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31/03/2020 14:47 -03

Não há possibilidade de 'supernotificação' de morte por covid-19, garantem médicos

Apesar de Bolsonaro questionar números e apoiadores disseminarem fake news, médicos lembram que casos só são incluídos na contagem após exame de laboratório.

Na contramão de fake news disseminadas por apoiadores do presidente e pelo próprio clã Bolsonaro, médicos garantem que não há, no Brasil, um hiperdimensionamento de mortes causadas pelo novo coronavírus. O número de óbitos provocados pela covid-19 chegou a 159 na segunda-feira (30), de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde com base em informações dos estados e municípios.

O fato de todas as mortes confirmadas dependerem de resultados de exames laboratoriais, e não clínicos, é um fator crucial de confiabilidade. ”Não tem como uma pessoa que não teve coronavírus estar sendo computada por isso. Não tem como o profissional de saúde mudar o diagnóstico. Isso não existe. É antiético”, afirma Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do serviço de epidemiologia do Instituto Emílio Ribas. 

Sem apresentar provas, o presidente Jair Bolsonaro tem questionado a veracidade dos números divulgados por órgãos oficiais. “O que estou vendo também, em alguns estados do Brasil, se eu não estou politizando, se eu for ver, ninguém mais, quase ninguém mais está morrendo de H1N1. Todo mundo é covid-19. Parece que a intenção é de potencializar isso para falar: ‘Tá vendo, o que eu fiz justificou, morreram tantas pessoas. Se eu não tivesse feito, teriam morrido cinco, 10 ou 20 vezes mais’”, disse o presidente em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, do Brasil Urgente, da Band, na última sexta-feira (27).

Em meio a uma disputa política com governadores que têm adotado medidas restritivas de circulação de pessoas, Bolsonaro enviou a aliados, por WhatsApp, um vídeo com questionamentos similares.

Na briga de poder, um dos alvos foi o decreto publicado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em 20 de março. O texto determina que o Serviço de Verificação de Óbitos da cidade de São Paulo (SVOC) pode realizar necrópsias indiretas (sem abrir o corpo, por meio de exames externos, como radiografia, ou tomografia computadorizada), a fim de evitar eventual contaminação pelo novo coronavírus.

Desde 25 de março, o procedimento tem abrangência nacional, uma vez que está previsto em documento do Ministério da Saúde. “As autópsias em cadáveres de pessoas que morrem com doenças causadas por patógenos das categorias de risco biológicos 2 ou 3 expõem a equipe a riscos adicionais. Por isso, devem ser evitadas”, diz a publicação “Manejo de corpos no contexto do novo coronavírus COVID-19″.

A norma é adotada em outros países, como China, Itália e Espanha, devido à pandemia, e segue recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde). O objetivo do decreto, elaborado pela Secretaria de Saúde, com apoio do Conselho Regional de Medicina, foi dar segurança legal aos médicos.

CARL DE SOUZA via Getty Images
"Não tem como uma pessoa que não teve coronavírus estar sendo computada por isso. Não tem como o profissional de saúde mudar o diagnóstico", afirma Ana Freitas Ribeiro, médica sanitarista do Instituto Emílio Ribas.

Como se sabe que a causa da morte foi covid-19?

Quando o paciente é internado em hospital público ou privado com suspeita da doença, é colhida uma amostra de secreção da garganta ou do nariz, que vai para o laboratório estadual. No caso de São Paulo, o material é analisado pelo Laboratório Adolfo Lutz. A orientação do Ministério da Saúde é de que todos os casos graves sejam notificados. 

Ainda que a resposta demore, autoridades sanitárias garantem a confiabilidade do resultado laboratorial. ”Não pode encerrar o caso sem exame”, afirma Ana Freitas Ribeiro. “Os hospitais têm obrigação de fazer a notificação compulsória. A conclusão está atrasada por causa do laboratório.

São considerados suspeitos de covid-19 pacientes com o quadro de sintomas chamado SRAG (síndrome respiratória aguda grave). Desde o início da pandemia, foram registradas 16.879 hospitalizações por SRAG no Brasil. Desse total, 757 caos (4,5%) foram confirmados para covid-19. O restante são infecções causadas por outros vírus, como influenza.

De acordo com a especialista do Instituto Emílio Ribas, não há risco da chamada ”supernotificação” e sim de subnotificação entre pacientes internados, ainda que pequeno. ”A maioria dos hospitais têm grupos de vigilância. Os municípios trabalham em conjunto com os hospitais para que essa subnotificação seja mínima. O hospital pode não notificar um caso, mas, numa situação de pandemia, em que está todo mundo envolvido com isso, a subnotificação é reduzida”, afirma.

É esperado que o número de mortes causados pelo novo coronavírus aumente nos próximos dias devido ao ritmo de avanço da enfermidade.

“As internações [por covid-19] são demoradas, em todo o mundo. Em média, não é uma internação curta. A situação tende a se complicar depois de 7 dias de doença. Essa nossa curva está começando. A maioria dos casos notificados não têm ainda essa evolução [para mortes] porque não passou ainda o tempo”, disse.

