COMPORTAMENTO
27/03/2019 19:52 -03

Como Suzano inspirou ameaças de ataques em todo o Brasil

É preciso parar de alimentar o discurso de ódio.

Reuters

No último dia 13 de março, dois jovens invadiram a escola Raul Brasil, em Suzano (SP), e atiraram contra alunos e professores. Em menos de 15 minutos, tudo havia acabado. Dez pessoas morreram e outras 10 ficaram feridas. 

Uma semana após o massacre de Suzano, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) acionou a Polícia Federal para investigar supostas ameaças no campus da instituição.

“Mesmo que seja apenas uma postagem, sem nenhuma conexão com a realidade, exigimos a investigação e que sejam responsabilizados os responsáveis”, pediu o diretório acadêmico da UFRGS.

No dia 22 de março, o Centro Universitário Municipal de Franca (SP) cancelou as aulas após uma série de boatos nas redes sociais espalharem o medo entre os alunos.

No mesmo dia, um jovem de 13 anos foi apreendido no Distrito Federal pela Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) por ser acusado de ameaçar cometer um massacre em escolas da rede pública.

As ameaças de possíveis reproduções do massacre de Suzano pelo País chamaram a atenção e levantaram a questão de por que um crime tão repugnante como esse pode influenciar outros jovens.

Após o atentado, os atiradores passaram a ser celebrados em comunidades de perfis anônimos online. De acordo com investigações da polícia sobre os atiradores, eles teriam frequentado fóruns da deep web para buscar informações sobre como realizar o crime. Após o massacre, os jovens foram considerados heróis por parte da comunidade. 

Para a psicóloga Joana d’Arc, os massacres não podem ser entendidos como a normalidade. “Eles estavam tomados pela raiva. Isso é loucura”, afirmou em entrevista ao HuffPost Brasil.

Episódios como esse também jogam luz sobre cenários de exaustão emocional. Angústia, dor, sofrimento, ansiedade, choque, indignação, desamparo. As tragédias revelam sintomas de uma sociedade adoecida.

E as ameaças de massacres, como as que se seguiram após Suzano, são pedidos de ajuda. 

“O jovem é inspirado, mas ele não pratica o ato. Ele questiona: Vocês vão decodificar o sentimento que eu estou querendo manifestar? Como a sociedade vai interpretar essas ações?”, reflete.

 

É preciso parar de alimentar o ódio

Em um cenário em que o terror é usado como veículo para se fazer ser notado pela sociedade, é preciso um trabalho coletivo para que não se alimente os discursos de ódio. 

Pesquisas indicam que muitos frequentadores de fóruns, os chamados channers, se guiam por uma expectativa de midiatização de suas ações.

“Há um ciclo contínuo. Como no caso de atentados terroristas, é muito custoso à mídia não oferecer cobertura privilegiada a esses acontecimentos. Por outro lado, ao fazê-lo, ela está injetando mais capital político (e midiático) nesses grupos”, explica o professor e pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O especialista argumenta que os frequentadores dos fóruns têm como objetivo acumular “lulz”. O termo é entendido como uma pegadinha, uma piada, mesmo que de absoluto mau gosto.

“Na lógica dos chans, é uma espécie de moeda, segundo a qual os grupos que acumulam mais lulz são aqueles mais perspicazes.”

Assim, quanto mais os fóruns recebem menções, quanto mais o caso recebe cobertura midiática, mais atenção ele desperta, e, naturalmente, mais conhecido e frequentado o fórum se torna.

Foi o caso de Suzano. O mesmo fórum acessado pelos jovens que cometeram o ataque já foi investigado por acumular ameaças contra o ex-deputado federal Jean Wyllys, a antropóloga Débora Diniz e a blogueira feminista Lola Abramovich.

Um de seus fundadores, Marcelo Valle Silveira Mello, é um dos primeiros brasileiros condenados à prisão por crimes cometidos na internet. Ele foi condenado a 41 anos de reclusão por crimes de racismo, pedofilia e incitação ao terrorismo. 

Para Chagas, quebrar esse ciclo vicioso de exposição dos channers é um processo é difícil, mas que precisa ser interrompido.

“O curioso é que esses grupos se colocam à margem da mídia ― muitas vezes se descrevem, inclusive como injustiçados ou antissistema ― e a cobertura midiática, por sua vez, embora intensa, procura, em geral, destacar de modo didático a violência e o absurdo dos episódios.”

 

Como lidar com a culpa de quem sobreviveu

Sobreviventes de traumas podem desenvolver transtornos emocionais como estresse pós-traumático, crises de ansiedade e de pânico.

Sudorese, taquicardia, doenças de pele e distúrbio de sono são alguns dos sintomas que precisam ser observados.

Quem sobreviveu, também pode enfrentar períodos de depressão ou até desenvolver algo que já estava presente em seu interior, que é a ideação suicida.

“Quando alguém diz que não suportou ser sobrevivente, essa pessoa se sente culpada de não ter salvado os demais colegas. Ela não suporta a exaustão emocional, que é intensificada, a ponto do suicídio. Ou então, ela pode tentar desenvolver um altruísmo exacerbado, a ideia de querer ser o salvador do mundo, como se estivesse com alguma dívida a ser paga e que não consegue suprir”, explica a psicóloga Joana d’Arc. 

Para a especialista, o mais importante é que essas pessoas precisam se sentir amparadas para que possa voltar à normalidade de sua rotina.

“Essas crianças precisam poder dizer que a escola é segura novamente. E o papel da comunidade escolar é dizer que o que aconteceu não tem justificativa, foi um momento de loucura de duas pessoas.”

Por isso, será preciso um trabalho coletivo e contínuo para que se possa falar sobre as consequências do massacre e essa responsabilidade perpassa por toda a sociedade. 

“Precisamos cuidar da geração da fragilidade emocional. A violência, verbal ou física, é a materialização disso. O ódio é construído, não é algo genético.”