ENTRETENIMENTO
24/06/2019 06:36 -03 | Atualizado 24/06/2019 09:57 -03

A homossexualidade oculta em 'Striking Vipers', episódio da série 'Black Mirror'

É significativo ver homens negros encarando sua própria identidade e sexualidade de uma maneira que poucos têm espaço para fazer no mundo “real”.

Netflix
Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II no episódio Striking Vipers.

ATENÇÃO: Se você ainda não viu o primeiro episódio da nova temporada de Black Mirror e não quer estragar nenhuma surpresa, não leia este texto agora. Volte apenas depois de assistir a Striking Vipers.

O trailer de Striking Vipers, um dos três episódios novos da série de antologia bizarra da Netflix Black Mirror, é vago na medida exata. Vemos um casal negro suburbano de classe média alta com um filho em cenas domésticas, mas há um ar subjacente de intranquilidade. Vemos o casal voltando para casa de carro em silêncio. A tensão entre os dois é palpável.

Vemos o marido, Danny (representado por Anthony Mackie), se recusar a fazer sexo com sua mulher, Theo (Nichole Beharie), dizendo que está “cansado”, mas está na cara que ele está mentindo. Vemos o amigo dele, Karl (Yahya Abdul-Mateen II), se gabando da garota sexy com quem está saindo, compartilhando fotos dela em seu celular, sob o olhar desejoso de Danny. Vemos Theo se olhando no espelho melancolicamente, avaliando cada aspecto de seu corpo que ela vê como uma falha. E, quando o trailer termina, já sabemos, como diz Theo, que “alguma coisa está acontecendo”.

Menina, você nem imagina.

A sugestão feita e a conclusão à qual chegamos ao final do trailer é que Danny está usando tecnologia de realidade virtual para escapar de sua vida conjugal desinteressante. A realidade do que está ocorrendo é muito mais complexa que isso. Isso porque, ao assistir ao episódio na íntegra (e por falar nisso, vêm spoilers pela frente!), ficamos sabendo que Danny está tendo um caso, sim – com Karl, seu melhor amigo.

Eles, que se conhecem há dez anos, mas quando a história começa tinham se distanciado um pouco, começam a jogar um game de realidade virtual chamado Striking Vipers que é tão imersivo que eles realmente se tornam seus personagens, sentindo visceralmente tudo o que seus avatares sentem.

Mas, em vez de lutar no game ao estilo de Mortal Kombat, os dois acabam tendo um relacionamento sexual virtual. Danny é um lutador asiático chamado Lance (Ludi Lin) e Karl é uma lutadora sexy, Roxette (Pom Klementieff). Como diz Karl, entusiasmado, é “o melhor sexo de nossas vidas”, mas ao longo do caso Danny tem dificuldade em aceitar a ideia de que, essencialmente, está tendo um caso com seu melhor amigo, e mais ainda com a ideia de que seu amigo, apesar de ser mulher no game, é homem.

Há ecos de um episódio clássico de Black Mirror, The Entire History of You. Como naquele episódio, também escrito por Charlie Brooker, a tecnologia ajuda a aprofundar a tensão e os ciúmes em um relacionamento que já está desmoronando. Há também ecos de San Junipero, que contou a história de um casal de lésbicas que se apaixonam em um mundo virtual. Diferentemente desses episódios, no caso de Striking Vipers existem várias camadas de sutileza.

O episódio trata de muitas coisas, incluindo o papel que a tecnologia exerce em nossas vidas como uma forma de fuga da realidade e como essa fuga pode sem querer virar nossa própria vida do avesso, se não tomarmos cuidado. Ele trata dos relacionamentos, das distinções entre amor e compromisso. Mas o tema e fio condutor mais importante aqui é a fluidez inerente à sexualidade e autodestruição da negação, narrada aqui por meio da história de dois homens negros.

É significativo o fato de o elenco principal de Striking Vipers ser quase inteiramente negro. E é significativo assistir a dois homens negros, especificamente, encarar sua própria sexualidade e identidade e encenar suas fantasias sexuais de uma maneira que poucos têm a oportunidade de fazer no mundo “real”.

Existem algumas poucas histórias queer sobre homens negros na cultura pop. Uma que ouvimos frequentemente é aquela sobre o negro que esconde sua homossexualidade, se casa com uma mulher negra, mas continua a procurar relacionamentos sexuais gays extraconjugais.

Essa imagem não deixa muito espaço para compaixão ou nuances, aviltando esses homens em lugar de analisar os fatores reais que os forçam a continuar no armário ou de questionar sua identidade sexual em silêncio doloroso. 

Netflix
Os alter-egos virtuais de Danny e Karl em Striking Vipers.

Striking Vipers joga com essas figuras de maneiras novas e interessantes. Estritamente falando, não é uma história sobre gays – é uma história que questiona os limites da identidade sexual e imagina um mundo em que homens negros (na realidade, todos os homens) não sejam inibidos ou limitados pelo gênero.

Ao longo do episódio, Karl insiste que os encontros virtuais noturnos dele e Danny não significam que eles sejam gays, que o que eles estão fazendo é simplesmente como pornografia. Nisso, porém, ele deixa escapar o xis da questão: que a história não diz respeito realmente a ideias rígidas sobre gays versus héteros, mas a uma abordagem mais fluida ao sexo e à própria masculinidade dos personagens.

Depois de tentar terminar o relacionamento virtual muitas vezes, Danny sugere que ele e Karl se encontrem na vida real e se beijem de verdade, para determinar se são gays na vida real e se estão apaixonados de fato. Nenhum dos dois “sente” qualquer coisa, e essa compreensão parece quase agravar as coisas: os dois acabam brigando para valer, na vida real. A briga é emblemática de seus próprios conflitos interiores: se eles não são gays, então o que são?

Há uma cena anterior na metade do episódio em que Nicole Beharie, como Theo, faz um monólogo surpreendente sobre a natureza do compromisso em um relacionamento e os sacrifícios que é preciso fazer para que o relacionamento funcione. Ela confere dimensão adicional ao episódio, falando do sofrimento emocional que lhe provocou a traição e a negação de Danny.

“Só quero saber. Vou lidar com a verdade do jeito que eu lidar. Mas preciso saber”, ela fala.

Danny estende a mão a ela sobre a mesa, segura a mão dela e fala, mentindo a ela e a si mesmo: “Não está acontecendo nada”.

Striking Vipers acaba com um meio-termo. Danny e Theo adotam um relacionamento aberto – todos os meses Theo tira a aliança e sai para a balada, enquanto Danny fica em casa e, no papel de Roxette, curte seu encontro noturno com Karl. Não está claro se esse acordo vai durar, se vai funcionar, mas isso não vem ao caso. A vitória aqui, se é que há uma vitória, é que Danny, Theo e Karl finalmente estão sendo honestos com eles próprios.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.