O que acontece se a pessoa morre por covid-19 em casa

Se a pessoa morre por motivos naturais, mas sem que o hospital tenha determinado a causa da doença, ou se a pessoa morreu em casa, por exemplo, o caso vai para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO). Com a pandemia, a orientação é de que não seja feita a necropsia nessas situações.

De acordo com o diretor do SVO de São Paulo, o médico patologista Luiz Fernando Ferraz da Silva, nos casos suspeitos de morte por covid-19, o indicado é coletar amostra de secreção da garganta ou do nariz para ser encaminhado ao Laboratório Adolfo Lutz. “Como o diagnóstico da doença é laboratorial, mesmo que a gente fizesse a autópsia, ela só serviria para corroborar”, afirma. 

Se o resultado final é positivo, passa a constar como causa da morte no laudo a covid-19, e a Secretaria de Saúde é, então, notificada como um caso confirmado. É esse número que passa a ser incluído no balanço do Ministério da Saúde.

Com a pandemia, antes da resposta laboratorial, o SVO passou a emitir um atestado de óbito provisório em que consta “SRAG - aguarda exames laboratoriais” para casos suspeitos.

O objetivo é facilitar procedimentos burocráticos para liberação do corpo para o sepultamento. ”Como os laboratórios estão super cheios, esse resultado estava demorando até 48h. Demorava para liberar o corpo para família”, afirma o integrante da Sociedade Brasileira de Patologia e professor de Patologia da Faculdade de Medicina da USP. 

A limitação da necropsia tem como objetivo reduzir o contágio pelo novo coronavírus. “Se a gente for ver os dados, 79% dos pacientes com coronavírus são assintomáticos. Fazer autópsia de um desses pacientes, no momento atual da pandemia, pode ser que, mesmo que o indivíduo não tenha sintomas, ou seja, não morreu da doença, tenha capacidade de transmitir a doença”, explica Ferraz da Silva.

A autópsia está, atualmente, restrita ao IML (Instituto Médico Legal), que investiga mortes violentas. Se há resultado laboratorial positivo para coronavírus, os profissionais esperam 72h para realizar a autópsia, que é o tempo em que o vírus permanece em um organismo em condições viáveis.

No SVO, quando não há suspeita de covid-19, é feito um procedimento chamado “autópsia verbal”, que consiste em conversas com a família para obter o histórico médico da vítima e usado em locais onde não há serviço de óbitos.

É possível que essas ocorrências, ao final, sejam classificadas como “morte indeterminada”. “Ainda assim, esses casos não entram na contagem do covid-19. O que estamos computando como morte por covid são aquelas que têm quadro clínico e diagnóstico laboratorial positivo”, esclarece o patologista.

Luiz Fernando Ferraz da Silva também ressalta que há um atraso no registro do número real de mortes causadas pela pandemia devido à logística dos testes. “A gente tem até um pouco de subnotificação. Nosso dados estão atrasados em relação ao número real porque a gente tem um gargalo no número de exames. A gente não está conseguindo fazer testes de todo mundo [vivo]. No caso dos óbitos suspeitos, a gente faz, mas os testes demoram”, afirma.

Infarto ou coronavírus?

Entre os casos apontados, sem provas, por bolsonaristas, como falsas mortes pela covid-19, estaria o de uma mulher que afirma que a avó foi vítima de infarto. Um vídeo foi publicado nas redes sociais do filho do presidente, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). 

O conteúdo também foi compartilhado pelo deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP). De acordo com ele, o caso ocorreu em Guarulhos (SP), no Complexo Hospitalar Padre Bento. Nesta segunda-feira (30), o peselista afirmou que entraria em contato com a família da vítima e disse que apresentou um decreto legislativo na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) que susta a decisão do governador João Dória. O parlamentar não respondeu à tentativa de contato do HuffPost Brasil.

A sanitarista do Instituto Emílio Ribas lembra que comorbidades são fatores que aumentam a letalidade por covid-19. “Muitos pacientes que complicam [o quadro] na China ou em qualquer lugar são pessoas com doenças crônicas. Pode ser doença cardiovascular. Mas não vai ser computado como caso de coronavírus se não tiver o exame [laboratorial]”, explica.

“A pessoa pode ter uma dor relacionada a pneumonia e inicialmente parecer infarto. Qual é o diagnóstico? Faz uma tomografia, encontra o achado, que chama ‘opacidade em vidro fosco’. É uma alteração sugestiva [de infecção]. Mas a gente não encerra e diz que foi ‘corona’ só por essa imagem”, completa Ana Freitas.

Segundo dados do Ministério da Saúde, do total de mortos causados pela pandemia, 85% apresentavam pelo menos um fator de risco, como diabetes ou pneumonia. Entre esses fatores de comorbidades, a cardiopatia é o mais frequente, representando 81% do total de vítimas.

Fora do Brasil, há relatos de pacientes infectados com o novo coronavírus com graves sintomas cardíacos. Segundo reportagem do jornal The New York Times, um relatório sobre o tema envolvendo casos em Wuhan, China, foi publicado na revista científica JAMA Cardiology na sexta-feira (27). O estudo concluiu que 20% dos pacientes hospitalizados com covid-19 apresentaram alguma evidência de dano cardíaco.

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