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02/09/2020 07:47 -03 | Atualizado 02/09/2020 07:55 -03

Baixo registro de covid em mortes por síndrome respiratória sugere subnotificação em estados

Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm proporção abaixo da média nacional; Números podem estar maquiando cenário ainda muito grave da pandemia no País.

Os números oficiais de casos confirmados e de mortes por covid-19, elementos fundamentais na definição da reabertura total nos estados, podem estar maquiando um cenário ainda muito grave da pandemia do novo coronavírus  no Brasil.  

A suspeita é sobre estados que apresentam um percentual de óbitos identificados como covid-19 do total de vítimas de SRAG (síndrome respiratória aguda grave) muito inferior à média nacional, como Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Os quadros graves de covid, que levam à morte, causam a SRAG – por isso há indícios de subnotificação quando há uma taxa desproporcional de óbitos por SRAG não associados à covid.

São Paulo, Mato Grosso do Sul e Goiás também registram essa diferença, porém em menor proporção. 

Das 161.560 mortes por SRAG no Brasil até 22 de agosto, 111.258 foram identificadas como covid-19, o equivalente a 68,86%, de acordo com boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde. Outros 46.484 registros são pessoas em que o patógeno que causou a morte por SRAG não foi identificado (28,77%) e 2.889 eram mortes em investigação (1,78%). 

Os dois últimos grupos potencialmente poderiam ser vítimas da epidemia, já que não não há comprovação laboratorial do agente etiológico que causou a morte. As 3 categorias somam quase a totalidade desse tipo de óbito (99,41%).

Além do novo coronavírus, as mortes por SRAG podem ser causadas por influenza, outros vírus respiratórios ou por outros patógenos. A falta de informação em alguns dos registros já tem sido apontada por pesquisadores como um indicador de subnotificação da epidemia.

Ao analisar os dados regionais, essa tendência se mostra mais evidente em alguns estados. No Paraná, das 5.539 mortes por SRAG, apenas 2.776 (50,11%) foram registradas como covid. O total classificado como “não especificado” é de 2.665 (48,11%), também bem acima da média nacional.

Em Minas Gerais, foram 9.060 mortes por SRAG, sendo 4.919 por covid (54,29%) e 3.880 não especificadas (42,82%). No Rio Grande do Sul, há 5.648 registros de óbitos por SRAG, dos quais 3.106 por covid (54,99%) e 2.445 não especificados (43,29%). 

Outro estado que chama atenção é Mato Grosso do Sul, em que 751 (60,61%) das 1.239 mortes de SRAG foram identificadas como covid e outras 464 não foram especificadas (37,44%). Em seguida, São Paulo tem óbitos por SRAG 45.696 , sendo 28.808 (63,04%) covid e outros 15.771 não especificados (34,51%). 

Goiás, por sua vez, registra proporção um pouco inferior à média nacional. Do total de 4.126 mortes por SRAG, 2.796 foram identificadas como covid (67,76%). Já os óbitos não especificados somam 1.113 (26,97%), um pouco abaixo do padrão do Brasil.

A soma de SRAG nos 6 estados até 22 de agosto é de 71.308, o que representa 44% de todas as mortes de SRAG do Brasil.

“Esse é um cenário que está sendo confeccionado no Brasil em vários estados, que é um apagão nos dados que estão sendo mostrados, principalmente pelas secretarias estaduais de saúde. Estão praticando isso sistematicamente”, afirmou ao HuffPost Brasil o pesquisador Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo). 

O professor é parte do grupo Covid-19 Brasil, que reúne cientistas de universidades brasileiras e de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins (EUA).

Ao analisar os dados das secretaria de saúde estaduais de alguns desses estados, pode-se ter a impressão de uma melhora. Por exemplo, em São Paulo, foram 1.780 novos óbitos confirmados de covid-19 registrados na semana de 2 a 8 de agosto. O número caiu para 1.764 na semana de 9 a 15 de agosto e para 1.612 na seguinte. No Paraná, foram registradas 395 novas vítimas da epidemia entre 9 e 15 de agosto, número que caiu para 296 na semana seguinte.

