MULHERES
08/08/2019 12:54 -03

Como as mulheres devem dizer 'não' a tarefas ingratas no trabalho

Quando um “não” curto e direto não é uma alternativa, há maneiras de recusar um pedido para trazer café ou fazer trabalhos “domésticos” no escritório.

Paul Bradbury via Getty Images
As mulheres têm maior propensão a se oferecer para fazer trabalhos ingratos no escritório e também têm a maior probabilidade de que os colegas as encarreguem desse tipo de tarefa.

Para muitas mulheres hoje em dia, a pergunta aparentemente inócua “Você se importaria em fazer um café?” não é um pedido do chefe. É uma ordem.

Se a pergunta viesse de um colega, você poderia dizer não ou então simplesmente esquecer como se prepara café, mas para preservar o relacionamento com o chefe, a recusa exige um pouco mais de finesse.

Como dizer não a quem pede café

Na edição de 2014 de seu livro Nice Girls Don’t Get The Corner Office, a coach executiva Lois P. Frankel aconselha as mulheres a recusar serviços “domésticos” do escritório, como buscar café, tomar notas ou outros tipos de tarefas pessoais que não fazem parte do trabalho. Se o chefe fizer o pedido na frente de um grupo, Frankel diz para “dizer de forma neutra e não-emocional: ‘Acho que vou passar, já fui da outra vez’”. Assim, você afirma de maneira gentil, mas firme, que não é um capacho e que não gosta de desperdiçar seu tempo.

Se o pedido for feito numa conversa privada, diga que você está disposta a buscar o café quando terminar o que tem de fazer. “Quando pedirem algum favor pessoal, deixe claro que há problema nenhum em atendê-lo, desde tenha tempo livre, pois você não quer deixar de cumprir as obrigações para as quais foi contratada”, escreve Frankel.

Você pode achar que dizer “sim” para um pedido de buscar café é uma coisa eventual, mas esse tipo de comportamento pode virar rotina.

Se o chefe fizer o pedido na frente de um grupo, Frankel diz para dizer de forma neutra e não-emocional: ‘acho que vou passar, já fui da outra vez’.

“Se você fizer o que te pedem, vai ficar ressentida; se não fizer, corre o risco de ser demitida”, diz Frankel. “Se os pedidos persistirem, é hora de procurar outro emprego, pedir transferência ou esperar o chefe mudar de área ou empresa.”

Frankel reconhece implicitamente que dizer “não” de forma direta pode afetar a percepção que os outros têm de você, caso você seja mulher. Em um estudo de 2005, as mulheres foram avaliadas de forma menos favorável quando se recusaram a ficar até mais tarde para ajudar um colega a preparar uma apresentação. Quando os homens fizeram o mesmo, não sofreram impacto negativo nas suas avaliações.

Como contar com aliados homens

Tome este exemplo positivo de John Paul Stevens, juiz da Suprema Corte americana que morreu recentemente. O episódio foi relatado no obituário de Stevens publicado pelo New York Times:

“O juiz Stevens era conhecido no tribunal por tratar os outros com sensibilidade e respeito. Um de seus ex-auxiliares, Christopher L. Eisgruber, descreveu num ensaio de 2013 um incidente ocorrido numa festa dos novos auxiliares: antes da chegada de Stevens, um juiz mais antigo tinha instruído uma das poucas auxiliares presentes a servir café. Quando Stevens entrou na sala, ele rapidamente percebeu a situação, caminhou até a jovem e disse: ‘Obrigado por cuidar do café. Acho que agora é a minha vez’. E ele passou a servir o café. 

Se você é homem e percebe que sempre pedem para uma colega buscar o café ou planejar o happy hour, ofereça-se para fazê-los. É uma atitude essencial para que os homens tornem o ambiente de trabalho um lugar mais igualitário.

Mulheres têm maior propensão a executar tarefas que não levam a promoções

Esses tipos de tarefas ingratas vão além de servir café para o chefe. Um estudo publicado em 2017 pela American Economic Review indicou que as mulheres têm maior propensão a se voluntariar ao tipo de trabalho que não ajuda no avanço da carreira.

