ENTRETENIMENTO
30/11/2019 02:00 -03

‘Star Wars: A Ameaça Fantasma’ foi o precursor da cultura de fãs de hoje

Há 20 anos, filme de George Lucas criava tendências de hoje, com easter eggs, cenas pós crédito, reboots e até o ódio na internet.

Era 1h30 em Santa Monica, Califórnia, no dia 3 de maio de 1999. A maioria das pessoas estaria na cama àquela hora. Mas não Dan Callister, fotógrafo que trabalhava para a Online USA/Getty Images. Ele estava de plantão quando chegou uma dica:

Leonardo DiCaprio está numa loja Toyr R Us agora comprando produtos Star Wars.

“Eu literalmente não acreditei”, lembra Callister. “Achei que era pegadinha.”

Apesar das dúvidas, Callister foi correndo para a loja e chegou a tempo de registrar a famosa foto do ator comprando brinquedos.

“Ao longo dos anos, recebi muitas dicas malucas, mas normalmente eram coisas sérias”, diz Callister ao HuffPost. “Não esperava aquela ligação, aquela estrela de Hollywood comprando brinquedos de Star Wars àquela hora da madrugada. Nem sabia que a Toys R Us ficava aberta até tão tarde.”

DAN CALLISTER and ANDREW SHAWAF via Getty Images
Leonardo DiCaprio compra brinquedos de Star Wars na loja Toys R Us de Santa Monica, à 1h30.

Era a mania de Ameaça Fantasma, e nem mesmo Jack Dawson, de Titanic, estava imune à Loucura da Meia-Noite, quando as lojas Toys R Us abriram à noite para começar as vendas dos bonecos de Star Wars.

Naquela época, o mais recente filme da saga, O Retorno de Jedi, tinha 16 anos. Repentinamente, os fãs ganhariam de presente três novos filmes contando a ascensão e a queda de Anakin Skywalker – mais conhecido como Darth Vader. Eles estavam com mais sede que o desértico planeta de Tatooine inteiro.

Star Wars: A Ameaça Fantasma se tornaria o filme de maior bilheteria de 1999. A estimativa é que 2,2 milhões de pessoas faltariam ao trabalho no dia de estreia, causando 293 milhões de dólares em perda de produtividade, segundo o The Wall Street Journal. Na época, o filme foi a segunda maior bilheteria da história depois de Titanic, arrecadando 924 milhões de dólares naquele ano e mais de 1 bilhão depois dos relançamentos.

Depois dos primeiros três filmes, George Lucas, o criador da série, tinha falado em fazer outros filmes do universo Star Wars. Mas, diferentemente dos dias de hoje, quando qualquer cheiro de nostalgia é explorado furiosamente para render bilheteria, na época a ideia não tinha nenhuma garantia. Um sinal disso é que o título de trabalho do filme fosse The Beginning (O Começo). O filme foi um precursor da cultura de fãs que conhecemos hoje: mundos expandidos, easter eggs, filmes relacionados, teasers depois dos créditos, reboots e, sim, até mesmo reação negativa. Os três filmes da virada do milênio podem não ter sido os pioneiros, mas eles transformaram isso tudo em parte de nossas vidas diárias.

Basta olhar para a recepção da temporada final de Game of Thrones. (Talvez seja revelador o fato de que George Lucas tenha visitado o set de filmagem. Os fãs especularam durante anos sobre o final da saga, esmiuçaram cada detalhe e acabaram com uma história que ninguém esperava. Muita gente achou que a temporada final não combinou com a história que estava sendo contada. Todas as reações apaixonadas espelharam o que acontecera duas décadas antes com a franquia Star Wars, incluindo a petição dos fãs demandando uma troca dos roteiristas. Sem falar nas petições que vieram depois, exigindo a volta de Lucas.

Em 1999, demorou um tempo para o hype chegar ao Rancho Skywalker, na Califórnia, o lar pastoral da Lucasfilm. A Ameaça Fantasma foi financiada por Lucas, por fora do sistema de Hollywood, então ele não tinha de prestar contas para investidores nem para chefes de estúdio. Para o editor de som Matthew Wood, a experiência foi parecida com a de fazer um filme independente, mas “talvez o maior e mais caro filme indie da história”, como observou a CNN em 1999.

