LGBT
29/06/2020 16:52 -03 | Atualizado 29/06/2020 18:09 -03

Entidade doa US$ 250 mil e evita fechamento do Stonewall Inn em NY

Bar frequentado pela população LGBT foi invadido por policiais em 28 de junho de 1969 e se tornou símbolo de luta por direitos.

Doação de cerca de US$ 250.000 (o equivalente ao valor de R$ 1.357.850,00) de uma fundação de caridade pode evitar o fechamendo do Stonewall Inn, bar localizado em Manhattan, em Nova York, que é considerado o berço do movimento de luta pelos direitos LGBT. Devido ao impacto econômico da pandemia do novo coronavírus, o bar anunciou que encerraria atividades.

A Gill Foundation, que apoia esforços para garantir a igualdade de pessoas LGBT nos Estados Unidos, anunciou a doação no domingo (28), data e que é comemorado o aniversário dos protestos da comunidade realizados 1969, desencadeados por uma batida policial no famoso bar e marca o Dia Internacional do Orgulho LGBT.

Veja página especial do HuffPost Brasil: ‘Orgulho Reinventado’

“O Stonewall é uma pedra angular da história LGBTQ e deve ser protegido. A história LGBTQ é a história americana”, diz comunicado da organização.

Stacy Lentz e Kurt Kelly, co-proprietários de Stonewall, que é localizado no bairro de Greenwich Village, já haviam levantado cerca de US $ 30.000 (o equivalente a R$ 162,834.00) após o lançamento de um financiamento coletivo na internet no último dia 13.

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Os manifestantes se reúnem em frente ao Stonewall Inn durante a Marcha de Liberação Queer para Vidas Negras e Contra a Brutalidade Policial em 28 de junho de 2020.

“Como o primeiro e único monumento nacional LGBTQ, Stonewall abriga não apenas a história de nossa comunidade, mas também a história de nossa cidade e país”, dizem em texto de apresentação na “vaquinha virtual”. “O caminho para a recuperação da pandemia de covid-19 será longo e precisamos continuar a salvaguardar essa parte vital da história viva da comunidade.”

Após a doação, o bar poderá reabrir em 6 de julho, mas apenas com 50% de ocupação e seguindo os protocolos da OMS (Organização Mundial da Saúde).  

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Manifestantes se reúnem durante a Marcha de Liberação Queer para Vidas Negras e Contra a Brutalidade Policial em 28 de junho de 2020.

A pandemia do novo coronavírus forçou o cancelamento da maioria dos eventos presenciais do mês do orgulho neste ano, mas uma marcha em Manhattan neste domingo (28) atraiu milhares às ruas de Nova York em solidariedade aos manifestantes que pediam o fim da injustiça racial e da brutalidade policial, desencadeadas pelo assassinato de George Floyd.

As pessoas gritavam “não há justiça, não há paz” enquanto outros  manifestantes afirmavam, em coro, que “vidas negras importam”. O número de mortes causadas pela covid-19 já passou de 120 mil nos Estados Unidos.

A Reclaim Pride Coalition, grupo que organizou a marcha, encenou seu primeiro protesto no ano passado, caminhando na direção oposta à marquise do New York City, a Parada do Orgulho, rejeitando a grande presença policial uniformizada do evento e os trios elétricos patrocinados por empresas.

Qual o significado de Stonewall e do mês do orgulho?

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A Marsha P. Johnson estampa bottom em camiseta durante evento de celebração do movimento LGBT.

Em 28 de junho de 1969, a polícia de Nova York invadiu o bar Stonewall Inn, localizado em Manhattan, conhecido por ser um dos poucos locais da época que aceitavam a presença de gays, lésbicas, trans e drag queens ― que desencadeou uma onda de protestos na luta pelos direitos LGBT.

É por causa desta revolta que o mês LGBT é comemorado em junho e que o “Dia do Orgulho” é celebrado em junho. Na época, ter “orgulho” de ser LGBT era um crime. E ficar “dentro do armário” era a lei. Até 1969, era proibido manter relações com pessoas do mesmo sexo em todos os Estados norte-americanos, exceto Illinois.

“Foi mais uma reação geral da juventude gay, lésbica e trans da cidade. Não se confiava na polícia; ela era o inimigo, e a reação se deu contra a violência policial”, afirma James Green, que viu o movimento nascer nos EUA e no Brasil e hoje é professor da Brown University, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Cinquenta anos depois, Stonewall é mais do que um local físico. É o símbolo de um movimento que ganhou visibilidade mundial. Mas ainda existem mitos sobre o que aconteceu naquela noite de 1969. E há também muito para ser conquistado ― cerca de 70 países ainda consideram a homossexualidade um crime. 

Ellen BroidyMark SegalMarsha P. Johnson e Sylvia Rivera são alguns dos nomes mais conhecidos que participaram dos protestos na época. Mas a pergunta “quem jogou o primeiro tijolo em Stonewall?” reverbera até hoje.

Em 2019, a polícia de Nova York pediu desculpas pelo episódio. O comissário James P. O’Neil disse, em evento público, que lamenta o ataque dos policiais contra frequentadores do bar. Segundo ele, a ação da polícia foi “errada”. 

“As atitudes e as leis [da época] eram discriminatórias e opressivas e, por isto, eu peço desculpas”, disse o oficial, que foi aplaudido pelo público em seguida. O’Neil afirmou também que esse tipo de ação jamais aconteceria em 2019, alegando que a polícia novaiorquina “aceita todos os públicos”.