O estudo avaliou o custo de realizar tarefas que ninguém gosta de fazer, como redigir relatórios, participar de comitês ou planejar a festa de fim de ano da empresa. Com um prazo curto, alguém tinha de se oferecer a fazer a tarefa, ou o grupo perderia dinheiro. Se ninguém se oferecesse, cada pessoa receberia um dólar. Mas, se alguém se voluntariasse, aquela pessoa que se “sacrificou” em nome da equipe receberia 1,25 dólar, enquanto os outros integrantes receberiam 2 dólares.

Em dez rodadas, as mulheres tiveram 48% mais propensão a aceitar uma tarefa que representaria na prática uma perda financeira. Em geral, os participantes do estudo esperaram até o último minuto para se decidir, e no fim das contas uma mulher tinha maior probabilidade de se oferecer para o trabalho que ninguém queria fazer.

Isso não significa que as mulheres sejam necessariamente mais altruístas. Quando os grupos eram compostos apenas de mulheres ou homens, elas se ofereceram na mesma proporção.

Não é ótimo ter uma mulher altamente capacitada trabalhando em algo de nível inferior às suas habilidades.Lise Vesterlund, University of Pittsburgh

Essas expectativas podem ser muito enraizadas. Quando um gerente tinha de decidir a quem caberia a tarefa ingrata, o estudo indicou que eles tinham 44% mais chances de pedi-la para uma mulher, até mesmo quando a chefe era mulher. “Pedimos para mulheres porque sabemos que ela vai dizer sim”, afirma Lise Vesterlund, professora de economia da Universidade de Pittsburgh e uma das autoras do estudo. “Todos desenvolvemos essa espécie de código de conduta segundo o qual a expectativa é que as mulheres se ofereçam para os trabalhos que ninguém quer fazer.”

Vesterlund afirma que, para resolver esse problema, a gerência precisa documentar e executar mudanças. “Se as mulheres estão frequentemente tomando notas nas reuniões ou fazendo trabalho pro-bono, ou então cuidando de clientes que não geram muita receita, elas não demonstrarão o talento que têm, e isso é ruim para o negócio”, diz ela. “Não é ótimo ter uma mulher altamente capacitada trabalhando em algo de nível inferior às suas habilidades.”

Reconheça o que te faz dizer ‘sim’

O que acontece naqueles momentos decisivos do estudo quando as participantes finalmente cederam e se voluntariaram? Varia de acordo com a pessoa, mas Vesterlund tem duas explicações possíveis. Uma delas é simplesmente resolver o problema, porque você sabe que a solução é simples e que vai executá-la bem. “Uma reação comum é ‘vamos resolver isso logo, é ridículo, estamos aqui esperando alguém se oferecer’”, afirma a professora.

Outra possibilidade tem a ver com prestígio (quando a tarefa tem certa importância) e síndrome do impostor: você acha que nunca terá uma oportunidade parecida. “Para mim, sempre me senti honrada com os pedidos e, ao mesmo tempo, tinha medo de que não me pedissem de novo”, diz Vesterlund.

Mas essas tarefas tomam tempo valioso. Olhe além do prestígio e pense estrategicamente sobre suas prioridades. “Todo ‘sim’ tem um ‘não’ implícito a alguma outra coisa”, afirma Vesterlund. 

Dizer sim para uma tarefa pode significar que você está dizendo não para o projeto que você realmente quer fazer no futuro. “O ‘não’ implícito pode ser você mesma. Você está dormindo o suficiente? Está se exercitando regularmente? Acho super importante pensar no tempo de que estamos abrindo mão ao aceitar essas outras tarefas.”

Aceitar esse tipo de trabalho pode te ajudar dentro da empresa no curto prazo, mas as repercussões de longo prazo, especialmente no que diz respeito à sua satisfação pessoal. “Se você vive fazendo coisas que estão abaixo das suas capacidades, em algum momento seu trabalho não será recompensador”, diz Versterlund.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido inglês.