MULHERES
01/05/2020 06:00 -03 | Atualizado 03/05/2020 13:59 -03

Grávida, abri mão do meu sonho nos gramados e ouvi: 'Agora você só vai ser mãe'

O 1º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da jogadora de futebol Tamires Dias, única atleta mãe da Seleção Brasileira na Copa Feminina de 2019.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Em 2014, a jogadora Tamires Dias fez homenagem ao filho Bernardo, hoje pré-adolescente.

Aos 21 anos de idade, a notícia da minha gravidez gerou comentários de que minha carreira tinha acabado. Ser mulher e jogar futebol já é um caminho de muitas barreiras no Brasil. Eu vivia a transição das categorias de base para o profissional, e jogar bola era tudo pra mim. Ouvi de pessoas: “agora, você só vai ser mãe”. Naqueles momentos, chorava e acreditava que meu sonho nos gramados era mesmo uma ilusão. 

Minha mãe diz que eu chutava muito na barriga. E, de alguma forma, sempre acreditei que o futebol era o meu propósito. Mesmo jovem, o esporte me deu oportunidades, me apresentou ao mundo, e também ao meu marido. Tinha 17 anos quando nos conhecemos. Na época, eu jogava no Juventus, e o César foi pedir autorização pra minha treinadora, a Magali Fernandes, para namorar comigo. Quatro anos depois, em setembro de 2009, o Bernardo entrou em nossas vidas. 

Eu sempre quis ser mãe, só não imaginava que fosse acontecer àquela altura. Nossas famílias deram muito apoio, e eu fui curtindo todo o processo que envolve a maternidade. Decidi abrir mão do meu sonho por um tempo e me dedicar ao meu filho com todo o meu coração. Se, por um lado, dei uma pausa no que eu considerava a minha paixão, por outro, descobri que não tem amor maior do que o de mãe. 

Divulgação/Lucas Figueiredo/CBF
César de Britto, Tamires Dias e o filho Bernardo.

Por quatro anos, fiquei grudada no meu “treizin de mãe” – mineira de Caeté, eu falo esse apelido do Be com todo o meu sotaque. (Deixem nos comentários os apelidos que vocês usam em casa com as crianças, quero saber).

Nós acompanhamos o César esse tempo, que também jogava profissionalmente, até que ele recebeu uma proposta de um time de São Paulo. Estaríamos próximos aos pais do César — e o futebol feminino paulista era, e ainda é, o mais competitivo do país. Então, em 2013, achei que poderia ser um bom momento para retomar minha carreira. 

Enquanto eu treinava, minha sogra cuidava do Bernardo. Estava de volta aos gramados, desafiando aquelas barreiras e escrevendo a minha história. Dois meses depois, veio a convocação para a Seleção Brasileira. Eu representei o Brasil nas categorias de base, e lá estava eu novamente, anos depois, vestindo a camisa amarela, dando tudo de mim, até mesmo para justificar a saudade no meu peito. 

Dar a volta por cima está no DNA de todos os atletas; a gente só precisa entender a importância de viver um dia de cada vez.

No começo, nas primeiras viagens com a Seleção, foi difícil; afinal eu nunca tinha ficado tanto tempo longe do Bernardo. Foram quatro anos de cuidados diários. O importante para mim sempre foi saber que ele estava bem: se o Be estivesse bem, então eu poderia estar em paz pra aceitar meus novos desafios. Quando eu precisava ficar uns dias fora de casa, ele sempre perguntava: “ah mãe, você tem que ir mesmo?”

E eu fui. Não só por mim, mas por ele também, e pelo nosso futuro. De lá pra cá, foram mais de 100 jogos pela seleção, duas Copas do Mundo, uma Olimpíada, duas Copas América e um Pan.

Dar a volta por cima está no DNA de todos os atletas; a gente só precisa entender a importância de viver um dia de cada vez. Já no DNA das mães está a certeza de amar intensamente. E nesse processo, não precisamos abrir mão do desejo compartilhado por qualquer mulher: de ser quem a gente quiser. 

Tamires Dias é dona do 1º depoimento do projeto Prazer, Sou Mãe. Ela tem 32 anos e muito orgulho de sua origem mineira. Jogadora profissional de futebol, hoje no Corinthians, atuou pela Seleção Brasileira em mais de 100 jogos e foi a única mãe atleta a representar o Brasil na Copa de 2019.