No entendimento do professor da USP, há um esforço por parte do governo federal, junto com governadores e prefeitos, para minimizar a situação atual da pandemia. ”Esse cenário que está sendo construído de uma certa estabilidade, de que chegamos num platô, é propositado. É uma sistemática dentro de um apagão de informações generalizado e o pessoal está indo para a praia”, diz Alves.

A previsão do pesquisador é de que o País chegue a 200 mil óbitos no próximo mês. De acordo com ele, a tendência que tem sido observada em estados como Rio de Janeiro e Manaus, em que há crescimento dos indicadores epidemiológicos após certo recuo, deve se repetir em outras unidades da Federação.

“Como panorama geral, os casos e os óbitos no Brasil mostram que o vírus está circulando de maneira muito intensa. Em vários estados a intensidade continua sendo crescente de casos e de óbitos. A epidemia não sumiu”, afirma.

Como panorama geral, os casos e os óbitos no Brasil mostram que o vírus está circulando de maneira muito intensa. Em vários estados a intensidade continua sendo crescente de casos e de óbitos. A epidemia não sumiuDomingos Alves, especialista do Laboratório de Inteligência em Saúde da USP e membro do grupo Covid-19 Brasil

Além dos registros de SRAG, outro indicador de erro dos números oficiais da epidemia é o atraso no repasse de dados. Na última segunda-feira (30), o número de casos registrados nas últimas 24 horas foi de 45.961, número atípico para o fim de semana. Isso ocorreu porque Santa Catarina registrou 30.913 diagnósticos, um recorde muito acima da média. No mesmo dia, o estado com mais casos em 24 horas foi Goiás, com 2.819 registros.

Um episódio similar ocorreu em 29 de julho, quando o Brasil registrou o recorde de mortes notificadas de um dia para o outro: 1.595. Na época, o número foi resultado de um acúmulo de dados atrasados em São Paulo.  

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"Esse cenário que está sendo construído de uma certa estabilidade, de que chegamos num platô é propositado. É uma sistemática dentro de um apagão de informações generalizado e o pessoal está indo para a praia", afirma Domingos Alves, professor da USP.

Tanto a subnotificação quanto o atraso passam a impressão de que a crise sanitária está numa situação melhor do que a realidade, ainda que se use indicadores como médias móveis.

Ao olhar os dados oficiais nacionais das últimas 3 semanas, o total de novos casos passou de 304.535 na semana de 2 a 8 de agosto para 304.684 na seguinte e  265.266 na outra, de 16 a 22 de agosto. Já os óbitos novos eram 6.914 na primeira semana de agosto, caíram para 6.755 na semana de 6 a 15 de agosto e chegaram a 7.018 na semana seguinte.

Ao considerar a população de cada nação, o Brasil ocupa a 10ª posição no ranking de diagnósticos, com 18.170,5 por milhão de habitantes, de acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). O país também é o 10º na comparação em relação aos óbitos, com 568,44 por milhão de habitantes. 

Em números absolutos, o Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos e é o segundo país com mais mortes causadas pela covid-19, de acordo com o mapeamento do Centro de Recursos de Coronavírus da Universidade Johns Hopkins. 

Os dois países repetem as posições também em relação ao número de diagnósticos. No território norte-americano, foram registrados mais de 6 milhões de casos. A diferença entre as taxas de testagem entre os dois países é uma evidência da subnotificação da crise sanitária no cenário brasileiro. A média de testes diários é de 37 por 100 mil habitantes no Brasil e de 141 mil por 100 mil habitantes nos Estados Unidos.

De acordo com monitoramento da Universidade Johns Hopkins, o Brasil também é segundo colocado na taxa de positividade dos diagnósticos. A média é que 50,07% dos testes sejam positivos. Em primeiro lugar no indicador, está o Peru, com 52,16%. A taxa dos Estados Unidos é de 8,54%. O preconizado pela OMS para que considerar que a epidemia está controlada é de 5%.

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