05/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 05/02/2019 00:00 -02

Taís e Estela, as vozes do trabalho incansável por mais mulheres na literatura

Escritoras criaram o "Mulheres que Escrevem", grupo que busca valorizar a produção feminina.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Taís (à esquerda) e Estela (à direita) estão na 335ª história do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Uma conversa entre escritoras. É assim que a iniciativa Mulheres que Escrevem se define desde que, em 2015, o incômodo pessoal de duas jovens escritoras cariocas com o “status quo” literário ― masculino e hegemônico ― cresceu. Inicialmente, era uma newsletter. Mais tarde, encontros presenciais. Hoje, o projeto tem como foco divulgar conteúdos literários produzidos por mulheres e inspira um movimento nacional de valorização da produção feminina. Em entrevista ao HuffPost Brasil, Taís Bravo, 28, e Estela Rosa, 32, duas das quatro integrantes da equipe, contam as experiências e trajetória da iniciativa — sempre no gênero feminino, claro.

Foi em setembro de 2015. Junto com Natasha Silva, sua amiga de infância, Taís criou o coletivo. Elas mesmas já escreviam, mas não se sentiam confortáveis em dividir com o mundo suas produções. Conversando com outras escritoras, perceberam que havia, sim, uma lacuna no cenário da literatura em relação ao bem estar das mulheres. Insegurança era o sentimento a ser combatido quando a newsletter nasceu. Até aquele momento, Taís conta que não conseguia “se levar a sério” como escritora.

Eu conhecia alguns espaços mas não me sentia à vontade porque eram muito liderados por homens.Taís
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Entre 1990 e 2004, os homens representaram 75% dos autores publicados no Brasil, segundo pesquisa de Regina Dalcastagnè, da UnB.

“Eu sabia que para me levar a sério eu teria que participar de espaços literários. Não existe fazer algo relevante se você não está se comunicando com as pessoas de seu tempo. Óbvio que se pode fazer isso à distância, mas eu sabia que era importante encontrar pessoas pessoalmente”, contextualiza. E completa: “Eu conhecia alguns espaços mas não me sentia à vontade porque eram muito liderados por homens, e as mulheres ocupavam lugares à margem”.

Taís explica que não queria estar à margem, muito menos travar uma batalha por um lugar ao sol junto aos homens das mesas: “Eu queria um espaço de conversa, em que todo mundo pudesse se escutar e trocar ideia realmente. Essa falta de espaço acentua a insegurança.”

Em 2016, depois de já haver uma mínima estabilidade e reconhecimento online, as meninas realizaram a primeira série de encontros presenciais da iniciativa. Ali, as mulheres construíram um espaço de troca e falaram sobre suas angústias, processos e trajetórias.

As mulheres estão há muito tempo caladas, então elas têm muito a dizer.Estela
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Desde 2015, o "Mulheres que Escrevem" busca exaltar a produção feminina.

Estela Rosa, que hoje integra a equipe como curadora de conteúdo, também passou pelo processo de sentir-se solitária como escritora. Nascida e criada no interior do Rio de Janeiro ― vivenciou uma cena reservada aos homens brancos de classe alta, e julgou impossível dizer-se escritora. Quando começou a cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), viu que era uma possibilidade, mas um meio que ainda não estava disposto a recebê-la de braços abertos.

“Eu me sentia sempre uma criança, uma menina. A gente acaba sendo muito infantilizada, e eu não tinha pares ali. Me afastei desse ambiente e comecei a procurar outros lugares, mas sempre estava naquele lugar de ‘café com leite’. Então eu fui no evento do ‘Mulheres que Escrevem’ porque era uma voz solitária e queria encontrar outras pessoas.”

Chamam de feminista, militante, mas nunca passa na boca dessa pessoa que eu sou poeta.Taís
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje há também um podcast, uma jornalista responsável pela área de conteúdo do espaço delas na internet.

Na prática, sentir-se uma voz solitária fez com que ela demorasse 10 anos para lançar seu primeiro livro, com data de publicação prevista para o próximo mês. “Essa demora não foi exatamente negativa para mim. Em 2018 eu fui finalista do prêmio Rio de Literatura com ele, e isso me deixou muito feliz porque eu tinha muitas dúvidas. Mesmo depois de tanto tempo, acho que elas só aumentam.”

Com três anos de existência, aqueles que antes dominavam todos os espaços literários já se sentem incomodados com a ascensão da iniciativa. Não tem outra definição para isso se não machismo, avaliam as escritoras:

“Uma coisa tão sutil quanto o machismo é quando escritores que me conhecem me encontram em um lugar, e mesmo querendo mostrar que me conhecem não me chamam de escritora. Chamam de feminista, militante, mas nunca passa na boca dessa pessoa que eu sou poeta. Querem marcar que eu faço algo relevante, mas não relevante dentro do que ele acha que é literatura”, exemplifica Taís.

Meu maior desejo é que mulheres consigam viver a escrita de uma maneira mais plena.Estela
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
As parceiras de equipe dividem o mesmo sentimento: que um dia iniciativas como essa não sejam mais necessárias.

Ela conta que reconhece que ter um projeto como o delas, faz com que o cenário se modifique aos poucos. Ela explica que hoje há um constrangimento quando eventos literários só convidam homens, ou não discutem obras de mulheres. Recentemente, Taís lançou seu primeiro livro físico e ainda hoje diz que está tentando se acostumar com o fato de vê-lo rodando o mundo.

Fruto de muito trabalho de Taís, mas também de Natasha, que hoje administra as redes sociais, a iniciativa cresceu. Hoje há também um podcast administrado por Seane Melo, jornalista que é responsável pela área de conteúdo do espaço delas na internet. E os encontros presenciais, que nasceram em 2016 e foram ganhando forma ao longo dos anos, agora têm local fixo: o Farol Estúdio, administrado também por Estela e mais duas profissionais.

Eu queria um espaço de conversa, em que todo mundo pudesse se escutar e trocar ideia realmente.Taís
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Da mesma árvore que surgiu o Mulheres que Escrevem, nasceu também o Farol, de uma urgência por espaços bons para compartilhamento de cultura.

“As mulheres estão há muito tempo caladas, então elas têm muito a dizer. E às vezes a gente não sabe como lidar, e como mulher a gente se obriga a atender demandas para ser perfeitas, mas chega uma hora que não dá. É uma demanda emocional grande mas ao mesmo tempo uma potência imensa. Nunca é uma experiência única com uma face só”, avalia Taís.

As parceiras de equipe dividem o mesmo sentimento: que um dia iniciativas como essa não sejam mais necessárias: “Meu maior desejo é que não precisemos mais de grupos como o Mulheres que Escrevem, que as mulheres consigam viver a escrita de uma maneira mais plena. Enquanto não é possível, estamos aqui.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.