ENTRETENIMENTO
09/04/2019 08:09 -03 | Atualizado 16/04/2019 18:18 -03

Tarsila Popular é ‘a mostra mais ampla' da pintora até hoje, diz curador no Masp

Olhares inéditos — e femininos — marcam exposição organizada por Fernando Oliva e Adriano Pedrosa.

HuffPost Brasil
Tarsila, que ousou dizer publicamente que queria ser “a pintora do Brasil”, agora tem a sua obra revisitada, revista e ressignificada.

O Masp (Museu de Arte de São Paulo) abriu ao público a aguardada exposição Tarsila Popular, que reúne 92 obras, entre pinturas e desenhos, de Tarsila do Amaral (1886-1973), pintora fundamental do Modernismo brasileiro.

A mostra integra o ciclo Histórias da Mulheres, Histórias Feministas, eixo temático que guiará a programação do museu, em 2019. A ideia é oferecer novas perspectivas e leituras tanto dos trabalhos quanto das trajetórias de artistas contemporâneas e nomes importantes das artes do início do século 20.

“É a exposição mais ampla da Tarsila já realizada”, afirma Fernando Oliva, que assina a curadoria da exposição ao lado de Adriano Pedrosa. “Não é a maior. A exposição da Pinacoteca, que aconteceu em 2008, Tarsila Viajante, era mais extensa porque incluía cerca de 100 desenhos da artista”, pontua.

“Mas é a mais ampla porque trabalha com recorte temporal extenso, vai de 1921 até 1969. É também a mais ampla mostra de pinturas dela pois traz 52 telas. É ainda a maior exposição de pinturas do anos 20 da Tarsila, uma década muito criativa e ambiciosa na trajetória da artista”, explica o curador.

Oliva conta que o processo de concepção e organização da mostra levou cerca de 2 anos e exigiu procedimentos complexos, incluindo a localização de obras, negociações de empréstimos com instituições nacionais e estrangeiras que têm obras da pintora paulista em suas coleções, além dos contratos de seguro.

A mostra reúne pela primeira vez em um mesmo local obras importantes como A Negra (1923), que foi emprestada pelo MAC (Museu de Arte Contemporânea de São Paulo), O Abaporu (1928), que hoje pertence ao Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires) e O Pescador (1925), vendido por Tarsila em 1931 para o museu Hermitage, na Rússia, e que até então nunca havia sido exposto no Brasil.

Se Tarsila Popular tivesse sido concebida em outro período e as negociações ocorrido mais tarde, talvez o Masp não sediasse a exposição. Isso porque no passado, Tarsila ganhou uma mostra no prestigiado MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) e recentemente teve a obra A Lua (1928) adquirida pelo museu – fatos que atualizaram os valores de mercado da artista. Ou seja, tornaram suas obras mais caras.

“Os valores de seguro também seguem esses valores, o que também criou uma particularidade para o nosso projeto... Não impediu nenhum empréstimo, mas criou uma outra situação com a qual o Masp teve que lidar”, diz o curador.

“Ainda bem que já concepção já estava no final e tudo já tinha sido negociado, senão, obviamente a exposição entraria em uma outra escala de valores”, revela.

Novos olhares sobre Tarsila

Oliva ressalta que a exposição do Masp sobre Tarsila traz um enfoque inédito, revelado logo no título: Tarsila Popular. Em geral, a artista nascida em berço aristocrático é apresentada como parte da tradição modernista europeia.

No entanto, a obra dela também é marcada por uma ideia de popular – com diferentes temas, personagens e narrativas. Novas reflexões sobre esse recorte do popular que é trazido para o público.  

“É importante lembrar também que, do ponto de vista das histórias das mulheres e das histórias feministas, a gente não deixou de lado as questões sociais, políticas, raciais e de classe. Isso faz parte também da nossa abordagem, tanto na exposição quanto no catálogo.”

Oliva também afirma que o material bilíngue, organizado pelos 2 curadores, é o “mais amplo” sobre Tarsila até hoje. “São 8 textos, 6 são inéditos, produzidos no último ano. Autores foram convidados a escrever especialmente sobre a Tarsila dentro desse recorte. Ele é também o catálogo mais amplo em reproduções de obras, são 113 no total”, enumera.

Pela primeira vez, um material do gênero sobre Tarsila tem 85% dos textos escritos por mulheres. “Sabemos que não só na historiografia da Tarsila, mas também na historiografia brasileira de modo geral, poucas autoras escreveram, por uma série de razões que não cabe a nós definir, mas esse é o fato”, afirma.

“Até então nenhuma autora, pesquisadora, curadora, crítica negra havia escrito sobre a Tarsila. E nesse catálogo nós felizmente tivemos a contribuição das duas super pesquisadoras negras Amanda Carneiro e Renata Bittencourt.”

O esforço para promover novas reflexões sobre a arte de Tarsila também será visto ao lado das obras. Das 52 pinturas expostas, 40 têm textos analíticos inéditos escritos por pesquisadores convidados.

“Numa [exposição] monográfica, a gente nunca analisou tantas obras, nunca teve um investimento tão grande nisso. A gente achava que faltavam análises recentes inéditas e novas perspectivas sobre a Tarsila. Muitas análises da Tarsila, apesar de fundamentais, fundantes até, são de 40 anos atrás”, conta Oliva.

SERVIÇO:

Exposição Tarsila Popular

De 5 de abril a 23 de junho de 2019
Endereço: avenida Paulista, 1578, São Paulo - SP
Horários: quarta a domingo: das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); terça-feira: das 10h às 20h (bilheteria até 19h30)
Ingressos: R$ 40 (entrada); R$ 20 (meia-entrada)

Entrada gratuita às terças-feiras