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09/07/2020 19:44 -03

Ministério da Saúde não sabe quantos pacientes que usam hidroxicloroquina têm acompanhamento cardíaco

Presidente Jair Bolsonaro disse estar usando medicamento que causa risco cardíaco e fez dois eletrocardiogramas por dia.

O Ministério da Saúde não sabe quantos pacientes de covid-19 que usam hidroxicloroquina têm acompanhamento cardíaco. Diagnosticado com a doença, o presidente Jair Bolsonaro disse estar usando o medicamento que causa risco cardíaco e fez dois eletrocardiogramas por dia. Não há evidências científicas de que o uso do remédio seja seguro e eficaz para combater o novo coronavírus.

“Não há nesse momento um dado publicado acerca desse acompanhamento de pacientes, seja no SUS [sistema único de saúde] ou seja de uma forma muito ampla no sistema privado”, afirmou Hélio Angotti Neto, titular da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde (SCTIE), em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (9).

De acordo com o secretário, “cabe ao médico prescrever a medição e decidir pela melhor forma de acompanhamento laboratorial ou por meio de exames complementares”. “Em relação ao suporte aos pacientes nessa condição, os municípios e estados organizam suas redes assistenciais e seus fluxos de encaminhamento”, disse.

Pressionado pelo presidente, entusiasta de cloroquina, o Ministério da Saúde ampliou em maio a recomendação de uso do medicamento, que passou a incluir quadros leves de covid-19. Desde então, a pasta prevê o uso de cloroquina com azitromicina ou de sulfato de hidroxicloroquina com azitromicina para pacientes com sintomas leves no SUS, como coriza, diarreia, dor abdominal, febre, tosse, fadiga e dor de cabeça.

Até então, o ministério só indicava o uso compassivo da cloroquina para casos graves. Em 1º de abril, foi publicada uma nota informativa pela SCTIE que liberava o uso do medicamento em casos confirmados da doença e a critério médico, “como terapia adjuvante no tratamento de formas graves, em pacientes hospitalizados, sem que outras medidas de suporte sejam preteridas”.

A principal preocupação era com o potencial da droga em causar arritmias cardíacas. “O coração é uma bomba que depende da ativação de um sistema elétrico próprio. Esse medicamento - tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina - pode produzir o prolongamento de uma dessas fases elétricas do coração e propiciar um ambiente favorável a uma arritmia que pode ser potencialmente fatal”, explicou Denizar Vianna de Araújo, titular da SCTIE, à época.

Por esse motivo, a pasta só liberava o uso para casos graves, já que esses pacientes estão internados, o que permite um acompanhamento médico. Antes, a recomendação era de que fosse feito eletrocardiograma no paciente antes do início do uso da droga e que os profissionais de saúde acompanhem a condição cardíaca durante a internação.

O protocolo atual diz apenas que a “cloroquina deve ser usada com precaução em portadores de doenças cardíacas, hepáticas ou renais, hematoporfiria e doenças mentais”.

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Diagnosticado com covid-19 o presidente Jair Bolsonaro disse estar usando hidroxicloroquina e fez dois eletrocardiogramas por dia.

Médicos pressionados a prescrever cloroquina

A recomendação de uso da cloroquina no SUS foi feita pelo Ministério da Saúde na forma de uma nota informativa. Isso significa que o documento não obriga os médicos a prescrever a medicação, porém a norma cria uma pressão nesse sentido.

De acordo com pesquisa da APM (Associação Paulista de Medicina), 48,9% afirmam que pacientes e familiares têm pressionado por tratamentos sem comprovação científica. Um total de 1.984 responderam a questionários online.

Questionado nesta quinta, Hélio Angotti Neto respondeu que o tratamento é uma escolha do médico e do paciente. “O paciente tem sua autonomia. Deve ser respeitado. Isso é um princípio bioético e o profissional também têm prerrogativa e autonomia em prescrever o tratamento que sua consciência o move a fazer, baseado nas melhores evidências científicas, nos valores compartilhados entre médicos e pacientes e na sua experiência profissional”, disse o secretário.

