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13/03/2019 15:30 -03 | Atualizado 13/03/2019 20:28 -03

'Atiraram em uma menina na minha frente', diz sobrevivente de Suzano

Estudante de 17 anos relata momentos de terror que enfrentou.

Ana Beatriz Rosa/HuffPost Brasil
Yanne e o namorado Bruno estão traumatizados após massacre na escola de Suzano.

A jovem Yanne, de 17 anos, foi uma das centenas de adolescentes que viveram momentos de terror na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo na manhã desta quarta-feira (13). Em entrevista ao HuffPost, ela relatou as cenas de tensão que viveu por volta das 9h40, enquanto Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25, atiravam em seus colegas.

Na hora que os tiros começaram, Yanne saiu correndo para o pátio da escola. Ao ver os rapazes com as armas, desviou para o centro de línguas. Deitou-se para se proteger, mas com o desespero, colegas acabaram pisoteando a estudante.

“Alguns alunos falavam que era brincadeira, para todo mundo ficar calmo. Mas aí os atiradores falaram que não era brincadeira. Atiraram em uma menina que estava na minha frente”, conta. Nesse momento, dezenas de estudantes saíram correndo.

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Asmática, ela entrou em uma sala de aula já com falta de ar. Como havia deixado a bombinha na bolsa, teve que recorrer aos exercícios de respiração que aprendeu na terapia para controlar a ansiedade. “Eu tinha que puxar o ar e segurar por 10 segundos. Se eu começasse a respirar forte, ia acabar desmaiando.”

A professora trancou a sala para evitar que os atiradores entrassem. Alguns minutos depois, uma policial ajudou a retirar as vítimas, inclusive Yanne.

Com ferimentos nas pernas e braços, ela foi atendida no hospital local. Ao lado do namorado Bruno, de 23 anos, tentava entender, na tarde desta terça-feira, a dimensão do ataque que presenciou. 

Esperança e desespero

O dia foi de angústia e sofrimento para a família do adolescente Kaio Lucas, de 15 anos. O nome dele não constava da lista de vítimas mortas, divulgada pela Polícia Civil de São Paulo.

“A família ficou o dia todo desesperada porque não tinha notícia deles. Viemos para o IML com uma ponta de esperança”, conta a prima dele, Francine D’Angelo.

Quando os familiares de Kaio souberam que Pablo Henrique Rodrigues, cujo nome estava na lista de mortos, estava vivo, a esperança se esvaiu. “As crianças estavam sem documentos e mochilas, ou seja, sem identificação”, diz Francine sobre a confusão dos nomes pela polícia.

Autores do massacre, Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro eram ex-alunos da escola. O mais jovem tinha sido expulso em 2018 do colégio após ter “problemas”, segundo o secretário de Segurança Pública de São Paulo, general João Camilo de Campo.

Entre as vítimas, estão cinco estudantes: Kaio Lucas da Costa Limeira e Caio Oliveira, de 15 anos, Douglas Murilo Celestino e Samuel Melquíades Silva Oliveira, de 16, e Claiton Antônio Ribeiro, de 17.

Também foram assassinadas a coordenadora-pedagógica da escola, Marilena Ferreira Vieira Umezo, de 59 anos, e a agente de organização escolar Eliana Regina de Oliveira Xavier, de 38.

A oitava vítima foi atingida fora da escola. Jorge Antônio Moraes, de 51 anos, era dono de uma locadora de carros e tio de Guilherme, um dos atiradores. Segundo uma testemunha, o tio teria desconfiado do sobrinho e tentou impedi-lo de sair com armas de casa. Moraes chegou a passar por cirurgia, mas morreu no hospital.

A escola tem cerca de 1.600 alunos nos ensinos fundamental (do sexto ao nono anos) e médio e cursos de línguas. Pela manhã, no entanto, só funciona o ensino médio e o curso de línguas. 

ASSOCIATED PRESS
Homem conforta parente de vítima de Suzano.

Como foi o ataque

Aos jornalistas, o comandante-geral da PM de São Paulo, coronel Vieira Salles, disse que os dois atiradores - um deles usando uma máscara de caveira - entraram pela escola pelo portão da frente, no horário do intervalo, pouco depois das 9h30.

Eles se dirigiram primeiro à coordenação da escola, onde atiraram na coordenadora e na funcionária, e depois foram para o pátio, onde mataram 5 estudantes.

Na sequência, seguiram para a área onde são dados cursos de línguas, mas a professora conseguiu trancar a sala. Guilherme teria então matado Luiz Henrique, segundo a polícia, e depois se suicidou.

Eles estavam usando um revólver calibre 38 com a numeração raspada e uma besta (arma medieval que funciona com flechas), além de portarem 4 jet loaders (para recarregamento de arma). Foram encontrados ainda uma machadinha e um arco e flecha com os corpos dos atiradores.