Wood sentiu os primeiros sinais do hype mais para o fim da produção, e o sabor lembrava muito Pizza Hut.

“Eles vieram [ao Rancho Skywalker] com um caminhão de pizzas”, diz Wood ao HuffPost. “Estavam distribuindo pizza grátis para todo mundo, e todos os copos tinham desenhos de Star Wars.”

Wood lembra que toda a equipe do Rancho Skywalker recebeu brindes com personagens nos quais eles estavam trabalhando na época. Graças a um acordo com a Tricon Global Restaurants (agora chamada Yum Brands), Coronel Sanders, o cão da Taco Bell e a “Menina da Pizza Hut” ― o trio de mascotes das cadeias de fast food KFC, Taco Bell e Pizza Hut – se uniram para “derrotar o lado sombrio” dos gastos dos consumidores. Depois dos copos da Pizza Hut, Wood começou a ver mais e mais promoções no condado de Marin, onde fica o rancho. Outros acordos de licenciamento foram fechados com Pepsi, Hasbro e Lego.

“Tudo tinha algum personagem licenciado. E estamos falando só de uma versão pequena, no condado onde [os filmes] eram produzidos. Mas é claro que isso acontecia no mundo inteiro”, afirma Wood. “É como jogar uma pedra no meio de um lago e assistir as ondas se formando.”

As ondas ficariam tão grandes que atingiriam galáxias (e futuras gerações) muito distantes.

A obsessão da internet ainda era jovem na época, como Anakin – nada como o Darth Vader de hoje. Os primeiros sites de fãs, como TheForce.Net, eram o lugar para encontrar novidades, informações falsas “de bastidores” (como o troll SuperShadow, que espalhava fake news, e os fãs tentavam descobrir os nomes dos novos personagens com base nos nomes de domínio registrados pelas LucasFilm.

Havia menos recursos, mas isso não quer dizer que as pessoas fossem menos fervorosas. Alguns compraram ingressos para Encontro Marcado só para assistir ao trailer de Ameaça Fantasma. Os fãs ficaram semanas na fila esperando para comprar ingressos, às vezes representando causas. A primeira convenção Star Wars Celebration aconteceu para celebrar o lançamento do filme. Também houve a Loucura da Meia-Noite, da Toys R Us, livros, itens de colecionador, latinhas de Pepsi e até mesmo um “chupador de línguas” do Jar Jar Binks  – que consegue ser pior do que o nome sugere.

Antes de Thanos, tivemos Darth Maul.

A mídia também se jogou de cabeça. Com tantas promoções, o The Hollywood Reporter disse que o filme seria o primeiro “a dar dinheiro mesmo que ninguém compre ingresso para assisti-lo”. A Variety afirmou que foi “o filme mais esperado e hypado da era moderna”. Para a CNN, “a menos que você seja um zigoto nas primeiras fases da concepção, tenho certeza absoluta que você ouviu falar de A Ameaça Fantasma”.

Mas toda essa expectativa trouxe um distúrbio para a Força: o hype exagerado.

“Nada pode atingir a expectativa gerada por uma indústria que tem sede de bilhões de dólares”, escreveu Ty Burr na Entertainment Weekly. “Repito: nada”.

A reação começara mesmo antes de o filme chegar às telas.

Para todas as resenhas que deram boas notas, como as 3,5 estrelas (de um máximo de 4) de Roger Ebert, houve críticas que acharam o filme uma chatice, como a do The Guardian. A Variety afirmou que era difícil não se decepcionar um pouco depois de tanto auê, mas, segundo a revista, foi “uma pena que ele tenha decepcionado tanto”.

Imagens das primeiras exibições mostraram fãs efusivos, e também os críticos. O jogador de basquete Shaquille O’Neal disse que o filme era maravilhoso. Leonard Maltin afirmou que ninguém sairia decepcionado do cinema.

Alerta de spoiler: esse comentário não envelheceu bem.