A nota do ministério prevê que o paciente assine um termo dizendo estar ciente “de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina pode causar os efeitos colaterais descritos” e que eles “podem levar à disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente, e até ao óbito”.

O médico também precisa assinar o termo, dizendo que fez as explicações devidas e que “o paciente ou seu responsável está em condições de compreender o que lhes foi informado”.

A exigência de “consentimento  livre  e esclarecido do paciente ou dos familiares” também está prevista no parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) de 16 de abril. Apesar de reconhecer que “não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença”, o documento do CFM diz que “não cometerá infração ética o médico que utilizar a cloroquina ou hidroxicloroquina”, nos termos previstos no parecer.

Especialistas alertam que as condições em que o paciente está comprometem essa escolha. A ausência de informações corretas somada às reiteradas declarações de Jair Bolsonaro com informações falsas sobre o tratamento influenciam no entendimento. “Como você espera que uma pessoa fragilizada, com medo, doente, ou familiares dessa pessoa que estão com medo vão tomar uma decisão racional e assinar um termo de consentimento no meio dessa polarização política? Qual estado emocional que permite que a pessoa faça isso de maneira tranquila?”, questionou Natália Pasternak, bióloga e fundadora do Instituto Questão de Ciência, em entrevista ao HuffPost Brasil.

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Já foram distribuídas 4,3 milhões de doses de cloroquina para pacientes de covid-19 no SUS, segundo o Ministério da Saúde.  

Não há evidência científica para uso da cloroquina

É consenso na comunidade científica que o uso da cloroquina para tratar covid-19 não é seguro e eficaz. Estudo publicado em 11 maio no Journal of the American Medical Association (JAMA), com dados de 1.438 pacientes infectados com o novo coronavírus internados entre 15 de março e 24 de abril em hospitais da região metropolitana de Nova York (EUA), revelou que não houve diferença significativa entre a taxa de letalidade dos que usaram hidroxicloroquina.

Uma outra pesquisa, publicada no New England Journal of Medicine (NEJM), em 7 de maio, com 1.376 pacientes americanos de covid-19, mostrou que pacientes com e sem o tratamento com hidroxicloroquina apresentavam o mesmo risco de uma piora do quadro e de morte. 

As “Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da COVID-19”, um consenso da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), também não recomenda o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em casos leves porque “até o momento, os estudos comparados existentes avaliaram pacientes hospitalizados somente, não havendo base para seu uso ou não em pacientes ambulatoriais”.

As associações médicas ressaltam que “as evidências disponíveis não sugerem benefício clinicamente significativo do tratamento” das duas drogas. “O uso pode ser considerado mediante decisão compartilhada entre médico e paciente, somente em pacientes graves ou críticos, hospitalizados, com monitorização frequente de intervalo QTc e evitando medicamentos concomitantes que também prolonguem o QTc. Seu uso preferencial deve ser realizado mediante protocolos de pesquisa clínica”, diz o documento.

Já foram distribuídas 4,3 milhões de doses do remédio para pacientes de covid-19 no SUS, segundo o Ministério da Saúde.

Distribuição de recursos e medicamentos

Nesta quinta, o Ministério da Saúde divulgou que até o momento foram entregues 6.549 ventiladores pulmonares, 163,3 milhões Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e habilitados 9.201 leitos de UTI exclusivos para pacientes de covid-19. 

Segundo a pasta, 806 mil unidades de medicamentos para intubação foram distribuídos aos estados. Nas últimas semanas, profissionais de saúde relatam a falta desse tipo de medicação.

Em coletiva de imprensa, o secretário-executivo da pasta, Elcio Franco, afirmou que houve um desabastecimento no mercado internacional. Estados e capitais podem aderir a um pregão para a compra de mais medicamentos desse tipo até o dia 13 de julho.

De acordo com o balanço, o ministério descentralizou R$ 54,7 bilhões em recursos para os estados e municípios. O valor inclui orçamento previsto anteriormente e adicional para combate à pandemia.

Nesta quinta, Franco citou levantamento da Confederação das Santas Casas e dos Hospitais Filantrópicos que mostra que apenas 39 das 361 instituições do tipo receberam recursos. Segundo o ministério, R$ 2 bilhões foram pagos para o setor filantrópico.