07/02/2019 09:48 -02 | Atualizado 07/02/2019 09:57 -02

A paixão de Stephanie Figer pelos bastidores do futebol e carreira de atletas

Jovem seguiu os passos da família nos negócios e hoje trabalha para traçar seu próprio caminho dentro da empresa.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Stephanie Figer é a 337ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Acostumou-se desde cedo a ter o sobrenome reconhecido. Sim, ela conhecia Juan Figer – precisou afirmar inúmeras vezes. E muito bem. Lembra que desde essa época pensava em uma coisa: “Meu avô deve fazer algo muito legal”. Com o tempo, percebeu que era algo maior do que um simples trabalho. “A primeira negociação do meu avô foi em 69. Então eu respiro isso desde que nasci e meu pai começou a trabalhar com meu avô com 16 anos. Mas como sou mulher, [quando nasci] não teve a expectativa de eu trabalhar com eles e dar sequência na empresa. E fui crescendo e ouvindo as histórias, meu pai indo viajar para negociar um jogador, essas coisas, sempre essa temática em casa, mas nunca foi algo que eu pensava em trabalhar. Eu só tinha noção da grandiosidade do que faziam”. Já sentia, talvez, um certo fascínio pela área, mas realmente não era algo que era apresentado como opção de carreira para ela.

Stephanie Figer, 29 anos, hoje diretora executiva de operações do Grupo Figer, empresa que faz gestão da carreira de jogadores de futebol, não atende aos estereótipos. Não só porque é mulher, mas também porque não era levada ao estádio desde pequena, não passava os dias assistindo jogos de futebol e não sabe de cor a escalação de times. Mas nem por isso ela deixou de viver o dia a dia do futebol. “Nunca foi cultivado isso então nunca tive um hábito ou paixão por um time, não tinha esse desejo pessoal. Aprendi a gostar porque o que me encanta até hoje são os bastidores. A negociação... e futebol, acho encantador! Você ir ao estádio, ver a galera vibrar, as pessoas com tatuagem [dos times], olha a dimensão disso”, diz animada, como se falasse de algo que acabou de descobrir.

Respiro isso desde que nasci e meu pai começou a trabalhar com meu avô com 16 anos.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Stephanie foi inserida tarde no meio esportivo não só porque é mulher, mas também porque não era levada ao estádio desde pequena.

Mas é só empolgação mesmo. Stephanie vive o – e do – futebol. O seu negócio é gerir a carreira dos atletas. É o que faz desde 2012 e ama cada parte desse trabalho. E, tenha certeza, sobre os jogadores que ela tem em sua carteira, sabe tudo. Acompanha cada passo e cada boa jogada. “O dia a dia é super dinâmico. Ficamos acompanhando os jogos e a evolução deles e são muitas demandas... desde precisar de chuteira, lidar com uma marca interessada, buscar um patrocínio, lidar com briga com o treinador, ver uma proposta de renovação do clube, proposta de venda... você tem que atender todas as dúvidas, anseios, vontades, frustrações”. Além de todo o trabalho de negociação de fato, ela também está sempre a postos para ouvir e acolher os jogadores. “É muito comercial, nosso trabalho é de atendimento e negociação do jogador, mas você tem vários outros papéis, principalmente eu como mulher, porque o amparo é outro”.

Ela explica. O universo de trabalho é realmente muito masculino, mas há momentos em que é ela que encara a questão. “É um escutar diferente, uma motivação diferente. Teve um jogador de 18 anos que descobriu que a mãe estava grávida e ele ficou em pânico. O treinador me ligou e falou que ele estava avoado... fui comer um sanduíche com ele e ele chorou, falou que tava com medo. E vi que ele não queria dividir isso com um cara que trabalha aqui na empresa”, conta.

Aprendi a gostar porque o que me encanta até hoje são os bastidores do futebol.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje Stephanie vive o – e do – futebol.

Stephanie também atua de forma bem presente com a família dos atletas em momentos de mudanças de cidade ou país. “Acabei de voltar da Itália e fui com os pais de um jogador que nunca tinham ido para fora do país. E tiro todas as dúvidas. Claro que um homem pode fazer isso, mas eles se sentem mais acolhidos e aconchegados quando eu faço esse trato com eles, tem uma boa receptividade”.

Mas como ela mesma disse, esse é só um dos papéis e um dos desafios. E não são poucos, mesmo tendo esse sobrenome tão conhecido no mercado. Essa questão, aliás, ajuda, ela bem sabe. Mas também coloca mais peso em tudo que faz e aquela necessidade de ter que provar que sabe do que está falando aumenta. “A minha vantagem é que tenho um padrinho, não entrei batalhando meu nome do zero, foi muito mais fácil entrar com essa porta que é ele, mas tem um peso grande”. O nome abre portas, mas o que acontece depois cabe somente a ela.

“Podem me receber porque sou neta dele, mas fica o: ‘vamos ver o que ela vai falar’ e aí foi um ralar sozinha porque ele não parou e veio me explicar como tudo funciona, eu tive que ir atrás, pesquisar, estudar. Cometi muitas gafes, mas fui aprendendo para saber falar porque para negociar você tem que saber do que está falando e ficam te testando o tempo inteiro e ganho a pessoa quando eu mostro que eu sei, quando veem que não sou figurativa”.

Para negociar você tem que saber do que está falando e ficam te testando o tempo inteiro.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O principal foco dela é gerir a carreira dos atletas.

E, para chegar até a empresa, foi o que fez. Mostrou que ela estava ali. Formada em comunicação, trabalhou em agências de publicidade, mas nunca gostou muito do assunto. Foi quando chegou para o pai e disse que queria trabalhar com ele. “Ele ficou meio surpreso e além da gestão de carreira, a empresa foi para áreas de educação, uma área de franquear academias e tivemos uma agência de marketing esportivo e ele achou que eu ia querer essas áreas e fui. Mas fiquei rodando e não era isso”. Chegou para o avô e disse que o que realmente queria era acompanhá-lo nas reuniões. Lembra que ele apenas resmungou e não disse nem que sim e nem que não. Como resultado, ela foi.

Depois de algum tempo, conseguiu cativar seu grande incentivador. “Ele viu que eu estava gostando e viu que eu peguei. Perguntou se era isso que eu queira, falou que ia ser duro para mim que era mulher, mas ele botou fé em mim e começou a fluir”. E assim foi trilhando seu próprio caminho na empresa, certa de que estava no lugar certo. Mesmo com dificuldades, tinha essa tranquilidade. “Eu queria muito, eu estava apaixonada e quando você está assim em êxtase, tudo que você absorve te preenche a alma. As adversidades, problemas e desafios que tenho até hoje são muito menores do que a gratificação que tenho de intermediar um sonho. É muito gratificante. Eu amo meu trabalho, é muito legal”.

Fala com orgulho e ânimo das vezes em que consegue boas contratações para jogadores jovens e talentosos que dedicam a vida a esse esporte, que fazem de tudo para conseguir entrar em um grande clube. Valoriza cada bom negócio. E continua de olho no jogo, claro. Sabe dos riscos e deixa claro isso para os atletas com quem trabalha. “Sempre trago consciência. Quando fechamos um bom contrato eu falo que é maravilhoso, mas que são cinco anos. Se não performar, é daqui pra baixo. E sempre digo que o sucesso deles é meu sucesso porque eu não posso entrar em campo”.

Não pode. Por isso atua em outras posições. Conhece bem o jogo, sente a adrenalina. E sabe da importância de um bom desempenho. E vai fazer o que puder para conseguir. Agora é com ela.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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