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01/10/2020 03:00 -03

Como Tarcísio de Freitas se tornou o ministro preferido de Jair Bolsonaro

Presidente se rende às "boas notícias" geradas pelo ministro da Infraestrutura com inauguração de obras, muitas delas iniciadas nos governos anteriores.

Amanda Perobelli / Reuters
Entre dois pesos pesados, Paulo Guedes e Sergio Moro, foi Tarcísio de Freitas que emergiu como ministro mais badalado do governo Bolsonaro.

Ele é presença recorrente nas disputadas redes sociais de Jair Bolsonaro e recebe constantemente elogios públicos do chefe. Em sintonia com a linha desenvolvimentista que o governo federal vem adotando nos últimos meses, o ministro Tarcísio de Freitas se torna cada vez mais influente junto ao presidente.

Mais discreto e menos badalado que outros superministros como Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (ex-titular da Justiça), Tarcísio foi ganhando mais força gradativamente, à medida que Bolsonaro se afastava do projeto liberal que o elegeu e passava a endossar mais a ala que aposta em obras e investimentos públicos mais robustos.

O prestígio com Bolsonaro não é obra do acaso. Tarcísio se esforça para não eclipsá-lo em declarações públicas, enaltece sempre o chefe, não critica os colegas de Esplanada, tem atuação política mais reservada e, principalmente, dá ao presidente boas notícias para divulgar — justamente quando ele precisa delas para manter sua popularidade e tentar se reeleger em 2022.

Eleito sob o discurso de defesa das reformas liberais de Paulo Guedes, de enxugamento do Estado e privatizações, Bolsonaro não esconde a impaciência com as pautas e propostas austeras da sua equipe econômica e quer obras, ainda que tenham sido iniciadas em governos anteriores. Tanto que retomou sua agenda de viagens para inaugurá-las.

Em uma das suas lives mais recentes, o presidente chegou a dizer que preferia que os R$ 50 bilhões destinados a arcar com o auxílio emergencial fossem “para a mão do Tarcísio”. “Eu acho que, em um ano, praticamente, ele resolveria os grandes problemas de infraestrutura no Brasil”, declarou.

A mudança de diretrizes no governo ganhou mais força ainda depois de pesquisas de popularidade indicarem que o auxílio emergencial de R$ 600 pago a trabalhadores informais cuja renda foi afetada pela pandemia ajudou a manter ― e a aumentar ― sua popularidade.

O Datafolha de agosto apontou aprovação de 37%, recorde da gestão e, mais recentemente, o Ibope aferiou o resultado de 40% de ótimo ou bom.

Paralelo ao auxílio, também teve impacto na popularidade de Bolsonaro uma mudança no tom da sua comunicação. Sempre combativo, controverso e polêmico, ele vem tentando postura mais moderada e mesmo as suas redes sociais têm mais posts mostrando resultados práticos da gestão que atacando adversários. Nessa estratégia, os posts sobre infraestrutura acabam frequentemente sendo compartilhados por ele.

Com esse novo cenário, consolidou-se a ascensão de Tarcísio e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, ao rol dos auxiliares mais influentes do governo. A eles, somam-se Fábio Faria, das Comunicações, e os militares de perfil nacional desenvolvimentista: os titulares da Casa Civil, Braga Netto; da secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos; da secretaria Geral, Jorge Oliveira; e da Defesa, Fernando Azevedo.

Marinho, ex-deputado federal, é conhecido pela habilidade na articulação e foi um dos principais fiadores, por exemplo, do maior trunfo da atual gestão econômica: a reforma da Previdência — que também contou com o papel decisivo do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Tarcísio, embora menos político, tem a agenda cheia de reuniões com políticos. Nos últimos 3 meses, até 28 de setembro, por exemplo, dos 152 registros na agenda oficial, mais de um terço (58) envolvia parlamentares, governadores e vice-governadores. Com a prerrogativa de destravar empreitadas que possam render frutos políticos, ainda mais em ano de eleição municipal, audiências com ele são disputadas, segundo interlocutores do Congresso.

