatamente”, disse.