27/02/2019 00:00 -03 | Atualizado 27/02/2019 12:34 -03

Tabatha Aquino, a cantora que superou dificuldades soltando a própria voz

Cantora carioca de 22 anos superou abandono familiar e já começa a receber os retornos do investimento solitário na carreira.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A cantora Tabatha Aquino é a 357ª mulher de Todo Dia Delas, projeto editorial de HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

Ainda aos 4 anos, Tabatha era uma criança cantante. Influenciada pela irmã, cantarolava pela casa os sucessos que ouvia no rádio, sem imaginar que poucos anos depois aquele seria seu destino. Hoje aos 22, ela tem nome artístico: é Tabatha Aquino, uma das promessas da música brasileira, e ganhou notoriedade quando um vídeo viralizou com ela cantando no metrô do Rio de Janeiro com sua filha no colo.

Na gravação que foi vista milhares de vezes em todo o País, o detalhe que chama a atenção não é só a voz, mas também a pequena no colo da mãe. Hoje com 4 anos, Nicoly é a melhor amiga e a motivação de Tabatha.

“Eu faço meus shows e apresentações com minha filha no colo, nas costas. Esta é a minha realidade com ela hoje. Ela é muito minha amiga. No momento em que eu era totalmente anônima, quem gritava pra mim que eu era maravilhosa era ela”, relembra a cantora.

Teve um momento em que eu não tinha o que comer, meu aluguel estava atrasado e minha filha pedindo as coisas.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tatuagem de Tabatha mostra amor de mãe e filha.

A pequena Nicoly é fruto do casamento de Tabatha, celebrado quando ela tinha 16 anos. Aos 21, ela se separou e, com a filha nos braços e todas as obrigações financeiras nas costas, decidiu sair para o mundo e viver da sua voz.

“Eu confio no que Deus fez, Ele não me deu este caminho à toa. Eu acreditei com muita fé, porque teve um momento em que eu não tinha o que comer, meu aluguel estava atrasado e minha filha pedindo as coisas. Mas eu tinha certeza que aquilo não ia durar, e eu estava certa”, conta a carioca.

Tabatha tem uma voz firme e palavras certeiras ao contar sua trajetória de vida. Aos 3 anos de idade, foi abandonada pelos seus pais biológicos no centro do Rio de Janeiro. A Polícia Militar a levou para um abrigo, fotografou as crianças que ali estavam e divulgou no jornal de uma igreja. Uma tia, irmã de seu pai, a reconheceu e foi ao local adotá-la.

Me sinto feliz por mostrar que a minha realidade não me diminui em nada.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tabatha quer incentivar outras mulheres negras, pobres e mães solo como ela a realizar sonhos.

E é ela, a tia, quem Tabatha reconhece como mãe. A vida das duas não teve menos embates por conta disso. Certa vez, conta a cantora, já ouviu que deveria “arrumar um emprego de carteira assinada e um marido”. “Mas eu dizia que ela estava duplamente errada.”

E estava mesmo. A cantora ganhou reconhecimento pela sua batalha diária e solitária e agora quer usar sua voz, em todos os sentidos, para ajudar outras mulheres como ela: negras, pobres e mães solo. Hoje, depois do sucesso de seu vídeo, tem contrato assinado com gravadora.

“Me sinto feliz por mostrar que a minha realidade não me diminui em nada. Não foi muito por mim, mas por mostrar às mulheres como eu que é possível sonhar”, destaca. E contextualiza: “Quero que as irmãs que veem seus sonhos longe, porque depois de ter filho é comum ser jogada como sobra, possam olhar para si mesmas e acreditar. Quero pedir para elas acreditarem, porque é possível”.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Tabatha torce para que Nicoly, sua filha, se sinta livre de verdade em uma sociedade melhor.

Chamar mulheres que vivem a mesma realidade que a sua como irmãs não é um mero detalhe. Tabatha carrega em sua fala a consciência racial sobre a formação da sociedade brasileira. Para ela, tudo foi mais difícil, sim, por ser uma mulher negra.

“A mulher negra é hipersexualizada, e acreditam que ela não pode negar um encontro, porque já olham para a gente como objeto sexual. Se negar, há o argumento de que é ‘mãe solteira’ e que vai naturalmente aceitar transar. É muito difícil”, lamenta a cantora.

Diante de todas as mazelas sociais, Tabatha acredita que seu trabalho pode ajudar outras mulheres e, principalmente, deixar um mundo melhor para Nicoly.

“Minha intenção é tentar trabalhar essa mudança na sociedade, que é extremamente machista, racista, preconceituosa e opressora. Eu quero que minha filha se sinta livre de verdade. Quero que ela se sinta feliz para ser ela, simplesmente, e como ela quiser, sem ser tachada de nada”, afirma.

Eu não tinha nenhum suporte, mas hoje quero ser espelho para outras mulheres.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu não tinha nenhum suporte, mas hoje quero ser espelho para outras mulheres."

Vivendo dias de muito trabalho e preparação depois da assinatura do contrato com a gravadora, Tabatha não esquece nenhuma nota musical, desafino e desafio até aquela caneta.

“Assinar um contrato, sendo que só foi possível porque meu povo [negro] viralizou o meu vídeo organicamente é uma sensação de que estou no caminho certo”, pontua. “Mas não só por mim. Se me perguntarem em quem eu me espelhei, digo que ninguém. Eu não tinha recurso nenhum, e todo mundo tinha algo. Eu não tinha nenhum suporte, mas hoje quero ser espelho para outras mulheres.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Diego Iraheta e Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Verizon Media Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.