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09/08/2020 07:25 -03 | Atualizado 09/08/2020 09:51 -03

Disparidade nas taxas de mortalidade entre estados evidencia impacto da resposta do poder público

Taxa de mortalidade da covid-19 varia de 15,1 a 87,8 por 100 mil habitantes nos estados; 'Faz mais sentido pensar em epidemias regionais do que em curva epidêmica nacional', diz epidemiologista.

Ainda em curso, a epidemia do novo coronavírus que já matou mais de 100 mil pessoas no Brasil não afetou os estados da mesma forma. Embora a taxa de mortalidade da covid-19 no Brasil esteja em 46,3 por 100 mil habitantes, ela varia de acordo com a unidade da Federação. E as diferentes taxas são uma evidência de que a resposta do poder público faz diferença na dimensão da tragédia.

A análise é do infectologista Julio Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis (DEIDT) do Ministério da Saúde. “Nessa história dos 100 mil óbitos tem várias histórias”, afirma. 

O menor número do indicador, que considera o total de vítimas do novo coronavírus pela população local, é registrado em Minas Gerais (15,1). Do outro lado, está Roraima (87,8). O estado no Norte é seguido por Ceará (86,1), Rio de Janeiro (80,2), Amazonas (80) e Pernambuco (70,7). No total, 17 unidades da Federação estão acima da média nacional. 

“Todos acima da média poderiam ter um apoio do governo federal no sentido de tentar equilibrar as medidas tanto de distanciamento quanto de assistência na oferta de leitos de terapia intensiva para evitar esses óbitos”, diz Croda.

Os números irão mudar porque a epidemia ainda está longe de acabar no Brasil. Há um processo de interiorização e também de deslocamento do Norte e Nordeste para o Sul e Centro-Oeste.

“Faz menos sentido pensar numa curva epidêmica nacional para o Brasil, que é um país de dimensão continental, e mais pensar em epidemias regionais, cada um com um tempo diferente, com evoluções diferentes, taxas de propagação diferentes e suas especificidades”, afirma o epidemiologista Ricardo Kuchenbecker, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e gerente de risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Também há um atraso nos dados oficiais e indícios de subnotificação em estados com indicadores de óbitos por covid-19 mais baixos. É o caso daqueles em que houve uma explosão de mortes por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) de 2019 para 2020, como Minas Gerais. 

Faz menos sentido pensar numa curva epidêmica nacional para o Brasil, que é um país de dimensão continental, e mais pensar em epidemias regionais, cada um com um tempo diferente, com evoluções diferentes, taxas de propagação diferentes e suas especificidadesRicardo Kuchenbecker, professor da UFRGS e gerente de risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

Segundo o boletim mais recente do Ministério da Saúde, em 2020 foram notificadas 516.124 hospitalizações por SRAG, sendo 258.013 (50%) identificadas como covid-19, 258.013 (50%) causadas por vírus não especificado, 85.628 (16,6%) em investigação, e o restante provocada por outros agentes patológicos.

Quanto aos óbitos por SRAG, são 133.423 contabilizados no ano, sendo 90.973 (67,2%) por covid-19, 40.003 (29,5%) causados por vírus não especificado, 3.578 (2,6%) em investigação e o restante provocada por outros agentes patológicos. 

Boletim mais recente do Observatório Fiocruz Covid-19, com dados até 25 de julho, alerta que os níveis de internação por SRAG muito altos “indicam situação de alerta para todo país”. Estão em situação mais grave – acima de 10 casos por 100 mil habitantes – Alagoas, Sergipe, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. No Distrito Federal, o indicador supera 20 internações por 100 mil habitantes. 

O documento alerta para forte tendência de aumento no número de óbitos em Roraima, Rondônia e Amapá, além de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. O indicador mede o crescimento médio diário do número de óbitos nas duas últimas semanas analisadas, no caso, as encerradas em 18 de julho e 25 de julho. Essa alta foi de 9,2% no Amapá, seguido por Roraima (7,4%), Rondônia (7,1%), Santa Catarina (6,6%) e Mato Grosso do Sul (5,9%).

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O menor número do indicador que considera o total de vítimas do novo coronavírus pela população local, é registrado em Minas Gerais (15,1). Do outro lado, está Roraima (87,8).

Na semana encerrada em 25 de julho, tanto as maiores taxas de incidência da doença quanto de mortalidade foram registradas em Rondônia, Roraima, Amapá, Sergipe, Mato Grosso e no Distrito Federal. “A permanência da transmissão do vírus na Amazônia, que vinha mantendo uma pequena tendência de redução, é preocupante”, alertam os pesquisadores no boletim. 

