POLÍTICA
26/04/2019 08:21 -03 | Atualizado 26/04/2019 08:21 -03

Tabata Amaral: 'As pessoas ficam muito incomodadas quando não conseguem te rotular'

Em entrevista ao HuffPost, a deputada federal falou sobre a polarização entre direita e esquerda, cotas para mulheres e educação no Brasil.

Arquivo Pessoal/Reprodução/Facebook/Tabata Amaral
"Para quem trabalha com educação com uma profundidade, há um certo tempo, fica muito evidente que é um problema político no Brasil", afirma em entrevista ao HuffPost Brasil.

Criada na Vila Missionária, bairro pobre paulistano, ex-aluna de Harvard, defensora de mudanças na Previdência e de cotas para mulheres no Congresso. Esses são alguns fatos sobre a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), que ganhou destaque nacional ao protagonizar um debate dias antes de Ricardo Vélez deixar o comando do Ministério da Educação (MEC).

Aos 25 anos e no primeiro mandato em Brasília, a filha de um cobrador de ônibus e de uma diarista e graduada em Ciência Política e Astrofísica acredita que os ataques de que é alvo são fruto de um incômodo por não se encaixar nos extremos da polarização de direita e esquerda no Brasil.

“As pessoas ficam muito incomodadas quando não conseguem te rotular”, disse em entrevista ao HuffPost Brasil. “Olham para minha trajetória, que é coerente, mas que foge da caixinha, que é diferente do que esperavam. Sabe aquela coisa de que a gente gosta do que é familiar? Para mim é isso. Estão tentando me moldar ao que esperavam de uma pessoa que nasceu na periferia, ou que está no PDT”, completou.

Ao contrário de alguns integrantes de partidos progressistas, Tabata defende mudanças nas regras da aposentadoria, mas não conforme proposto pelo governo de Jair Bolsonaro. “Não vou falar que ‘não precisa de reforma, vamos negar tudo e deixa o Brasil se ferrar’. Só que não dá para votar essa reforma que eles trouxeram.”

Entre as emendas que o PDT deve apresentar na comissão especial, está o fim dos supersalários e a manutenção da aposentadoria especial do professor.

Foi na educação que a deputada começou sua atuação social e esse é o principal foco de seu mandato. “Fica muito evidente que é um problema político no Brasil”, aponta. Antes de chegar ao Congresso Nacional, Amaral ajudou a fundar o Movimento Mapa Educação, de incentivo a lideranças jovens, e o Movimento Acredito, pela renovação política no País.

Apesar de considerar cedo para avaliar a gestão do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, ela vê com ressalvas as bandeiras ideológicas do governo, expressas em ações como cantar o hino nacional ou combater o comunismo. “Os holofotes da polarização, do ódio, são muito grandes e o governo se alimenta deles.”

Na avaliação da parlamentar, “direita e esquerda concordam que está sendo uma catástrofe” a gestão da educação no País. Ela aponta, por outro lado, que os brasileiros não têm enxergado dessa maneira. “A nossa população não tem ainda maturidade educacional para cobrar educação de qualidade.”

Como forma de fiscalizar o Ministério da Educação, a Câmara dos Deputados criou uma comissão externa para acompanhar os atos da pasta. “Não dá para esperar mais 3 meses e meio e em julho falar ‘olha, não vai ter Enem’ e a gente não fez nada”, alerta Tabata.

Uma das coordenadoras adjuntas da bancada feminina, a deputada denuncia casos de assédio e machismo no Congresso e defende cota para mulheres na política. Outra iniciativa que está sendo pensada é a criação de comitês de gênero nos processos de julgamento de contas partidárias, para evitar o descumprimento das leis. Hoje as mulheres têm direito ao mínimo de 30% das candidaturas e valor proporcional do Fundo Eleitoral.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil:Na audiência pública com o então ministro da Educação, Ricardo Vélez, você criticou a falta de planos do governo para educação. Como avalia os primeiros dias do ministro Abraham Weintraub?

Tabata Amaral: No momento em que ele assumiu, eu tinha 3 preocupações. A primeira era: será que ele vai colocar todo o conhecimento de gestão que ele tem para de fato resolver isso? Fazer um planejamento, correr atrás do prejuízo, apresentar um calendário? Essa parte eu não consigo avaliar ainda.

