ENTRETENIMENTO
25/02/2019 17:08 -03

Por que Spike Lee ficou tão irritado com o Oscar de 'Green Book'?

Discussão sobre racismo também dividiu opinião de crítica e público sobre resultado do Oscar.

Divulgação
O diretores Spike Lee e Peter Farrely na cerimônia da 91ª edição do Oscar.

Uma das maiores surpresas da 91ª edição do Oscar, o prêmio de Melhor Filme para Green Book - O Guia dividiu opiniões. Entre os que não gostaram nada de ver o filme de Peter Farrelly conquistando o cobiçado prêmio foi Spike Lee.

Diretor de filmes importantes sobre as tensões raciais nos EUA, como Faça a Coisa Certa (1989) e Malcolm X (1992), Lee ganhou seu primeiro Oscar na noite de domingo (24), o de Melhor Roteiro Adaptado, por Infiltrado na Klan.

Mas ele não saiu totalmente satisfeito da festa.

De acordo com vários veículos de imprensa americanos, o diretor tentou sair do Dolby Theatre após a revelação de Green Book como principal vencedor da premiação. Em seguida, retornou ao seu lugar, onde ele virou as costas para o palco durante os discursos dos vencedores.

Na sala de imprensa, Lee lembrou que seu filme Faça Coisa Certa não conseguiu uma indicação de Melhor Filme no Oscar de 1990, ano em que Conduzindo Miss Daisy venceu. Ironicamente, Green Book é comparado a Conduzindo Miss Daisy, que conta a história de amizade entre um motorista negro e uma idosa branca no sul dos EUA da década de 1950.

“Toda vez que alguém está dirigindo alguém, eu perco ”, brincou Lee sobre a injustiça com Faça a Coisa Certa.

Perguntado sobre por que virou de costas para os premiados, o cineasta americano contou que esqueceu que estava no Dolby Theater e pensou que estava no Madison Square Garden, ginásio em que joga o New York Knicks.

Lee é o mais fanático dos torcedores do time da NBA. Ele vai a todos os jogos e se senta ao lado dos jogadores no banco de reservas. “Eu pensei que estava na quadra do [Madison Square] Garden, e o árbitro errou uma marcação”, disse.

Mas a vitória de Green Book não irritou apenas Spike Lee. Nas redes sociais, o filme é acusado por muitos críticos e parte do público - principalmente afro-americanos - como uma visão branca sobre o racismo contra negros.

O Dr. Shirley, personagem negro vivido por Mahershala Ali no filme, sequer foi mencionado nos discursos de agradecimento do diretor Peter Farrelly e do roteirista Nick Vallelonga.

“Sem desrespeitar Green Book, mas muitos de nós da comunidade negra gostaríamos de ver um maior reconhecimento por filmes sobre a experiência negra e não apenas para filmes que tornam a experiência negra confortável para o público branco.”

“Green Book era o filme negro mais seguro que o Oscar poderia escolher. Mas a piada é que não é um filme negro. É apenas carregado por uma performance incrível de um ator negro retratando um personagem histórico extraordinário.”

“A julgar por esta foto, Green Book não ofereceu lá muitas oportunidades para negros #OscarsSoWhite.”

“Green Book não é para negros. É para fazer as pessoas brancas se sentirem bem em fazer pouco para impedir o racismo além do interpessoal. Além disso, os outros filmes são melhores. Mas Regina, Ruth, Spike e mais pessoas negras incríveis ganharam na noite passada, então já deu de ficar falando de Green Book.”

“Green Book é o melhor retrato de um país em negação sobre onde está, como chegou aqui e o que é necessário para mudar de rumo.”

“Eu: Meu Deus, a Academia está mudando? Ela vai realmente abraçar histórias de comunidades PoC e LGBTQ?

Academia: GREEN BOOK MELHOR FILME”

Eu:

Além disso, a equipe do filme coleciona alguns escândalos. 

O ator Viggo Mortensen que usou a palavra “nigger” - extremamente ofensiva nos EUA - em uma coletiva de imprensa; Nick Vallelonga escreveu um tuíte ofensivo contra muçulmanos em 2015; e a Farrelly foi acusado pela atriz Cameron Diaz de mostrar seu pênis para ela nas filmagens de Quem Quer Ficar com Mary? (1998).

Outra questão importante foi a reclamação por parte da família do Dr. Shirley, personagem negro da trama que é interpretado por Mahershala Ali.

Segundo os familiares do músico, a família não foi procurada para qualquer consulta sobre a história, que se vende como “baseada em fatos reais”. O irmão dele, Maurice Shirley, afirmou até que o pianista e Tony ’Lip’ Vallelonga, vivido por  Mortensen no filme, nunca foram grandes amigos como a produção indica.

Trump diz que Spike Lee foi racista

Todos sabiam que a presença de Spike Lee no Oscar daria o que falar. Famoso por suas opiniões diretas e enfáticas, o cineasta conseguiu o que queria com seu discurso ao vencer a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado, irritar Donald Trump.

“A eleição está logo ali na esquina. Vamos todos nos mobilizar. Vamos todos ficar do lado certo da história. Fazer a escolha moral do amor contra o ódio. Vamos fazer a coisa certa!”, disse Lee no palco da cerimônia.

O comentário foi uma crítica direta ao atual presidente dos EUA, a quem o diretor retrata em seu filme como um apoiador de supremacistas brancos.

E Trump, claro, não ficou calado. Em sua conta no Twitter, o presidente dos Estados Unidos acusou o cineasta de ser “racista” com ele.

“Seria legal se Spike Lee pudesse ler suas anotações, ou melhor ainda, não ter que usá-las ao fazer seu ataque racista a seu presidente, que fez mais pelos afro-americanos (Reforma da Justiça Criminal, Números de Desemprego Mais Baixos na História, Cortes Fiscais, etc.) do que quase qualquer outro Presidente.”