ENTRETENIMENTO
01/11/2019 16:59 -03

Em 'Succession', as mulheres não tiram a roupa, elas conquistam o poder

Uma série que poderia ter sido um drama convencional sobre um patriarca vingativo está mostrando ser muito mais que isso.

Graeme Hunter/HBO
Sarah Snook no papel de Shiv Roy em "Succession".

Succession, série da HBO sobre o patriarca bilionário Logan Roy (Brian Cox), poderia ter sido apenas mais um drama de prestígio sobre um anti-herói homem. Um velho riquíssimo e crápula, corolário corporativo de Tony Soprano, enfrenta a inevitabilidade de sua própria decadência e morte e reluta em ceder seu lugar no palco.

Mas a segunda temporada está mostrando ser, na realidade, uma visão complexa do poder feminino em um mundo corporativo regido quase inteiramente por homens.

No episódio Argestes, a série foi ainda mais longe, proporcionando ao espectador um vislumbre de como a era do Me Too está levando a terra a tremer sob os pés da velha guarda masculina, acomodada em sua posição.

Logan agora está tendo que encarar um mundo em que as mulheres estão em ascensão, ou, no mínimo, as mulheres têm importância.  

Escrito por Susan Soon He Stanton, o episódio mostrou como este momento, quando as vozes das mulheres e as histórias sobre assédio sexual finalmente começam a ser levadas a sério, está mudando as regras do jogo para as mulheres da elite, que há muito tempo giram em torno do centro do poder sem conseguir ser plenamente incluídas nele. Algumas delas estão finalmente conseguindo aproveitar algumas brechas que vêm sendo abertas ocasionalmente pelo momento atual.

Não estamos falando de qualquer mulher, é claro, mas da única filha de Logan,  Siobhan, ou Shiv “Fucking” Roy (como ela própria se apelida orgulhosamente na primeira temporada).

No primeiro episódio da segunda temporada, Logan promete a Shiv – falando com ela a sós – que ela será sua escolhida. Ele a indicará para sucedê-lo (a disputa por sua sucessão é a razão de ser da série inteira).

Shiv (Sarah Snook) nunca havia sonhado que isso fosse possível. Ela sabe que dará conta do recado, mas é inteligente o suficiente para compreender que suas possibilidades são limitadas por seu gênero.

No segundo episódio da temporada 2, Logan lhe diz que ela vai precisar de anos de preparo e treinamento antes de ficar pronta para assumir o lugar dele.

Shiv respondeu que seu irmão menor, Roman – que até hoje não demonstrou o menor tino para os negócios e não passou por nenhum treinamento – é um executivo de alto nível na empresa de Logan, a Waystar Roco: “Você colocou um moleque de p... duro para ser o executivo operacional chefe.”

“Você é uma mulher jovem sem experiência nenhuma”, Logan fala.

“Uma mulher”, diz Shiv. “Isso é um ponto negativo?”

“É claro que é um ponto negativo”, ele responde. “Não fui eu quem criou o mundo.”

“Você criou uma pequena parte dele”, ela retruca.

Os dois se equivocaram. No episódio ficou claro que o mundo que Logan criou está mudando em ritmo acelerado e que ser mulher acaba sendo um ponto positivo para sua firma.

A empresa de Logan enfrenta acusações altamente prejudiciais de assédio sexual e de permitir uma cultura tóxica. A advogada Geri, Rhea Jarrell (Holly Hunter) e o diretor de relações públicas de Logan concordam que, basicamente, a empresa precisa de uma mulher na direção para conseguir superar a crise de relações públicas.

“O rosto aceitável”, é como Shiv é descrita por Rhea. “A jovem Siobhan é o mais perto que vamos chegar de contar com títulos do Tesouro americano”, é como diz outro homem do círculo de Logan, dando a entender que Shiv pode ajudar a suavizar as coisas para a empresa na esteira do escândalo mais recente.

Portanto, parece que Shiv é a herdeira mais indicada sim, afinal. Ela se prontifica a tentar interromper o ciclo de danos e problemas.

As mulheres do ninho de serpentes

O que chama a atenção em Succession é que Shiv não se parece com o estereótipo de mulher que se equilibra no meio de um ninho de serpentes. Há muitas outras pessoas nesse ninho ao lado dela.

Um fato especialmente chocante: este é um drama transmitido pela HBO que não apenas passa facilmente no teste de Bechdel como praticamente não tem cenas de nudez ou sexo, embora não faltem cenas de masturbação.