O platô de mortes

Apesar de ter sido observado certo arrefecimento nas grandes capitais, como Manaus e São Paulo, a crise sanitária continua grave em boa parte do País. Quando olhamos os dados acumulados nacionais, os gráficos epidemiológicos assumiram a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes acumulados. Por outro lado, os casos e óbitos diários, que indicam o ritmo da epidemia, não estabilizaram. 

Desde a semana epidemiológica 25, encerrada em 20 de junho, o Brasil registra mais de 7 mil mortes novas em todas as semanas. A primeira vez que o Brasil registrou mais de mil mortes por dia foi em 19 de maio. Desde então, isso aconteceu mais de 40 vezes.

Além de um certo deslocamento geral da epidemia do Norte e Nordeste para o Sul e Centro-Oeste, há também uma interiorização da transmissão do vírus. Segundo boletim mais recente do Ministério da Saúde, 5.475 (98,2%) dos municípios têm casos confirmados de covid-19 e 3.476 (52,4%) cidades registraram mortes causadas pela covid-19. A curva de casos acumulados das capitais está diminuindo, e a dos interiores dos eestados está aumentando, mas a segunda ainda não ultrapassou a primeira.

Desde a semana encerrada em 20 de junho, há mais novos casos no interior (51%) do que nas regiões metropolitanas (49%). Essa tendência se mantém e chegou a 58% de diagnósticos nas cidades interioranas contra 42% nas demais, na semana encerrada em 1º de agosto. Já as novas mortes continuam mais frequentes nas metrópoles. Dos 7.114 novos óbitos na semana mais recente, 52% foram em regiões metropolitanas e 48%, no interior.

Segunda onda no Rio preocupa

Muitos dos estados com altas taxas de mortalidade foram também uns dos primeiros a serem atingidos pela epidemia logo que o vírus chegou ao Brasil, como Ceará, Rio de Janeiro, Amazonas e Pernambuco. Enquanto a maioria do grupo mostra uma tendência de desaceleração das mortes nas últimas semanas, no Rio, há sinais de uma retomada da crise.

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Os decretos assinados tanto pelo governador Wilson Witzel (PSC) quanto pelo prefeito da capital, Marcelo Crivella (Republicanos), contrariam recomendações da OMS.

As novas mortes por semana oscilam, passando de 513 registros na semana encerrada em 18 de julho para 889 na seguinte e recuando para 748 na semana mais recente analisada. “Está aumentando, mas está longe do estágio em que a gente já esteve. Ainda não há uma sobrecarga nos serviços [de saúde], mas é preocupante”, afirma o epidemiologista Guilherme Werneck, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

De acordo com o sanitarista, o cenário é diferente do estado de São Paulo, por exemplo, onde houve uma certa transferência da crise sanitária da capital para o interior. Isso porque as hospitalizações por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) têm aumentado na cidade do Rio. “Não é como a situação de São Paulo, em que você tem uma interiorização muito rápida, e aí o interior é muito populoso e pode responder por boa parte desse aumento. Isso aparentemente não é o que você está observando no Rio de Janeiro. Não é uma evolução da epidemia. É bem mais grave”, alerta.

Sem uma mudança na retomada das atividades econômicas, a tendência é de piora. “Resta saber se os gestores e autoridades locais vão ter coragem de fazer o que tem de ser feito no momento, que é dar um passo atrás e voltar a um estágio anterior de distanciamento social, ou se vão dar continuidade nesse processo de abertura que teoricamente só vai estimular que essa curva aumente mais rapidamente”, afirma Werneck.

Os dois critérios principais recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para flexibilização são transmissão do vírus controlada e sistemas de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos. Os decretos assinados tanto pelo governador Wilson Witzel (PSC) quanto pelo prefeito da capital, Marcelo Crivella (Republicanos), contudo, foram no sentido contrário. 

Werneck aponta uma série de fatores que podem explicar a elevada taxa de mortalidade no estado, como alta densidade demográfica da região metropolitana – que impacta na transmissão do vírus –, e o perfil etário da população. “Se você tem um lugar onde tem mais idosos, você acabaria acumulando mais óbitos não por enfrentar melhor ou pior a epidemia, mas porque tem a população mais suscetível. Populações do Norte e Nordeste do País são bem mais jovens, em média”, afirmou.

O médico também destaca a alta prevalência de comorbidades no Rio, de acordo com a Vigitel, monitoramento anual feito pelo Ministério da Saúde nas capitais, por meio do telefone. Em 2018, os cariocas lideraram a frequência de adultos com diagnóstico médico de hipertensão arterial (31,2%), de diabetes (9,8%), além da maior frequência de obesidade entre as mulheres (24,6%). 

