Tédio na quarentena? O que há por trás da queixa da 'falta do que fazer' no isolamento

"A pandemia vem e arrebenta tudo. Não nos devolve nada do passado. Ela nos impulsiona a descobrir novas formas de viver o depois", afirma a psicoterapeuta Louise Madeira.
“A gente se queixava do automático, mas ele encobria o fato de que, quando a gente não está no automático, têm que tomar decisões. Pode ser perturbador”, afirma Vera Iaconelli.
“A gente se queixava do automático, mas ele encobria o fato de que, quando a gente não está no automático, têm que tomar decisões. Pode ser perturbador”, afirma Vera Iaconelli.

Uma das principais queixas em tempos do isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, a sensação de tédio pode indicar muito mais do que uma insatisfação com a falta de atividades interessantes dentro de casa. Para psicanalistas e psicoterapeutas ouvidos pelo HuffPost Brasil, a ruptura com a forma como o mundo se organizava até então impulsiona uma série de reflexões que podem levar a transformações que se perpetuem quando a covid-19 der uma trégua.

O surto que começou na China, em dezembro, atingiu a marca de 1 milhão de infectados pelo mundo nesta semana. Imagens de pilhas de caixões na Itália ou da Times Square vazia passaram a fazer parte do noticiário. Após mais de um mês do primeiro caso registrado no Brasil, em 26 de fevereiro, a realidade dura começa a se impor perto de nós. As cenas de pessoas de máscara e prateleiras vazias no supermercado vão se somando a centenas de mortes e à angústia diante da possibilidade de um colapso do sistema de saúde.

Distanciamento social, lockdown e SARS-CoV-2 começaram a integrar um novo vocabulário enquanto epidemiologistas e infectologistas procuram respostas. As taxas de letalidade da doença variam, países disputam equipamentos hospitalares, não temos testes suficientes, nem vacina ou estudos que comprovem a eficácia de um tratamento em larga escala. Tampouco sabemos quanto tempo irá durar a crise e como será o mundo depois.

Embora o cenário possa parecer aterrador, se olharmos por outra perspectiva, ele também pode abrir novos caminhos. ”A pandemia vem e arrebenta tudo. Não nos devolve nada do passado. Ela nos impulsiona a descobrir novas formas de viver o depois”, afirma a psicoterapeuta Louise Madeira.

O que é tédio?

Embora não haja uma definição técnica, o tédio aparece como um “inquietante vazio”, como se a gente tivesse algo a ocupar”, de acordo com o psicanalista Christian Dunker. “Algo que pode nos entreter, nos interessar, nos levar a outro modo mental, algo que pode nos fazer trabalhar e que não vem a acontecer”, completa o professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Essa sensação pode estar ligada a uma espera indefinida, como as crianças que perguntam em longas viagens de carro se já estão chegando ao destino. É uma forma de lidar com o tempo. “O tédio é um tipo de angústia. Normalmente quando a gente pensa em angústia, a gente pensa em ansiedade, medo, algo que causa certo terror. Mas existem foram deformadas. Assim como a angústia é uma experiência no tempo, o tédio também é uma experiência no tempo. Só que muito indeterminada. Como aquela pessoa que diz ’estou com vontade de comer uma coisa que não sei o que é”, afirma Dunker.

O exemplo das crianças que se queixam de estarem entediadas também é citado pela psicoterapeuta Louise Madeira, com a ressalva de que “considerar tédio não ter o que fazer é um senso comum”. Em um mundo cheio de tarefas - ainda que algumas suspensas pela pandemia -, a queixa de falta de atividades não poderia ser genuína.

Para a terapeuta, o termo tem sido usado para denominar um misto de sensações provocadas pela escalada da covid-19. “Vem a pandemia e eu penso: expectativas suspensas, recusa de reconhecer isso, impaciência difusa diante do desconhecido, do incerto. A nossa grande perda é da ilusão do controle. E a sensação de esperar, sem saber o que nos espera. É uma quebra de continuidade. A gente tem uma tendência de negar a ruptura achando que tudo vai voltar a ser como antes. Como a gente não sabe o que fazer - e é saudável não saber -, o nosso psiquismo pega essa gama de sensações e chama de tédio”, afirma.

A vida antes da pandemia

Parte desses desconfortos já existia na vida antes do novo coronavírus, mas estavam encobertos por um ritmo cotidiano e uma ordem social em que o valor pessoal é medido pela produção. “A maioria de nós era cheia de atividades alienantes, que não dão sentido à realidade. Elas impedem de dar sentido à realidade porque você repete tarefas e produz. A gente vivia antes um cotidiano extremamente empobrecido de significado”, lembra Madeira.

