27/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 27/01/2019 00:00 -02

Suhellen Alves, a faxineira que tornou seu diário público e virou 'digital influencer'

Ela decidiu fazer da limpeza e organização de casas o seu ganha pão. Hoje, é uma “digital influencer” da faxina e divide experiências na internet.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Suhellen Alves é a 326ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Suhellen Alves, de 32 anos, sempre gostou de organizar a casa, mantê-la limpa e agradável. Por isso, depois de passar por um divórcio conturbado, um período depressivo e ficar sem perspectivas profissionais, ela decidiu transformar o gosto restrito ao seu próprio lar em trabalho: hoje é diarista. Para divulgar suas histórias, estar em contato com suas patroas e dividir algumas agruras com outras colegas, ela criou o perfil Diário da Diarista no Instagram, que já acumula seguidores famosos, como a chef de cozinha Paola Carosella. O que começou como uma válvula de escape financeiro e emocional, hoje é o que dá sentido à vida de Suhellen.

Suhellen é carioca, passou boa parte da adolescência em Minas Gerais e aportou no Rio de Janeiro aos 15 anos, quando conheceu o pai da sua primeira filha. Mãe aos 16, teve de lidar com os preconceitos e julgamentos que a sociedade impõe a quem passa pela maternidade antes da vida adulta. Com a primeira filha no braços, decidiu ficar de vez e tocou a vida. Teve mais dois filhos, e quando o caçula ainda era um bebê, foi aprovada em um concurso municipal no interior de Minas Gerais e ela foi. O pai da criança ficou. A dificuldade da distância fez com que Suhellen abandonasse sua carreira e voltasse ao Rio, mas pouco depois o casamento terminou de vez.

Com as faxinas eu aprendi algo que levo para vida: não dá para julgar as pessoas.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela criou o perfil Diário da Diarista no Instagram, que já acumula seguidores famosos, como a chef de cozinha Paola Carosella

Sempre com o apoio da tia, que a criou como filha, Suhellen revela que fez “muitas besteiras” na vida, e até se dedicar à vida de diarista sentia-se um pouco sem rumo. Ela credita o cenário em que estava inserida a uma necessidade de sempre apoiar-se em relacionamentos afetivos que não eram plenos: “Por quase 32 anos, eu não vivi em paz. Em Minas [Gerais], eu tive um período de ilusão, achava que tinha paz mas não era 100%. Hoje eu me sinto plena, sou meu porto seguro, não preciso depender de ninguém”, afirma.

Tomar a própria vida pelas mãos e dar um novo sentido a ela só foi possível, também, graças ao seu atual companheiro. Um parceiro que impulsiona Suhellen em direção aos seus sonhos, e não tem medo deles, era importante no momento em que ela decidiu mudar os rumos da sua vida profissional: “Antes, era cômodo para os meus antigos relacionamentos eu não ter ambição, só trabalhar para pagar as contas”, analisa.

Hoje o trabalho de Suhellen proporciona muito além disso. No seu perfil de Instagram, a diarista capta clientes, mantém engajamento, conhece potenciais patroas e conhece a realidade de outras profissionais pelo Brasil. Entre as histórias que recebe, algumas chocantes, como uma patroa que sequer servia água durante as oito horas de trabalho da diarista. Mas Suhellen logo se adianta em dizer que com ela esse tipo de coisa não tem vez.

Hoje eu me sinto plena, sou meu porto seguro, não preciso depender de ninguém.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Pelas redes sociais, ela capta clientes e conhece a realidade de outras profissionais pelo Brasil.

“Aconteceu somente uma vez: uma mulher me tratou como se eu fosse uma criada, pensou que era superior a mim porque eu limpava, e queria que eu pegasse até um copo de água enquanto ela lia um livro no quarto. Mas eu me impus, e quando eu me imponho, elas percebem que não podem falar como se eu não merecesse respeito”, relembra.