Um primeiro indicativo foi negativo porque ele não trouxe pessoas com conhecimento em educação. E, na minha experiência, bons gestores se rodeiam de gente com muito conhecimento técnico. Quando ele fez nomeações muito ideológicas, na mesma linha anterior [de Ricardo Vélez], eu fiquei um pouco preocupada, mas acho que não dá para avaliar a capacidade de gestão ainda.

Um segundo ponto é a questão das guerras ideológicas.

Se você é um bom gestor e entende o tamanho do desafio que é a educação e a importância que ela tem no Brasil, você não vai perder seu tempo com essas questões de cantar hino, falar slogan do governo, guerra ao comunismo, marxismo cultural...

E nas falas dele depois da posse eu não vi uma diferença muito grande em relação ao ministro anterior. Acho que ele continua dando atenção a algo que não é importante, mas não tivemos nenhum escândalo, como a gente teve com o Vélez.

A terceira preocupação é em relação ao Fundeb, que é o principal responsável pelo financiamento da educação. Vence no próximo ano. A gente estava sentindo muita falta do MEC sendo vocal nessa discussão porque interessa muito ao Executivo. O único órgão que tinha começado a discutir o Fundeb era o Ministério da Economia. Quando a gente levou as demandas para o Ministério da Educação atual foi no sentido de “vou estudar, vou entender, quero conversar”.

Isso foi uma conversa sua no MEC depois que o novo ministro assumiu?

Sim. conversas com a Comissão de Educação [da Câmara].

Há uma abertura maior de discutir o Fundeb então?

Sim, mas não houve nenhum comprometimento na linha de que é importante, vai para a Constituição, vai ser distributivo etc. E a visão do Ministério da Economia, na minha opinião, é muito simplista. É uma visão de que tem muito dinheiro para educação, que não olha para desigualdade, não olha para nada.

Estas são minhas 3 maiores preocupações: o espaço para guerra ideológica, a gestão e o Fundeb. Há indícios preocupantes nas 3, mas acho que a gente tem um tempinho até as primeiras audiências [do ministro no Congresso] para entender.

Como é um tempo muito curto, a gente instaurou uma comissão externa para acompanhar a execução do planejamento estratégico do MEC. Vamos decidir quais áreas vamos acompanhar. Provavelmente Enem vai estar entre elas, a execução do projeto de implementação da reforma da base curricular, da reforma do Ensino Médio. Vão ser umas 5 áreas que a gente quer ter um calendário para acompanhar. Não dá para esperar mais 3 meses e meio e em julho falar “olha, não vai ter Enem” e a gente não fez nada.

Alguns apoiadores do presidente e analistas políticos afirmam que a postura ideológica forte na área da educação faz parte das ferramentas do presidente para manter a popularidade. Você acredita que esse tipo de conduta pode minar avanços concretos na área?

Sim. É uma leitura perfeita e para mim fica muita tristeza e preocupação com o Brasil. Os holofotes da polarização, do ódio, são muito grandes e o governo se alimenta deles. Não há uma distinção muito clara entre campanha e pós-campanha.

E tem uma segunda coisa que me deixa mais triste. A população avalia o governo muito mal. É o pior governo avaliado em vários anos, mas avalia o governo bem em educação. Acha que está fazendo um bom trabalho. Eu digo isso, óbvio, não para criticar a população da qual eu sou parte, mas para dizer que a nossa população não tem ainda maturidade educacional para cobrar educação de qualidade.

Eu ouvia do meu pai “na minha época, escola pública era escola de rico, então agradeça por você estar na escola”. Ele falava para mim na escola estadual. A geração do meu pai não teve acesso à educação. Se cobrava escola, se cobrava escolaridade. Mas você só vai ter uma população que cobre educação de qualidade, quando ela tiver essa educação de qualidade, quando ela souber o que é isso. Isso não aconteceu ainda.

A população vê um governo que fala toda hora de educação, não cobra educação de qualidade e avalia o governo bem na pior área dele, na minha opinião. Eu entenderia quem avalia o governo bem na área econômica etc, mas em educação não tem como.

Direita e esquerda concordam que está sendo uma catástrofe.

A regulação do ensino domiciliar é a única proposta concreta do governo até agora. Como vê a regulamentação desse tema?