Como para muitos não era comum essa autorreflexão, a redução das atividades sociais impõe uma ruptura que leva a questionamentos de processos automatizados. “Temos uma desarticulação entre o sujeito e nossa própria biografia. Todo mundo morrendo de trabalhar, correndo, não tem tempo de nada. Como eu não me apropriava de mim mesma, quando eu sou tirada dessas tarefas absurdamente demandantes, aparece muito mais o que, pra mim, não é o tédio. É a falta de sentido”, afirma a psicoterapeuta.

A cultura de preenchimento de espaços vazios também é apontada como uma fator ligado às queixas dos isolados entediados pela psicanalista Vera Iaconelli. “A gente está sempre fazendo uma lista de coisas para fazer. Isso acaba fazendo que a gente fuja do ponto de reflexão, dos momentos onde não tem tarefa. E aí vou incluir férias e fim de semana, que seriam momentos de ócio e também ficam cheios de tarefas a serem cumpridas. Se você ficar sem fazer nada, parece que desperdiçou o tempo”, afirma.

São nesses momentos em que não há nada programado e em que você se permite não fazer nada que pode surgir algum “diálogo interno, de escutar um desejo, de ter que formular algo, entrar em contato contigo mesmo”, de acordo com a doutora em Psicologia pela USP.

“A gente se queixava do automático, mas ele encobria o fato de que, quando a gente não está no automático, tem que tomar decisões. Pode ser perturbador.”

- Vera Iaconelli

Embora a quarentena nos obrigue a abrir mão de atividades prazerosas, a despressurização de demandas pode permitir que cada um crie sua própria agenda. “Não têm aquela exigência de todo dia vou trabalhar e tenho de estar maquiada e vestida. Quanto às crianças, as pessoas ficam arranjando tarefas o dia inteiro para eles dentro de casa e brincadeiras, quando na verdade, você pode deixá-las um pouco sem fazer nada. Não tem que criar para elas o tempo todo uma diversão. Isso é um traço da nossa cultura, um fazer sem reflexão, que agora está suspenso”, afirma a autora de O Mal-estar na Maternidade e Criar Filhos no Século XXI.

"A modernidade nos tornou dependentes daquilo que interrompe a repetição, daquilo que é novo, inesperado", afirma Christian Dunker.
"A modernidade nos tornou dependentes daquilo que interrompe a repetição, daquilo que é novo, inesperado", afirma Christian Dunker.

O ‘dia da marmota’ e o tempo no isolamento

Com o passar dos dias dentro de casa, os brasileiros têm se queixado de viver uma espécie de “dia da marmota”, em que todos os dias parecem o mesmo. A expressão, que dá nome a uma festividade na cidade de Punxsutawney, nos Estados Unidos, ficou conhecida no filme Feitiço do Tempo (1993). Na história, o meteorologista interpretado por Bill Murray acorda todos os dias na mesma data.

O feitiço é quebrado com uma mudança de comportamento do protagonista. ”O dia da marmota se resolve pela criação de algo novo. Ele fazia várias coisas muito diferentes uma das outras, mas não percebia que a verdadeira mudança tinha que ser dele envolvendo o outro. Isso foi uma descoberta”, destaca Christian Dunker.

De acordo com o psicanalista, o tédio pode ser um convite a reformular a relação das pessoas com a repetição. “A modernidade nos tornou dependentes daquilo que interrompe a repetição, daquilo que é novo, inesperado. É onde a gente deposita a intensidade, onde a gente acha que realmente está vivendo. São os grandes momentos, únicos, singulares. A partir de um determinado ponto isso deixou de ser um grande ideal e passou a ser um ideal opressivo. Um ideal que vai dizer: ‘se eu estou entediado com a minha vida é porque tem algo errado com a minha vida’. A pessoa que pensa assim tem uma superestimação do ideal moderno de que a vida é um conjunto de fogos pirotécnicos. Ela está lidando mal com esse outro lado da vida, que é a repetição”, afirma.

A busca por atividades pode ser saudável?

Embora seja tentador, rolar o feed do Instagram, abrir a porta da geladeira ou clicar na primeira sugestão da Netflix podem não ser as maneiras mais transformadoras de lidar com a sensação de monotonia. “A pior forma de tratar o tédio é ocupar-se com algo que seria muito alheio a nós mesmos. Assiste qualquer coisa na televisão, ou bebe, ou joga conversa fora, ou pratica aquela palavra-cruzada fácil, que não te desafia, que não te coloca no presente. Essas estratégias são adiamentos ou maus-tratos para o tédio”, afirma Dunker.

O psicanalista sugere o que seria uma oportunidade de fugir dessa busca por ocupação, a fim de incentivar processos criativos internos:

“As práticas mais criativas dependem de a gente de certa forma transformar o tédio em angústia. A hora em que começa a nos inquietar, nos deixar desconfortáveis, isso é o impulso para a verdadeira criação.”

