OPINIÃO
19/12/2019 15:01 -03 | Atualizado 19/12/2019 15:01 -03

'Star Wars': J.J. Abrams volta a apelar para a nostalgia em seu retorno à saga

Disney se arrependeu em apostar nas inovações de Rian Johnson e último episódio da nova trilogia retoma antigos dogmas.

Desde 2015, a Disney encarou uma complicada missão: renovar Star Wars, a franquia mais popular da história do cinema. A recompensa era tentadora demais para se temer o fracasso, mas como o seguro morreu de velho, o estúdio foi o mais conservador possível em seu investimento. Escolheu o diretor J.J. Abrams para comandar o projeto.

Sem uma assinatura definida, Abrams ficou mais conhecido por tirar velhas franquias do limbo, como os clássicos Star Trek e Missão Impossível. Sua fórmula é simples: juntar tudo o que os fãs mais calorosos dessas “cineséries” mais gostavam e unir tudo em uma única trama, apelando para a nostalgia do público e construindo filmes que mais parecem ter saído de um algoritmo.

A estratégia deu certo. O Despertar da Força foi um grande sucesso de bilheteria e os fãs da franquia Star Wars, decepcionados com os rumos que George Lucas ― o próprio criador desse universo ― impôs à saga em sua trilogia que montava o que aconteceu antes de Guerra nas Estrelas (1977). E que, por uma questão de cronologia, deixou de lado personagens icônicos da franquia, como Luke Skywalker, Princesa Leia, Han Solo e Chewbacca.

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"A Ascensão Skywalker" aposta em um ritmo mais acelerado do que o costumeiro na saga.

Como é de praxe, depois de garantir que fez um bom trabalho para seus empregadores, Abrams deixou a tarefa de dirigir o segundo filme da nova trilogia para outro profissional. No caso, o inventivo Rian Johnson, que tem em seu currículo filmes com bem mais personalidade que os de Abrams, como A Ponta de um Crime (2005), uma mistura inusitada de noir com filme de “high school”, e a ficção científica cult Looper - Assassinos do Futuro (2012).

Talvez tenha sido ingenuidade - ou falta de conhecimento - por parte dos executivos da Disney, mas Johnson trouxe à saga sua visão, dando mais cor à trama tipicamente maniqueísta, onde mocinhos sempre serão mocinhos e bandidos sempre serão bandidos. Em Os Últimos Jedi (2017), ele imprimiu um estilo visual pungente e situações cheias de humor físico e autodepreciativo.

Suas “ousadias” em transformar Luke em um velho ermitão teimoso e desfocar as linhas maniqueístas, dando complexidade à relação entre a heroína Rey (Daisy Ridley) e o vilão Kylo Ren (Adam Driver) não pegaram bem entre os fãs mais puristas, que criticaram o filme nas redes sociais e fóruns nerd.

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Sequência da luta entre Rey e Kylo Ren nos destroços da Estrela da Morte é uma das melhores e mais eletrizantes do filme.

No entanto, a originalidade de Os Últimos Jedi deu algo que a saga precisava: fãs, novos, abertos e conectados com as noções de diversidade, deixando de lado o comprometimento com dogmas do passado. E é refletindo sobre essa nova direção que chegamos em A Ascensão Skywalker. Último filme da terceira trilogia do universo Star Wars, que estreia nesta quinta (19) nos cinemas.

Temerosa com a resposta do filme anterior, a Disney trouxe J.J. Abrams de volta ao comando. Contudo, o resultado de seu retorno à cadeira de diretor não é exatamente o que se esperava de um filme típico de Abrams. Vê-se logo nos primeiros minutos de A Ascensão Skywalker que o legado que Johnson deixou era forte demais para ser sumariamente ignorado.

Ascensão começa com um ritmo acelerado nada típico na franquia e segue investindo na relação entre Kylo e Rey, reforçando a ambiguidade dos dois, que se intensifica ainda mais quando finalmente conhecemos a origem da heroína. Uma boa sacada que nos faz refletir sobre o papel da Força. A primeira metade do filme é bem robusta e com ótimas sequências de ação filmadas com um esmero pouco visto na carreira do diretor.

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Filme marca a despedida de Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia, que morreu em dezembro de 2016, aos 60 anos.

Mas Abrams continua sendo Abrams, e na segundo metade do filme ele se deixa levar por uma tentativa agradar a todos apelando para a nostalgia, trazendo aparições especiais de personagens da trilogia original e reinterpretando cenas icônicas do cânone de Star Wars.

Ou seja, A Ascensão Skywalker é um tipo de meio termo entre O Despertar da Força e Os Últimos Jedi. Uma tentativa de agradar gregos e troianos que vai dar mais certo por evocar o passado, mesmo que requentado, do que apostar em uma visão mais aberta ao novo. O fandom de Star Wars é poderoso e funciona quase como uma religião. Sinal dos tempos em que, no mundo real, o lado sombrio da Força está ganhando a guerra.