Do ponto de vista de ativista de educação, não sou contra regulamentar. Acho que se famílias decidem educar seus filhos, só quero ter certeza de que o Estado está acompanhando isso. Quero ter certeza de que as crianças vão ter um momento de socialização porque a escola não é só para conteúdo, que vai ter uma fiscalização do Estado para proteger os direitos das crianças.

Sem regulamentação, não dá. É um risco muito grande para população mais vulnerável. Com regulamentação, não sou contra. Acho que é uma escolha de cada um.

O incômodo para quem trabalha com educação é que essa seja vista como uma medida prioritária. Hoje são 7 mil famílias [no ensino domiciliar]. A melhor estimativa é que com a regulamentação vá para 30 mil. São 50 milhões de estudantes [no Brasil].

Tem alguma coisa muito errada quando isso [ensino domiciliar] entra como prioridade dos primeiros 100 dias.

Quando começar a comissão para analisar [a proposta],  quero contribuir. Tem projetos legais. Vamos regulamentar. Mas me entristece, preocupa e causa espanto que o governo ache que isso é importante. Não é nem de perto tão urgente como a situação dos professores, do financiamento da educação etc.

Arquivo Pessoal/Reprodução/Facebook/Tabata Amaral
"Direita e esquerda concordam que [educação] está sendo uma catástrofe."

Em audiência pública na Câmara neste mês, a ministra Damares Alves [Direitos Humanos] disse que a senhora era “tão linda que não precisa abrir a boca”. A senhora já relatou episódios de assédio também. Esse tipo de atitude dos parlamentares afeta o desempenho das mulheres na política? E como uma das coordenadoras adjuntas da bancada feminina, como é possível mudar esse cenário?

Eu já sabia do ponto de vista teórico, mas a gente sempre aprende mais na prática. A Câmara é um lugar muito arisco para as mulheres. Eu digo isso simplesmente porque é um fato que a gente tem que olhar para ele para poder corrigir, para saber lidar.

A caminhada para chegar aqui é muito mais longa para mulheres. O ponto de partida é lá atrás. E diariamente te colocam um pouco mais atrás nessa caminhada.

Tem muito assédio na Câmara. Muitas interrupções. Espaços não são dados por preconceito.

Qual a minha atitude diante disso? Primeiro falar que isso acontece porque tem muita gente que acha que machismo não existe, que é uma coisa inventada. Acho importante contar o que acontece diariamente, já que me sinto confortável em falar sobre isso, mas também tomar medidas para que não aconteça mais (...). A minha meta é trazer cada vez mais mulheres para a política.

Como fazer isso?

Muitas conquistas foram feitas e há algumas reflexões de como melhorar a legislação atual. Quanto aos partidos, a Secretaria da Mulher se reuniu com a [procuradora-geral da República] Raquel Dodge há uns 2 dias e a gente está pensando como criar um espécie de manual, deixando mais claro e criando pré-condições para que se saiba como julgar esses casos (de aplicação de leis sobre mulheres na política).

A gente entende, por exemplo, que a Justiça Eleitoral, o Ministério Público, tem que ter um comitê de gênero na hora que vai analisar as contas dos partidos. Porque os partidos são muito criativos, e a gente sabe que essa cota (de 30% do Fundo Eleitoral para mulheres) foi usada das mais diversas maneiras.

Tem toda uma legislação partidária que pode melhorar muito. Melhorar a democracia interna, análise de contas partidárias. Mas também tem coisas um pouco mais ousadas que eu sou a favor, que é ter cota no Parlamento.

Arquivo Pessoal/Reprodução/Facebook/Tabata Amaral
"A caminhada para chegar aqui é muito mais longa para mulheres. O ponto de partida é lá atrás. E diariamente te colocam um pouco mais atrás nessa caminhada."

Cota de vagas para mulheres no Congresso, não cota de candidaturas?

Sim. Todos os países que se aproximaram da paridade ou passaram dela, como o caso de Ruanda, começaram com cotas no Parlamento. A nossa cota hoje é um avanço e defendo muito, mas é muito fácil de driblar e boicotar. Sou a favor de tudo que a gente puder fazer para melhorar a legislação ou na parte constitucional mesmo. Para mim não tem nenhum argumento contra. É você permitir que metade da população participe da democracia e ter uma democracia mais forte, mais competitiva. É bom pra todo mundo.

