COMPORTAMENTO
23/04/2019 08:50 -03

Por que decidi trabalhar como stripper apesar de ter me formado com louvor na universidade

Hoje passo meu tempo fazendo o que quiser, quando quiser, com quem quiser.

Kypros via Getty Images
Leia o relato sincero de uma stripper.

Alguns anos atrás, me formei com ótimas notas em uma universidade de prestígio, onde estudei com bolsa integral. E, há mais de 2 anos, trabalho como stripper.

Muitos diriam que não estou atingindo meu potencial. Que estou desperdiçando meu diploma. Que estou evitando a “vida real” e preciso arrumar um “emprego de verdade”. Que preciso crescer.

Me disseram que não sou “o tipo de garota” que as pessoas esperam encontrar num clube de strip. Também me criticam por trabalhar lá. Muitos clientes para quem contei que tenho formação universitária comentaram que eu “valho mais” que meu trabalho atual.

As pessoas não só desaprovam meu emprego; elas desaprovam que eu especificamente tenha esse emprego.

É verdade que meu diploma não é uma exigência para o trabalho. Ele simplesmente está lá, guardado no meu arsenal pessoal, esperando o dia de ser usado.

Eu tinha um emprego tradicional, trabalhando das 9h às 17h, com salário, plano de saúde e palavras de respeito para colocar no currículo. Na época, achei que estava fazendo exatamente o que deveria. O emprego atendia às expectativas que as pessoas tinham de mim. Mas por que eu era tão infeliz?

Comecei a trabalhar no clube de strip porque achei que seria uma experiência de vida divertida, única e que depois viraria uma ótima história. Não demorei para descobrir que o mundo do strip tinha muito mais a me oferecer.

Meu poder de escolha como stripper é completamente diferente do que eu tinha nos meu empregos anteriores.

Casas de strip às vezes são percebidas como lugares degradantes e sujos. Mas, ao contrário do que as pessoas podem pensar, estou 100% no controle durante o trabalho. Decido os clientes com quem quero conversar, para quem vou dançar, como vou dançar e quanto contato me deixa à vontade. Simplesmente não tenho de aturar gente grossa.

Esse poder de escolha é completamente diferente do que eu tinha nos meu empregos anteriores. Os clientes eram tão valiosos que até mesmo os mais mal-educados e condescendentes “mereciam” respeito e paciência, segundo meus chefes.

No clube, tenho plena autonomia. Decido como quero ser tratada para manter minha dignidade. Neste emprego, me sinto mais empoderada do que em empregos que tive em lojas, restaurantes ou num escritório, onde sempre me diziam o que eu tinha de fazer.

Durante quase um ano, mantive meu emprego anterior e ao mesmo tempo fazia strip. Passava o dia no mundo corporativo, sendo profissional, depois ia para o clube, onde dançava e flertava. Usava o cérebro durante o dia, e o corpo, à noite. Pareciam duas vidas diferentes. Manter essa vida dupla tomava quase todo meu tempo, mas sinceramente não era tão difícil assim.

No fim das contas, pedi demissão do emprego e decidi ser stripper full-time. Foi uma decisão espontânea, mas a satisfação e a felicidade que eu senti ao sair do escritório me deu a certeza de que tinha tomado a decisão certa. 

Por que fiz isso? Por que abri mão de um emprego estável para fazer um tipo de trabalho considerado por muita gente o último recurso para as mulheres?

Não foi por dinheiro. Trabalho numa cidade pequena, não em Las Vegas. Ganho mais ou menos o mesmo que no meu trabalho antigo, ou seja, quando pedi demissão minha renda caiu pela metade (por conta dos benefícios). Mas cresci numa família modesta, e isso me ensinou que dinheiro não é pré-requisito para a felicidade. 

Quero liberdade. Quero ter o tempo para fazer as coisas mais importantes para mim. Trabalhar 3 noites por semana me dá muito tempo livre.

Minha explicação é mais simples: quero liberdade. Quero ter o tempo para fazer as coisas mais importantes para mim. Trabalhar 3 noites por semana, em turnos de menos de sete horas cada um, me dá muito tempo livre.

Não só tenho mais tempo todos os dias como também posso escolher quando quero trabalhar. Defino minha agenda com uma semana de antecedência, então consigo acomodar planos futuros. Também posso decidir se quero trabalhar ou não. Quando monto minha agenda, posso simplesmente decidir ficar em casa. Que liberdade!

Então, numa semana normal, passo só 12% do meu tempo no trabalho. Antes, a proporção era de 23% a 29%. Caso matemática não seja seu forte, agora estou trabalhando metade do tempo, na média.

Com esse presente do tempo extra, comecei a investir em hobbies. Redescobri interesses antigos, aprendi a fazer coisas novas, comecei novos projetos e estou contribuindo com vários projetos de voluntariado.

Meu lado criativo também começou a florescer. Redescobri minha paixão por arte, fotografia e por escrever. Agora devoro livros como nunca e fico horas perdida na minha imaginação, passeando pelos corredores de ficção das livrarias. 

Com tempo de olhar os imóveis à venda e visitar os candidatos prediletos, finalmente consegui comprar uma casa. Estou batendo meus recordes de corrida e comecei a andar de skate. A vida voltou a ser divertida.

Antes, eu passava a maior parte do tempo enfurnada, executando tarefas que me tinham sido passadas por pessoas de quem eu não gostava. Agora passo meu tempo fazendo o que quiser, quando quiser, com quem quiser.

Todo esse tempo livre me trouxe oportunidades que eu não achei que teria quando tinha só duas semanas de férias por ano. Logo descobri que minha atividade favorita é viajar – especialmente para o exterior. Sempre fui fascinada por lugares distantes. Adoro aprender sobre novas culturas, conhecer gente diferente, ouvir histórias e explorar nosso lindo planeta.

Passei 3 anos e meio presa no meu emprego antigo. Nos 4 anteriores, eu tinha viajado para 10 países diferentes. Mas, nos 1.312 dias que passei naquele “emprego de verdade”, só fui a 2 lugares fora dos Estados Unidos, num total de 15 dias. Em comparação, nos 587 de trabalho exclusivamente como stripper, passei 224 dias viajando. Faz sentido agora?

Não estou dizendo que descobri o segredo da felicidade – mas descobri o segredo da minha felicidade.

No fundo, trata-se de decidir o que é importante na sua vida. Cada um tem suas prioridades. Esse meu esquema pode não ser ideal para a maioria das pessoas. Não importo em não me sentir plenamente “realizada” no meu emprego.

Não acho que tenho de passar o tempo de trabalho fazendo algo importante. A realização, para mim, está em fazer as coisas que amo no meu tempo livre. Mas essa é a minha preferência. Cada um na sua. 

Não estou dizendo que descobri o segredo da felicidade – mas descobri o segredo da minha felicidade.

Imagino que minhas prioridades vão mudar com o tempo. Sei que quero que esse trabalho seja apenas uma fase da minha vida, com começo e fim bastante claros. Estou confiante de que vou conseguir atingir esse objetivo. Mas, pelo menos no meu atual estilo de vida boêmio e livre, encontrei o nicho perfeito.

Quando decidir que estou pronta para uma carreira estável, jamais vou considerar um desperdício esses meus anos de “autônoma”, como diz meu currículo. Estou colecionando experiências de vida interessantes e me divirto demais com as atividades que tenho fora do trabalho.

Não estou incentivando ninguém a largar o emprego e virar stripper, mas talvez valha a pena pensar no que é mais importante na sua vida. Transforme isso numa prioridade. É aí que mora a felicidade. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.