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17/04/2020 15:16 -03 | Atualizado 17/04/2020 15:29 -03

Novo ministro da Saúde defende acompanhar taxa de desemprego no combate ao coronavírus

'Se a gente tiver mais desemprego e pessoas perderem os planos de saúde, isso vai impactar no SUS', disse o oncologista Nelson Teich ao tomar posse.

O novo ministro da Saúde, o oncologista Nelson Teich, assumiu nesta sexta-feira (17) o posto destacando a importância de observar o desemprego e outros indicadores econômicos no combate à pandemia do novo coronavírus. Seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, deixou o cargo após divergências com o presidente Jair Bolsonaro sobre a necessidade de isolamento social para conter a disseminação do vírus. 

“Tem que acompanhar também os indicadores sociais. Se a gente tiver mais desemprego e pessoas perderem os planos de saúde, isso vai impactar no SUS [Sistema Único de Saúde]”, disse Teich, em cerimônia no Planalto, com a presença de Mandetta e de outros ministros.

Ao falar sobre como seu currículo vai influenciar em seu trabalho à frente do ministério, Teich destacou que trabalhou em hospitais de oncologia em cidades pequenas, e que o contato próximo com os pacientes “moldou” o seu “lado humano”.

“O foco de tudo o que a gente vai fazer é nas pessoas. Por mais que fale em saúde, em economia, não importa o que você fale, o final é sempre gente”, disse. “[O foco é] Trazer uma vida melhor para a sociedade e as pessoas do Brasil.”

Teich disse que uma de suas prioridades é levantar informações sobre o vírus e sua dinâmica, para combater o cenário de medo que toma o país e o mundo hoje. Segundo ele, o que estamos vivendo hoje “é uma coisa que parece filme”.

Andressa Anholete via Getty Images
"Quando você sabe o número, quando você sabe o que acontece, as soluções vêm quase que naturalmente", disse Nelson Teich sobre o coronavírus em sua cerimônia de posse.

“A pobreza de informação sobre a doença, sobre a evolução dela, sobre possíveis tratamentos - isso aí leva a um nível de ansiedade e medo que é enorme. A gente vive não só um problema clínico, que é de cuidar da doença, mas é de administrar todo o comportamento de uma sociedade que hoje está com muito medo”, afirmou.

Segundo ele, sua gestão será norteada pela informação: “capturar isso cada vez melhor, mais detalhado”. “A gente vai ter que trabalhar trazendo confiança de que a gente vai levar para as pessoas, através da informação, do conhecimento, do planejamento, da construção de uma solução (…) Quando você sabe o número, quando você sabe o que acontece, as soluções vêm quase que naturalmente.”

Teich apontou outro problema, na sua opinião, ocasionado pela pandemia: a negligência sobre outras doenças crônicas. “Uma coisa importante que a gente tem que entender é que a Covid hoje está atraindo todas as atenções, mas existem outras doenças, outros problemas, que você não pode deixar de lado, você vai ter que acompanhar com a mesma intensidade, mesmo que você não fale tanto deles.”

“Se você tem menos acesso, menos disponibilidade de serviços de diagnóstico, será que não vai prejudicar o diagnóstico de pessoas com câncer?”, questionou. “O que vai acontecer quando a pessoa fica em casa com medo de ir ao pronto-socorro, e aí infarta e não chega a tempo ao hospital?”

O novo ministro falou ainda em “medicamentos com grande possibilidade” de eficácia contra a covid-19, mas não citou a cloroquina - defendida por Bolsonaro como método de combate ao coronavírus, apesar de não ter comprovação científica ainda - e nem o vermífugo celebrado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Ao contrário, mencionou um antiviral, sem especificar seu nome, que teria sido citado em um estudo publicado na última quinta-feira.

“A gente vai ter que trabalhar esse cenário de tanta incerteza, mas existem hoje coisas muito promissoras. Hoje a gente está vendo medicamentos que estão surgindo com uma grande possibilidade”, disse. “Uma esperança que a gente também tem é que a gente consiga ter uma solução para o problema mais rápida do que a gente imagina se a gente tiver algum medicamento.”

Mandetta: ‘Não existe saúde sem economia’

Presente na cerimônia, Mandetta foi o primeiro a falar. Agradeceu a oportunidade de comandar o Ministério da Saúde e disse ter sido uma “honra” trabalhar com essa equipe sob a liderança de Bolsonaro. Afirmou ainda que “não existe saúde sem economia”, após ser a voz no governo a defender o isolamento social diante da pressão de Bolsonaro por um afrouxamento das restrições para reduzir o impacto na economia.

O ex-ministro saiu após uma escalada de tensão com o presidente, que chegou, mais de uma vez, a ameaçar publicamente demiti-lo. Na posse de seu sucessor, no entanto, o clima foi de artificial afinidade, por parte de Mandetta e de Bolsonaro.

Mandetta falou que se colocava “humildemente” à disposição, como cidadão, para ajudar em “qualquer tipo de serviço”. Em um dos ataques feitos por Bolsonaro ao então ministro, o presidente disse, em entrevista à rádio Jovem Pan, que “faltava humildade” a Mandetta.

Bolsonaro, por sua vez, começou a sua fala na cerimônia dizendo que esse era um “dia de alegria”.  

“Aqui não tem vitoriosos nem derrotados. A História lá na frente vai nos julgar e eu peço a Deus que nós dois [ele e Mandetta] estejamos certos lá na frente”, disse Bolsonaro.

O presidente disse ter “certeza” de que Mandetta “fez o que achava que tinha que ser feito”, até porque ele afirmou ter dado “liberdade aos ministros para buscar o melhor para o Brasil por meio do seu ministério”.

“Tenho certeza que ele [Mandetta] sai com a consciência tranquila. Então por que substituí-lo? É uma decisão minha um pouco diferente do ministro, que está focado no seu ministério. A minha visão tem que ser mais ampla. Os riscos maiores, logicamente, estão sob minha responsabilidade. Eu tenho o dever de decidir, eu não posso me omitir, eu tenho que buscar aquilo que, segundo o povo que acreditou em mim, deve ser feito”, afirmou.

Bolsonaro completou que “em um time, de vez em quando alguns jogadores são substituídos”. “Por vezes, por cansaço, por vezes, naquele jogo, porque a partir daquele momento a gente precise modificar o placar. Não é demérito para ninguém neste momento, e todos torcem pelo time chamado Brasil.”

Mandetta disse que “do ponto de vista nosso, de educação familiar, sabemos muito bem que fizemos um trabalho que deveríamos ter feito”.

Segundo o ex-ministro, o século 21 “vai ser dividido em antes e após o coronavírus”. “Todas as economias vão sofrer, a nossa vai sofrer. E muito nos preocupa a segunda onda, o pós-covid. A economia será o grande desafio do ministro [Paulo] Guedes, mas confio na vossa condução”, disse, se dirigindo ao ministro da Economia.