Você estudou Astrofísica e, neste mês, chamou atenção o fato de uma cientista de 29 anos ter sido responsável pela primeira imagem de um buraco negro. Como incentivar meninas e jovens mulheres profissionalmente e por que isso é importante?

Fiquei muito feliz com a notícia porque as mulheres contribuem para a ciência há muitos anos, mas são ignoradas desde o princípio. Suas contribuições são minimizadas.

E agora um amigo físico me mandou uma matéria sobre a porcentagem de estudantes de Física que são assediadas na graduação. Movimentos como esse fazem com que físicos parem e considerem [essa questão].

Eu contei para ele que mesmo quando a gente leva em consideração que há mais homens nos cursos de exatas e ciências, os homens recebem uma quantidade desproporcional de bolsa de pesquisa em relação às mulheres porque são professores homens que decidem. E ele não sabia. Eu tenho dados para tudo, pesquisas. Quando essas coisas acontecem, a gente abre um diálogo.

De modo geral, quando a gente fala de inclusão, são vários passos. O primeiro deles é representatividade. Várias meninas crescem sem considerar que podem ser cientistas, políticas etc. E aí entra a educação. Divulgar o trabalho de cientistas mulheres como esse. É uma menina jovem, como você. Pode ser você daqui uns anos.

Tem a questão das portas de entrada. Essas bolsas de estudo, por exemplo, o CNPq tem que fazer alguma coisa. Coloca um professor e uma professora para entrevistar [candidatos a bolsas]. Tem vários mecanismos que as empresas estão adotando. E ao longo do caminho, a gente fala, por exemplo, da licença maternidade e paternidade compartilhada.

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"Os partidos não formaram lideranças. Não é só a esquerda, não é só o PT. Que grandes lideranças a gente tem na direita? Que grandes novas lideranças a gente tem no centro?"

Depois da audiência com o então ministro Vélez, você foi alvo de algumas críticas. Em entrevista ao HuffPost Brasil, Ciro Gomes atribuiu críticas a uma incapacidade do PT de criar novas lideranças. Como você viu esse episódio?

Concordo com a análise do Ciro, mas complementaria. Os partidos não formaram lideranças. Não é só a esquerda, não é só o PT. Que grandes lideranças a gente tem na direita? Que grandes novas lideranças a gente tem no centro?

Concordo que o PT não formou lideranças e é culpado por muita coisa que está acontecendo, mas não foi só o PT.

Quem liderou a democracia depois da ditadura militar não formou lideranças, de todos os lados. E quando a gente tem uma crise de liderança, você tem essa polarização, você tem a democracia questionada.

Quanto às críticas, do ponto de vista pessoal, eu tenho a sorte de trabalhar com educação há muitos anos. Não é a primeira vez, não vai ser a última. Não foi nem a décima que fizeram notícia falsa sobre mim, que alguém me difamou, ameaçou, criticou, vão os robôs para as redes sociais. Tenho experiência muito forte, começando com o MBL em 2016. Com 3 anos lidando com fake news você fica um pouco mais acostumada.

O MBL produziu fake news sobre a senhora?

Sim. É bem documentado. E sempre elas vêm dos dois lados. Militantes da extrema esquerda e da extrema direita. Qual o resumo que eu tiro desses 3 anos? As pessoas ficam muito incomodadas quando não conseguem te rotular. Meus posicionamentos são bastante coerentes. Não consigo pensar em um que tenha mudado nos últimos anos ou que eu não quis explicar.

Se você pega a soma dos posicionamentos eles não são fáceis de classificar como de extrema esquerda ou extrema direita. Na minha visão, são centro-esquerda, que é uma coisa no Brasil que as pessoas têm mais dificuldade de entender. A gente é muito 8 ou 80.

As pessoas olham para minha trajetória e é coerente, mas foge da caixinha.

É diferente do que elas esperariam. Sabe aquela coisa de que a gente gosta do que é familiar? Na hora que vê uma coisa um pouco diferente, dá uma paulada para tentar igualar a você. Para mim é isso. Elas estão tentando me moldar ao que esperavam de uma pessoa que nasceu na periferia, ou que está no PDT.

Do meu ponto de vista, enquanto eu continuar sendo coerente com meus valores, eu não tenho que mudar pelo que as pessoas pensam. Sinto muito pelo tempo que eu perco com esse tipo de coisa porque é mais fumaça quando a gente tem problemas muito sérios.