O ministro também garante ter perfil estritamente técnico e afasta pretensões políticas. Em entrevista à Jovem Pan, por exemplo, disse que não tem planos, nem agora, nem no futuro, de concorrer a cargos públicos. 

“De jeito nenhum. Quem eu era antes do presidente Bolsonaro? Ninguém. Ele apostou em mim, me deu condição de trabalhar, me proporcionou um time técnico, a gente está em uma pasta técnica. Todo o resultado do ministério se deve primeiro à coragem do presidente, que fez esse rompimento difícil para uma condução extremamente técnica.”

Antes de assumir protagonismo na equipe de Bolsonaro, contudo, ele era, sim, alguém, em governos passados: fez parte, durante a gestão Michel Temer (MDB), do Programa de Parceria de Investimentos (PPI) e, na de Dilma Rousseff (PT), foi diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

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Ministro Tarcísio de Freitas é próximo à ala desenvolvimentista do governo, como o secretário de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, e outros militares.

Desenvolvimentistas x fiscalistas

Todo o imbróglio entre as duas alas do governo começou em abril, quando integrantes do governo, notadamente militares, começaram a formatar o chamado Pró-Brasil, um plano de investimentos em obras públicas que ajudaria na retomada econômica com a promessa de criar mais de um milhão de vagas de emprego na construção civil e áreas correlatas. 

Apelidado de Plano Marshall, ele enfrentou resistência do ministro da Economia, Paulo Guedes, e inaugurou um embate que permanece até hoje. Apesar da dificuldade de viabilizar novas obras por questões orçamentárias, o governo pretende usar o programa para atrair investimentos privados em áreas como ferrovias. 

O lado em que Tarcísio está na briga entre militares desenvolvimentistas e liberais é claro ― menos por ele que pelos demais. 

Em entrevista recente ao canal do ex-secretário especial da Receita Federal Marcos Cintra, por exemplo, o ex-secretário de privatizações do Ministério da Economia, Salim Mattar, disse que Tarcísio é “trabalhador, dedicado e faz muita obra”, mas que não é um liberal. “Poderia privatizar com uma canetada a Empresa de Planejamento e Logística (EPL)”, desafiou. Mattar se demitiu em agosto se queixando da lentidão do governo em efetivar privatizações e escancarou a fase de desgaste de Guedes.

Tarcísio, entretanto, rasga elogios ao ministro da Economia em diversas ocasiões, defendendo as reformas que ele vem levando a cabo e pondo panos quentes no embate entre os diferentes perfis que brigam para nortear o governo. Também à Jovem Pan, disse: “Não há essa crise de liberalismo e desenvolvimentismo, acho que é uma coisa muito inventada.” 

“A gente tem que tocar obra, mas a alavanca do ministério é investimento privado. Quando a gente fala do que vamos fazer, estamos falando de contratar R$ 250 bi de investimento privado, o que vamos fazer com investimento público é coisa de R$ 20 bilhões e poucos”, destacou.

Na esteira dos investimentos privados estão especialmente os leilões. Até agora, segundo dados da pasta, foram 30 leilões: 27 deles no ano passado, totalizando R$ 16,75 bilhões, e 3 em 2020. A previsão é de que até dezembro sejam publicados editais de 44 ativos ― arrendamentos portuários, concessões e renovações, com leilão de 14 deles.

As tentativas de garantir entregas ainda que sob um orçamento apertado também agradam a Bolsonaro. Recentemente, por exemplo, Tarcísio e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, anunciaram a destinação de R$ 1,2 bilhão provenientes de acordo judicial da União para arcar com as obras da linha 2 do metrô de Belo Horizonte (MG).

Outra aposta de Tarcísio são justamente a Câmara dos Deputados e o Senado. Isso porque as emendas parlamentares, que utilizam parte do orçamento em iniciativas de indicação de deputados federais, senadores e bancadas podem ser usadas para custear obras. 

Agora, o desafio é conseguir que o Orçamento de 2021, em tramitação no Congresso, preveja o maior valor possível para a Infraestrutura e o Desenvolvimento Regional. Isso, contudo, apesar da margem apertada e da equipe econômica, que segue resistindo.

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