- Christian Dunker

Para Louise Madeira, procurar preencher o tempo com atividades pode ser saudável, desde que isso não seja feito como um mecanismo para negar as perdas impostas pelo momento atual. “A busca de entretenimento faz sentido, se a gente conseguir encarar que estamos vivendo uma melancolia de incerteza e de perdas real. [Tem que]Simbolizar essa espera; eu estou esperando e está doendo esperar e eu vou conscientemente suprir a minha espera com esse ato de entretenimento”, explica.

De acordo com a terapeuta, reconhecer essa melancolia pode ser útil para construir novas formas de viver após a pandemia. “Pode nos ajudar na volta à vida, que vai ser gradativa. Eu estava com a ilusão de que um dia a pandemia passaria e tudo voltaria ao normal, mas vai ser gradativa a volta... Isso também é aterrador. Está doendo a perda. Eu vou ficar mais pobre. Agora eu sei disso; vou me estruturar e buscar coisas para fazer, para assistir, pegar dicas.”

O tédio pode ser um convite a reformular a relação das pessoas com a repetição.
O tédio pode ser um convite a reformular a relação das pessoas com a repetição.

O avanço das semanas de isolamento

Há cerca de três semanas, vivemos a diminuição do ritmo nas cidades. Em 13 de março, o Ministério da Saúde deu aval para os governos estaduais começarem a adotar medidas de restrição de circulação de pessoas. Com o avanço do isolamento social, as vivências dentro de casa também mudam. “Cada semana vai ter uma nova ficha que cai. A gente já abriu a cabeça que não se trata de férias. Aquela sensação de alívio, de ter um álibi das coisas que a gente não gostava de fazer também acabou. A ideia de termos todo o tempo do mundo, também. Tem milhões de coisas para fazer no dia a dia”, exemplifica Vera Iaconelli.

A psicanalista também destaca que havia um certo prazer mórbido em pensamentos do tipo “ah, vai que o mundo acaba mesmo que eu quero parar tudo o que eu faço”. “Esse prazer mórbido não está valendo toda a perda que a gente tem. Então tem uma guinada ao longo das semanas em relação à quarentena que vão caindo as fichas de perdas, e esses ganhos iniciais vão se perdendo”, completa.

Nesse processo, também vai perdendo força a negação da realidade, a sensação de que “comigo não vai acontecer”. “Essa mágica que a gente tem - e precisa ter até para enfrentar o dia a dia - vai desaparecendo e dando lugar a um certo tipo de realidade, uma certa convicção do que se passa, e uma sensibilização de reconhecer que pode ser com a gente. Agora a ferramenta psíquica da negação não se sustenta mais”, afirma.

“Eu tenho dito que é uma maratona. Não é uma corrida de 100 metros. Cada quilômetro tem de contar: 'ufa, mais um quilômetro'. E talvez cada quilômetro seja comparado a cada semana. É bom beber água, é bom que alguém bata palma enquanto você está correndo. Toda aquela administração dos recursos ao longo desse percurso.”

- Vera Iaconelli

O que podemos aprender com a crise?

Embora seja difícil lidar com saudades, incertezas, dores, lutos, familiares ou amigos doentes, redução de salários ou perdas de vidas e de empregos, também pode ser possível extrair algo positivo desta crise. Para Vera Iaconelli, o recuo do número de casos de covid-19 em alguns países, como na China, é indício de esperança. “Tem que pensar no horizonte. O mundo não vai acabar. Claro que o mundo vai ficar diferente. Nós vamos passar por uma provação, muitas pessoas vão morrer, muitas pessoas já estão sofrendo e sofrerão, mas tem luz no fim do túnel, sim”, afirma.

Mudanças nas formas de consumo, diminuição da poluição, fortalecimento dos relacionamentos íntimos e até mesmo o fim de relações que não se sustentavam são citados como possíveis efeitos do momento que estamos atravessando. “As lições estão sendo dadas. Não quer dizer que a gente aprende. Aprender é mérito pessoal. Cada um corre atrás do que tira da experiência. A experiência em si, ela não forma ninguém. A pessoa tem que fazer o uso dela”, afirma Iaconelli.

Para Louise Madeira, é inevitável uma certa crise de identidade, independentemente de classe social, durante a quarentena. Mas esse período pode render frutos positivos. Talvez seja o momento para se dedicar a pequenos projetos, tais como aprender uma receita, pegar sol na varanda do apartamento ou começar aulas online de um idioma.

Madeira ressalta que está tudo bem também se não conseguir transformar as angústias em algo bom. “Para algumas pessoas, só sobreviver, com uma certa lucidez, vai ser um grande ganho”, conclui.