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"Estão tentando me moldar ao que esperavam de uma pessoa que nasceu na periferia, ou que está no PDT."

Qual sua posição sobre a reforma da Previdência? Votaria a favor do texto aprovado na CCJ?

Eu trabalhei no movimento Acredito por 1 ano e meio. Era líder nacional de agenda. Eu que construí a agenda da reforma da Previdência com especialistas. Na campanha toda eu falava. Eu via os dados. Ouvia os especialistas.

Precisamos de uma reforma. E precisamos de uma reforma rápida porque essa aumenta a desigualdade e eu tenho compromisso com reduzir a desigualdade (...) O governo por ser de extrema direita, ou de direita, traz uma reforma em um momento em que é necessária, mas com fragilidades sociais inaceitáveis, muito graves. Por isso que não dá para ser 8 ou 80.

Não vou falar que não precisa de reforma, vamos negar tudo e 'deixa o Brasil se ferrar'. Só que não dá para votar essa reforma que eles trouxeram.

Está muito claro que a gente tem que mudar [a proposta] e acho que vamo conseguir. Para mim é uma postura muito mais honesta, mesmo que me custe popularidade, eu apresentar emendas e tentar mudar, do que falar que sou contra tudo (...) A gente está revisando com outros parlamentares do PDT para apresentar para tirar a questão do BPC, da aposentadoria rural.

A gente está tentando uma forma de não acabar com a aposentadoria especial do professor. A gente sabe que é muito sofrido para os estados, mas é uma carreira muito desvalorizada. Tem que ter um meio do caminho. A gente tem proposta também para acabar com os supersalários porque o governo não foi nessa parte de super-aposentadorias.

Vamos apresentar tudo semana que vem, mas tem uma série de emendas para tornar o projeto melhor. Se fosse o projeto que está aí hoje, eu não votaria porque é muito ruim, mas realmente acredito que daqui a 40 sessões [prazo da comissão especial], vai ser um projeto muito diferente. E aí vou conseguir dizer se vou votar a favor ou contra.

A senhora fala muito de promover o diálogo como um ponto importante para quebrar a polarização e fazer uma nova política. Teve uma reunião com o governador João Doria nesta semana. Como foi esse caminho de entrar para política partidária? A senhora se decepcionou com a dinâmica do Congresso?

Sobre entrar na política, eu trabalho com educação há bastante tempo e o que dava para explorar eu fiz. Fui professora em escola pública, privada, trabalhei em Secretaria de Educação, movimento social, rádio, empresa. Sempre com educação. E têm uma hora que você se frustra muito porque depende do prefeito, do secretário, isso não pode porque politicamente não é interessante. As pessoas brigam com os dados e querem alterar o que eles estão dizendo.

Para quem trabalha com educação com uma profundidade, há um certo tempo, fica muito evidente que é um problema político no Brasil.

Não é um problema técnico. E meu compromissos de vida é com a educação. Se eu quero mudar a educação - e eu quero - eu tenho que mudar a política. E tenho que mudar os políticos também.

Foi uma doideira completa essa eleição. Lancei minha candidatura em julho. Tinha me filiado [ao PDT] em abril. Tem um ano. É tudo muito novo e estou aprendendo muito. Mas não me arrependo em nenhum instante. Eu continuo acreditando que é aqui que a transformação vai acontecer.

Vem com um custo pessoal alto? Vem. As pessoas são completamente injustas e mentirosas com você? São. Você trabalha 14 horas por dia? Trabalha. Minha mãe fica morrendo de preocupação? Fica. Mas acho que vale tão a pena que não me vejo em outro lugar. Estou muito feliz.

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"Vem com um custo pessoal alto? Vem. As pessoas são completamente injustas e mentirosas com você? São. Mas acho que vale tão a pena que não me vejo em outro lugar. Estou muito feliz."

Acha que é possível então fazer uma política com mais diálogo e menos polarização?

Com certeza. Dá um trabalho do cão, mas é possível.

A senhora vai ser candidata à prefeitura de São Paulo?

Não sou candidata. Agradeço muito e fico honrada com a posição do PDT, mas não fui, não sou, não serei. Tenho que cumprir meu mandato e acho que onde posso mais contribuir com educação é no Congresso agora.