Respeito, aliás, é a palavra de ordem para o trabalho de diarista. Suhellen relembra que por muito tempo a profissão foi vista como algo inferior, mas ela conta que hoje em dia tem ganhos similares ao do seu marido, trabalhando quatro dias na semana e fazendo sua própria agenda. No perfil do Instagram, ela deixa disponíveis as datas que restam vagas, explica que recebe pagamento via transferência bancária e até recebe em banco digital. Cartões? Também são bem-vindos. O que vale é não perder uma boa patroa.

A faxina me deu autoconhecimento.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Aconteceu somente uma vez: uma mulher me tratou como se eu fosse uma criada, pensou que era superior a mim porque eu limpava."

O termo, aliás, pode ser visto com receio por muitas pessoas, mas Suhellen não vê da mesma forma. Ela gosta de chamá-las assim, e exceto aquela que a tratou com desprezo, consegue manter uma convivência saudável com todas as patroas que acumulou na sua experiência, da zona sul à Baixada Fluminense. Essa pluralidade de perfis foi a nascente do principal ensinamento de Suhellen.

“Com as faxinas eu aprendi algo que levo para vida: não dá para julgar as pessoas. E eu aprendi isso vendo a casa das pessoas mesmo. Não dá para julgar se a pessoa é legal ou não pelo lugar que mora, pelo estado da casa”, afirma, com seriedade de quem já viu “de tudo”.

O trabalho de Suhellen está restrito ao Rio de Janeiro, e não tem tempo ruim: ela vai para qualquer canto da cidade ou Região Metropolitana. Mas o sucesso das suas dicas, e os bastidores do seu trabalho faz internautas de todas as regiões do Brasil torcerem para uma viagem dela para cidades como Fortaleza, Natal e até a vizinha São Paulo. O apelo às vezes vem de forma mais elaborada: Suhellen já recebeu sugestões de montar uma rede de diaristas, com seus princípios, pelo Brasil, mas ela rechaça a ideia. “Se a pessoa errar, será a minha cara ali. E montar equipes é difícil porque o ser humano é muito complicado. Eu aprendi a gostar de trabalhar sozinha”, define.

As pessoas me olham com cara torta, mas eu ganho mais que muitas profissões por aí.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Nesse exército de uma mulher só, Suhellen hoje consegue pagar as suas contas, as dos seus filhos e proporcionar até uma ajuda financeira para sua tia.

Nesse exército de uma mulher só, Suhellen hoje consegue pagar as suas contas, as dos seus filhos e proporcionar até uma ajuda financeira para sua tia, a quem deve toda a sua educação. A diarista explica o segredo da estabilidade: “As pessoas me olham com cara torta, mas eu ganho mais que muitas profissões por aí. É um trabalho que quando você encontra as pessoas certas, está feito. É só fazer bem, como se fosse a primeira vez, cada faxina que é possível encontrar a estabilidade. Não tem motivo nenhum para vergonha.”

Apesar de adorar sua profissão, Suhellen reconhece que não dá para viver dando faxina por muito tempo, e o motivo é estritamente de saúde: o sobe-e-desce e levanta-e-abaixa que o ofício impõe já causam muitas dores na diarista, que às vezes fica impossibilitada de trabalhar por dias para deixar os músculos no lugar. Por isso, no futuro ela quer terminar os estudos, se dedicar a uma área similar a marketing, já que descobriu ser boa na “lábia” por meio do Instagram, e garantir sua estabilidade financeira por mais tempo.

Por enquanto, Suhellen vai colhendo os frutos da arriscada, porém proveitosa, escolha profissional que vez, de transformar o gosto pessoal em dinheiro, ainda que sob alguns olhares tortos: “Eu não almejava isso, mas agora que eu encontrei a paz, estou muito feliz comigo. A faxina me deu autoconhecimento, e eu posso dizer que depois de 32 anos me encontrei”, finaliza, com um sorriso leve.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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