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29/04/2020 11:34 -03 | Atualizado 29/04/2020 11:45 -03

STF autoriza abertura de inquérito contra ministro da Educação por suspeita de racismo

Abraham Weintraub publicou no início de abril um post em que sugeria que os chineses poderiam sair fortalecidos da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na noite de terça-feira (28) a abertura de um inquérito contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub, para apurar se houve crime de racismo em relação aos chineses em uma postagem feita pelo ministro no Twitter no início do mês.

A abertura do inquérito havia sido pedida pelo vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques. A Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou a suposta violação do artigo 20 da lei que define os crimes por discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. A pena prevista é de um a três anos de prisão.

EVARISTO SA via Getty Images
Ministro da Educação deve ser ouvido pela PGR após abertura de investigação contra ele por suposto crime de racismo.

O ministro da Educação deve agora ser ouvido pela PGR. Celso de Mello retirou o sigilo do caso e deu prazo de 90 dias para a conclusão da investigação. 

No último dia 4, Weintraub, que constantemente usa seu perfil no Twitter para postagens polêmicas, questionou quem poderia sair fortalecido geopoliticamente da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

No texto, o ministro trocou o “R” pelo “L”, numa referência ao personagem Cebolinha, da Turma da Mônica, e ao erro comum dos chineses ao falarem o português. Uma imagem com a bandeira da China ilustrava a publicação. O post foi depois apagado.

Reprodução/Twitter
No tuíte que foi apagado, ministro da Educação troca "r" por "l" e sugere que chineses sairão beneficiados da pandemia de coronavírus.

Também no Twitter, o embaixador da China no Brasil, Wanming Yang, divulgou uma nota oficial de repúdio ao ato, que classificou de racismo contra os chineses. “Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil”, diz o texto.

Dois dias depois da publicação de seu post, em entrevista ao jornalista Luiz Roberto Datena, na Rádio Bandeirantes, Weintraub condicionou seu pedido de desculpas à venda, pelos chineses, de mil respiradores ao Brasil.  

“Dado que a Embaixada chinesa ficou tão ofendida… Eu sei como é a negociação dos chineses, esse processo cultural… Eu vou fazer o seguinte, meu acordo: Eu vou lá, eu peço desculpas, peço ‘por favor, me perdoem pela minha imbecilidade’. A única coisa que eu peço é que, dos 60 mil respiradores que estão disponíveis, eles vendam mil para o MEC para salvar vida de brasileiros pelo preço de custo. Manda a Embaixada colocar aqui nos meus hospitais [universitários], e eu vou lá na embaixada e falo ‘eu sou um idiota, me desculpem’.”

Negando ter cometido racismo contra os chineses ou sido preconceituoso de qualquer maneira, o ministro voltou a atacar o governo da China. Disse que eles não divulgaram informações sobre a pandemia para poderem, agora que a covid-19 se espalhou por todo o mundo, lucrarem com a venda de respiradores e EPIs.

Até a publicação desta nota, Weintraub não havia se pronunciado sobre a decisão do ministro do STF. À Agência Brasil, o Ministério da Educação disse que não se pronunciaria.

Crises diplomáticas com a China

Este não foi o primeiro embate diplomático criado com a China em meio à crise do coronavírus. Três semanas antes do tuíte de Weintraub, uma postagem do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) colocava o país asiático como culpado pela pandemia de coronavírus. Também naquela ocasião o perfil da Embaixada da China no Brasil foi rápido na resposta e disse que Eduardo, “ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”.

A mensagem do filho 03 de Jair Bolsonaro acabou virando uma crise de proporção tamanha que o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi acionado para apagar as chamas. Mas acabou por piorar a situação ao divulgar uma nota em que exigia da China desculpas ao presidente. “Temos expectativa de uma retratação por sua repostagem ofensiva ao Chefe de Estado”, disse o chanceler. “Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele [Eduardo] ofendeu o Chefe de Estado chinês”, escreveu Araújo. “A reação do embaixador foi, assim, desproporcional e feriu a boa prática diplomática”, destaca o texto do chanceler. 

Na época, os chineses avaliaram esse tipo de insinuação como desrespeitosa e na contramão do que os quadros técnicos do governo tem afirmado. O então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já havia desautorizado culpar qualquer país pela pandemia. 

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