Apesar de contar com uma rede hospitalar mais estruturada que estados do Norte, por exemplo, o estado tem sofrido nos últimos anos com queda no financiamento e escândalos de corrupção. “A vida recente do Rio de Janeiro em relação a essas questões é bem trágica, e isso, obviamente, tem um reflexo na estruturação do serviço. Apesar de existir uma estrutura básica muito boa nos hospitais, ela está totalmente sucateada. Você continua tendo hospitais e profissionais de excelência, somos um dos centros principais do País, mas é uma estrutura sucateada e uma gestão pífia”, afirma Werneck.

Um dos casos de desvio de verba mais notórios foi o Hospital de Campanha do Maracanã, inaugurado em 9 de maio e cenário da Operação Placebo, da Polícia Federal. Com previsão de oferta de 400 leitos, a unidade tem sido alvo de denúncias de falhas de gestão. Há suspeitas de irregularidades em contratos emergenciais estabelecidos pelo governo estadual com a Organização Social Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas) para construção de 7 hospitais de campanha.

Ricardo Moraes / Reuters
Enquanto o Rio pode estar iniciando uma segunda crise, estados do Sul e Centro-Oeste vivem a primeira escalada da epidemia.

Alerta no Rio Grande do Sul

Enquanto o Rio pode estar iniciando uma segunda crise, estados do Sul e do Centro-Oeste vivem a primeira escalada da epidemia. “De maio a julho, boa parte do crescimento na região Sul e Centro-Oeste é o processo de interiorização da epidemia num contexto de vários surtos envolvendo empresas de beneficiamento de proteína animal, frigoríficos, abatedouros. Isso explica um pouco a interiorização mais recente”, afirma o epidemiologista da UFRGS Ricardo Kuchenbecker.

Por enquanto, as taxas de mortalidade nos estados do Sul estão abaixo de 20 por 100 mil habitantes, mas a tendência é de agravamento da crise na região. O Rio Grande do Sul contabilizou 286 óbitos na semana encerrada em 18 de julho. Subiu para 325 na semana seguinte e alcançou 393 na semana encerrada em 1º de agosto. 

Apesar de o estado ter tido algum sucesso da redução da circulação de pessoas no início do ano, chegando ao primeiro lugar no ranking feito pela empresa In Loco com base em dados de celulares, o indicador recuou e está em 36,5% agora. O recomendado é de pelo menos 70%. “Essa fadiga coletiva de um período grande de distanciamento também explica parte dessa aceleração mais recente da epidemia no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e, consequentemente, nos óbitos”, afirma o sanitarista.

Para o gerente de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a situação é preocupante especialmente na região metropolitana, que concentra 4,4 milhões dos 10 milhões de gaúchos. “A região metropolitana de Porto Alegre tem maior número de óbitos e maior taxa de mortalidade, e é onde a gente está nesse momento com recorde de lotação das UTIs. Isso tudo preocupa à semelhança do que Rio de Janeiro fez, de estabelecer uma flexibilização das atividades econômicas em um momento de franca expansão”, afirma.

O governador Eduardo Leite (PSDB) autorizou nesta semana de Dia dos Pais o funcionamento de lojas de rua e de shoppings em áreas de alto risco para contágio. “Esse cenário é bastante preocupante não para os próximos 3 dias, mas nas duas últimas duas semanas e consequentemente nas próximas duas, pelo menos”, alerta Kuchenbecker.

O epidemiologista lembra que, na condução da resposta à crise, “se a informação vier truncada ou dúbia, isso já é suficiente para diminuir a adesão” ao isolamento. “Sobretudo em um país em que os sinais que a gente recebe do governo federal também são ambíguos”, completa. Aberturas pontuais também preocupam, porque a experiência em outros países mostra que é mais difícil voltar atrás com a flexibilização.

Taxa de mortalidade da covid-19 (por 100 mil habitantes)

Roraima: 87,8

Ceará: 86,1

Rio de Janeiro: 80,2

Amazonas: 80,0

Pernambuco: 70,7

Amapá: 69,5

Pará: 67,5

Sergipe: 66,3

Espírito Santo: 65,8

Acre: 62

Mato Grosso: 55,8

Rio Grande do Norte: 55,1

São Paulo: 52,5

Distrito Federal: 52,1

Rondônia: 51,7

Alagoas: 48,9

Paraíba: 47,8

Brasil: 46,3

Maranhão: 43,9

Piauí: 43,3

Tocantins: 26,4

Goiás: 26,1

Bahia: 25,1

Rio Grande do Sul: 19,0

Paraná: 18,9

Santa Catarina: 18,2

Mato Grosso do Sul: 15,9

Minas Gerais: 15,1