LGBT
10/03/2020 19:58 -03 | Atualizado 11/03/2020 06:21 -03

‘Entendo a frustração de quem se decepcionou comigo’, diz Drauzio Varella sobre 'caso Suzy'

Em vídeo, médico se posiciona sobre abraço que deu em detenta transexual, condenada por estupro e homicídio de uma criança, em reportagem do 'Fantástico'.

O fato do médico Drauzio Varella ter abraçado a presidiária Suzy Oliveira em uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, que mostrava a realidade de mulheres trans na prisão, causou comoção e, ao mesmo tempo, revolta. 

Cartas e presentes chegaram a ser enviados à detenta logo após a transmissão da reportagem no domingo (1). Mas a comoção deu lugar à revolta quando começou a circular pela internet a razão da condenação de Suzy. O site O Antagonista publicou o texto da condenação pelos crimes de estupro e homicídio contra uma criança de 9 anos. 

Reprodução/TVGLobo/Montagem
Suzy Oliveira (à esq.) e cena em que Drauzio Varella abraça a detenta (à dir.)

Devido à repercussão negativa do caso tanto nas redes sociais, quanto fora delas, o médico divulgou um vídeo nesta terça-feira (10). Ele começa o vídeo informando que o crime cometido por Suzy, que cumpre pena em São Paulo, foi uma revelação tanto para o país, quanto para ele.

“Não há o que falar. É um crime que choca a todos nós”, diz o médico. Na nota em que divulgou anteriormente, quando o caso veio à tona, ele afirmava que não perguntou sobre os delitos das presas. “Sou médico e não juiz”, escreveu. A posição do médico foi endossada pela TV Globo em comunicado à imprensa.

Em seguida, no vídeo, Drauzio pede desculpas à família da vítima que, de certa forma, foi exposta após a repercussão. “Posso imaginar a dor e peço desculpas à família do menino que foi involuntariamente envolvida no caso”, diz. 

Ele ainda reitera que o foco da matéria do Fantástico não eram os crimes cometidos, mas mostrar as condições em que vivem as transsexuais presas no Brasil e pontua que as estatísticas oficiais indicam que a maioria das pessoas trans que estão encarceradas cometeu delitos como roubo e furto.

Os números citados por Drauzio pertencem ao relatório “LGBT nas prisões do Brasil: diagnóstico dos procedimentos institucionais”, lançado em 2019 pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em parceira com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

O estudo é o primeiro diagnóstico oficial sobre o tema no Brasil e pode servir de base para elaboração de políticas públicas. A pesquisa aponta que 38,5% das pessoas trans estão presas por roubo, 34,6% por tráfico, 15,4% por furto, 7,7% por homicídio e 3,8% por associação para o tráfico.

A maioria das travestis e mulheres trans prefere estar em unidades prisionais masculinas, se houver cela específica. Já os homens trans preferem unidades femininas.

A pesquisa ainda aponta que apenas 40% de pessoas gays, travestis e trans possuem visitante registrado. O isolamento tem um impacto direto na realidade prisional, uma vez que insumos materiais para a sobrevivência do preso muitas vezes são trazidos por familiares.

Dráuzio Varella, há décadas, atua como voluntário em penitenciárias por todo o país. Entre os livros publicados por ele dentro da temática estão Estação Carandiru,Carcereiros e Prisioneiras, todos publicados pela Cia. das Letras. 

“A maneira como a Suzy foi apresentada deu a entender que a Suzy faz parte desse grupo majoritário, por isso eu entendo a frustração de quem se decepcionou comigo”, afirmou. Drauzio também disse que “assume totalmente a responsabilidade pela repercussão negativa” que o caso gerou.

O médico explicou o contexto em que se deu o abraço na detenta. “Ali aconteceu o seguinte: eu terminei a entrevista, que foi uma entrevista longa. E ela ficou de cabeça baixa no fim, quando eu perguntei há quanto tempo ela não recebia visitas e ela disse ‘sete, oito anos’. E eu disse ‘solidão, né, minha filha?’, e ela me olhou com um olhar tão triste, que me comoveu”, disse. 

“Pra quem acha que eu errei, desculpa. Mas esse é meu jeito. Eu lamento mas assumo totalmente a responsabilidade pela repercussão negativa que o caso teve”, reafirma. Ao fim do vídeo, Drauzio diz que “não será candidato a nada” e alfineta o uso político de sua imagem: “As pessoas que estão explorando politicamente esse episódio podem ficar tranquilas.”

Questão chegou até Damares e o presidente Jair Bolsonaro

ASSOCIATED PRESS
Detenta identificada como Thayla Marcolino, na prisão de Evaristo de Moraes, no Rio de Janeiro, Brasil. Imagem foi tirada em 2015.

Também nesta terça, a ministra Damares Alves, em vídeo divulgado pelo deputado federal Kim Kataguiri (DEM), falou sobre a repercussão do caso. A ministra reiterou os dados da pesquisa citada por Drauzio Varella, disse que a reportagem pegou um “péssimo exemplo” e disse que “o detento tem o direito da ressocialização e ter, no mínimo, um tratamento digno lá dentro.”

Damares ainda afirmou que ”é assim que o presidente Bolsonaro pensa. É assim que esse governo pensa. É direitos humanos para todos, mesmo”. Na segunda-feira (9) Bolsonaro publicou uma foto de Drauzio e Suzy em seu Twitter, criticou a TV Globo e afirmou que “infelizmente a Constituição não permite prisão perpétua para crimes tão cruéis.”

Bruna Castro, advogada de Suzy, divulgou ontem, em suas redes sociais uma carta escrita a próprio punho por ela, em que pede desculpas e se diz arrependida pelo crime que cometeu. 

“Nas entrevistas ao jornal ‘Fantástico’ não foi me foi perguntado nada referente ao B.O. Eu sei que errei e muito. (sic) Nenhum momento tentei passar como inocente e desde aquele dia me arrependi verdadeiramente, e hoje estou aqui pagando por tudo que cometi”, escreveu. 

“Errei sim e estou pagando cada dia, cada hora e cada minuto neste lugar. Antes não teria essa oportunidade, agora quero apenas pedir perdão pelo meu erro do passado”, finaliza a carta.

A Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) divulgou uma nota em que repudia os ataques a Drauzio Varella feitos por alguns grupos nas redes sociais; além de mencionar o quanto repercussões como essas podem reforçar estereótipos e “gerar mais ódio” a pessoas trans.

“Da mesma forma repudiamos, ativistas e grupos de feministas radicais que tem replicado massivamente o teor do processo que já transitou em julgado, intensificando a campanha difamatória, a fim de gerar mais ódio contra as pessoas trans”, diz a nota.

A associação ainda reitera que é “contra atos de violência contra qualquer pessoa ou a violação dos direitos humanos de quem quer que seja” e finaliza afirmando que “o Estado já a condenou [Suzy], não cabe a nós condená-la novamente.”