Não demorou para que tudo começasse a ser esmiuçado pelos fãs e críticos: o filme era focado demais em crianças, tinha computação gráfica demais. Jar Jar foi considerado uma caricatura racista por alguns, o que o ator Ahmed Best e Lucas negaram veementemente.

Aquela trilogia de Star Wars não foi o começo do trolling ou da cultura dos fãs tóxicos que conhecemos hoje, mas ela certamente ajudou a acelerar o fenômeno. A reação ao filme e aos personagens se manifestava em tudo, do bullying do elenco a sites como www.JarJarMustDie.com (Jar Jar tem de morrer).

Em 2018, Best revelou que pensou em se matar por causa do abuso que sofreu.

“Eu era o alvo direto. Me chamaram de todos os estereótipos racistas que você pode imaginar”, disse Best numa entrevista. “Havia críticas por causa do sotaque jamaicano, o que é ofensivo, porque tenho ascendência do Caribe – não sou jamaicano. Foi debilitante. Não sabia como responder.”

Talvez a resenha mais pungente, olhando hoje, tenha sido a do New York Times. O jornal afirmou que, tirando as expectativas exageradas, o filme era bom.

O editor de som Wood foi a primeira pessoa a ver Episódio I: A Ameaça Fantasma. Segundo ele, os editores Bem Burtt e Paul Martin Smith estavam cada um editando metade do filme. Cabia a Wood assistir a tudo junto e encontrar os pontos em que os personagens digitais deveriam ser inseridos. Mas a importância dessa tarefa só ficou clara quando Lucas fez um comentário casual.

“Lembro que estava saindo do escritório com uma pilha de fitas e George disse: ‘Matt, você sabe que é a primeira pessoa que vai ver tudo isso junto’”.

Wood foi imediatamente para a sala de edição, trancou a porta e ligou para a mãe.

“‘Mãe! Mãe! Sou a primeira pessoa do mundo a ver esse filme!’”, lembra Wood. “Foi muito, muito empolgante.”

E qual foi sua opinião inicial?

“Lembro de pensar: ‘Uau, visualmente é muito diferente. E o filme estava contando uma história diferente’”, diz Wood. “Mas você ainda era transportado para um mundo, tudo parecia ter história, e eu acreditei.”

Wood lamenta os ataques pessoais contra Lucas e o elenco. Mas ele reconhece que, quando se trata de Star Wars, todo mundo tem opinião – e, para certas pessoas, o assunto é quase uma religião.

Wood disse que, na época, não pensou no hype em torno do filme. Ele queria apenas que Lucas conseguisse fazer o filme que queria.

“Quando você assiste Star Wars e acha que é um filme diferente do que você se lembrava, tem de ajustar o pensamento. Eu sempre pensei: ‘Quero fazer o filme que George quer fazer’”, diz Wood. “Porque acredito na visão dele e me considero privilegiado de ser parte dela.”

Enquanto os fãs mais velhos diziam que a trilogia “estragou as memórias da infância”, para os mais novos os filmes foram os “seus” Star Wars.

É fácil encontrar reportagens com fãs que elogiam os filmes. São as pessoas que fundariam novos fã clubes e imitariam a maquiagem de Padmé Amidala (Natalie Portman).

Depois de Best falar sobre o impacto do bullying, ele recebeu apoio dos fãs e foi ovacionado na Star Wars Celebration de 2019.

“As vibrações positivas do público foram rejuvenescedoras. Investimos tanto tempo e esforço naqueles filmes. Vê-los de novo, 20 anos depois, e sabendo que os jovens fãs hoje estão com seus 30 anos, é muito legal”, afirma Wood. “É meio que onde eu estava quando comecei na empresa. Quando comecei aqui, era fã dos originais. Era o meu lance. Ver isso se repetir é muito incrível.”

Ameaça Fantasma completou 20 anos. Hoje, o hype passou, bem como a coleção Star Wars de DiCaprio (ele a leiloou em 2006). Mas, dos personagens digitais que evoluíram de Jar Jar Binks aos universos em expansão como o Universo Cinemático Marvel, tudo está cercado desse “fantasma” do original.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.