“Não estamos interessadas em ver gente tirando a roupa, especialmente não mulheres”, disse Lucy Prebble, uma das roteiristas, a Katie Bakie do The Ringer (metade dos roteiristas de Succession é formada por mulheres). Segundo Baker, Prebble disse que a série tem “uma aversão institucional por ‘peitos e bundas’ [slogan inventado por críticos da HBO]”.

Em vez de mulheres peladas de 20 e poucos anos, a série nos apresenta um mosaico brilhante de personagens femininas, em sua maioria mais velhas (todas, infelizmente, brancas), percorrendo espaços corporativos em que nunca se imaginou que elas penetrassem.

Há o braço direito de Logan, a advogada Geri (J. Smith-Cameron), que parece possuir a capacidade bizarra de enxergar três passos à frente de qualquer outra pessoa e possui a agilidade conquistada por sobreviver anos trabalhando para um canalha sem dó nem piedade.

Os desafios que Geri encara são conhecidos por muitas mulheres que chegaram muito perto do topo da hierarquia de grandes empresas, mas enfrentam aquela situação de ambiguidade clássica de não ser autorizadas a mostrar-se realmente ambiciosas ou agressivas. O poder que ela exerce é do tipo mais suave, exercido nos bastidores, do tipo que mais tipicamente é permitido às mulheres.

A matriarca Nan Pierce (Cherry Jones), que comanda um império editorial, não apenas está em pé de igualdade com Logan como é a mulher que não se dobra diante das agressões dele.

No final do episódio, Nan deixa Logan em estado deplorável, batendo no vidro do carro dela, que acaba de rejeitar uma oferta que ele fez para comprar a empresa dela por US$ 25 bilhões. Diferentemente de quase todas as outras personagens, Nan possui o dinheiro necessário para rejeitar Logan, e possivelmente os princípios também.

Há uma personagem que lembra uma versão feminina de Roger Ailes [ex-CEO da Fox News acusado de assédio sexual], Cyd Peach (Jeannie Berlin), que trata com desprezo o convencido executivo Tom Wambsgans (Matthew MacFadyen) quando ele tenta implementar cortes de despesas na Redação dela.

Rhea Jarrell é uma CEO aparentemente astuta que joga dos dois lados do acordo de múltiplos bilhões de dólares. 

E essa é uma lista apenas parcial das mulheres.

Quando a oportunidade certa bate à porta

Com o acordo com Nan Pierce tendo ido por água abaixo, não está claro o que vai vir a seguir para Shiv. É possível que nem ela nem seu pai ou qualquer outro membro da família Roy acabe sendo a pessoa que comanda a empresa.

Um fato notável é que foi um escândalo do movimento Me Too que criou a abertura – abrindo um caminho.

Na vida real, as histórias ligadas ao Me Too raramente têm final feliz para as mulheres que põem a boca no trombone para denunciar os abusos sofridos. A era Me Too agora criou pouquíssimas Shivs, mulheres que ascenderam ao poder em virtude da pequena abertura proporcionada pelo escândalo.

Suzanne Scott tornou-se a primeira CEO mulher da Fox News, depois de a emissora arcar sob o peso das acusações feitas a Roger Ailes e outros. Susan Zirinsky virou a primeira presidente mulher da CBS News, na esteira de um escândalo de assédio sexual. Shari Redstone, filha do magnata da mídia Sumner Redstone e possivelmente a figura mais próxima a uma Shiv Roy real que é possível encontrar na América corporativa, aproveitou um escândalo de assédio sexual para finalmente conseguir o acordo que queria na Viacon. O lugar do âncora Matt Lauer no programa Today, da NBC, foi tomado por Hoda Kotb (mas lá vai uma notícia que não deve surpreender a ninguém: ela está recebendo menos que Lauer).

São desenvolvimentos clássicos do chamado “penhasco de vidro” (a situação de alto risco em que mulheres são colocadas quando finalmente se permite que galguem os altos escalões em empresas): na vida real, mulheres e pessoas de minorias étnicas ou outras frequentemente são projetadas para o poder quando a situação está tão complicada que nenhum dos homens brancos de costume se dispõe a aceitar a responsabilidade (pense em Barack Obama em 2008 ou Theresa May após o referendo que aprovou o brexit).

Essas são as vitórias menores, conquistadas pelas mulheres mais privilegiadas e pagas com a carreira e os traumas de tantas outras mulheres.

Como o universo de Succession, o mundo real lá fora ainda é liderado principalmente por homens.

Peter Kramer/HBO
Holly Hunter faz Rhea Jarrell, à esquerda, com Cherry Jones no papel de Nan Pierce.