OPINIÃO
29/05/2019 01:00 -03 | Atualizado 31/05/2019 23:17 -03

Petição contra cardápio de luxo do STF reúne quase 300 mil assinaturas

O abaixo-assinado segue aberto para combater privilégios no país onde 5,2 milhões de pessoas passam fome.

Photomix/Pixabay
A empresa vencedora receberá quase meio milhão de reais pelo cardápio.

Lagosta, vinho, espumante e uma série de outras iguarias para paladar nenhum botar defeito. A lista poderia compor o menu de um restaurante fino, mas, na verdade, integrou uma licitação do STF (Supremo Tribunal Federal) para fornecimento de refeições aos ministros. Inconformado com tamanho privilégio em um país que, segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), tem 5,2 milhões de pessoas passando fome, o especialista em comércio exterior Vinicius de Amorim Caltran criou um abaixo-assinado na plataforma Change.org contra o “cardápio de luxo do STF”.

Lançada com valor estimado em R$ 1,134 milhão, a licitação chegou a ser suspensa por uma juíza da 1ª Vara Federal em Brasília, mas liberada posteriormente por um desembargador. De acordo com o resultado da homologação, que consta no portal de compras do governo federal, o Comprasnet, o pregão foi finalizado e a empresa vencedora receberá quase meio milhão de reais — R$ 481.720,88 — por um contrato de 12 meses para fornecimento das refeições institucionais.

No site da Corte, a licitação já consta como “concluída”.

“Apesar da redução do valor previsto, é lamentável que o nosso Supremo Tribunal Federal tenha ao menos considerado tantos itens de luxo para as refeições institucionais. Não muito distante da nossa capital federal, famílias vivem a incerteza da próxima refeição. Acredito que o Supremo perdeu uma ótima oportunidade de dar exemplo à sociedade de que essa Casa tem compaixão pelos brasileiros”, protesta Vinicius Caltran, que é supervisor de excelência ao cliente na área comercial de importação e exportação.

Sem qualquer atuação político-partidária, Caltran, que como a maioria dos brasileiros não tem à disposição refeições luxuosas como as dos ministros, conseguiu reunir quase 300 mil apoiadores em seu abaixo-assinado, que segue aberto na Change.org.

“Nós devemos ser responsáveis pela mudança. Então resolvi ser a mudança e não me conformar com essa situação absurda”, desabafa o supervisor. “Fico muito feliz que quase 300 mil brasileiros também resolveram ser parte”.

Arquivo Pessoal
Vinicius Caltran, que mora em SP, ficou surpreso e ao mesmo tempo feliz com a repercussão do abaixo-assinado

Um país de contrastes

Na liminar que determinou temporariamente a suspensão da licitação, a juíza Solange Salgado havia destacado que a proposta destoa da realidade socioeconômica do País e das típicas refeições consumidas pela grande maioria dos brasileiros. Este também foi um ponto de indignação para Vinicius Caltran, que no texto do abaixo-assinado apresenta o dado de que 5,2 milhões de brasileiros passaram fome em 2017, número levantado em relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).

Mesmo com a licitação já concluída, o supervisor manterá a mobilização em torno do petição na expectativa de que mais pessoas assinem e que o quadro possa ser revertido de alguma forma.

“Entendo que o valor gasto nessa licitação não resolveria o problema da população brasileira, mas acredito que podemos ao menos constranger e pressionar a classe política. Eles precisam saber que a população está de olho em situações semelhantes e sempre fiscalizará para que o dinheiro suado do contribuinte seja direcionado às necessidades básicas como saúde, educação e geração de renda”, finaliza.

O cardápio

Entre outras exigências, a licitação determinou que as refeições - café da manhã, brunch, almoço, jantar e coquetel - incluam itens como: vinhos com premiações internacionais, uísques envelhecidos, camarões, carré de cordeiro e lagosta.

Procurada pela equipe da Change.org via telefone e e-mail para esclarecer detalhes do resultado da licitação e assinatura do contrato com a empresa vencedora, a assessoria de comunicação do STF não respondeu nem enviou posicionamento oficial até o fechamento deste texto.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.