OPINIÃO
10/06/2020 10:00 -03 | Atualizado 10/06/2020 10:00 -03

Com 'Destacamento Blood', Spike Lee busca as devidas reparações aos afro-americanos

Filme será lembrado para sempre como o símbolo de um momento crucial na história dos Estados Unidos.

Pouco mais de duas semanas — 16 dias para ser exato — depois do assassinato covarde do segurança negro George Floyd por um bando de policiais brancos na cidade de Mineápolis, Spike Lee lança seu 24º longa, Destacamento Blood, que estreia no catálogo da Netflix nesta sexta-feira (12).  

Um timing impressionantemente preciso em relação à grande mobilização com relação ao racismo e brutalidade policial que acontece agora nos Estados Unidos (e em boa parte do mundo), mas que não tem nada de coincidência. Seja na década de 1960, durante a Guerra do Vietnã, seja na América de Trump, os afro-americanos seguem sendo bucha de canhão.

Durante o conflito que matou mais de 2 milhões de pessoas (cerca de 58 mil americanos), os negros, na época 11% da população dos Estados Unidos, somavam 34% da tropa norte-americana no Vietnã. Homens que lutavam enquanto seus irmãos e irmãs eram mortos em protestos pelos direitos civis em seu próprio país.

Hoje, 13% da população dos EUA, o número de negros presos no sistema carcerário americano (que, aliás, é a maior do mundo, com mais de 2 milhões de pessoas) é cinco vezes maior que o de brancos. Ou seja, há mais afro-americanos na cadeia em 2020 do que escravizados no século 19.

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Melvin (Isiah Whitlock, Jr.), Eddie (Norm Lewis), Otis (Clarke Peters), Paul (Delroy Lindo) e seu filho David (Jonathan Majors) em uma busca por reparações no Vietnã.

Assim como Infiltrado na Klan (2018), que mesmo contando uma história que aconteceu na década de 1970 reverberava o bizarro desfile de supremacistas brancos - com a conivência do presidente Donald Trump - pelas ruas de Charlottesville, em 2017, Destacamento Blood faz a mesma coisa em relação à onda de protestos que tomou o país após o assassinato de Floyd, mesmo que tenha como espinha dorsal de sua trama a Guerra do Vietnã (1955-1975).

No filme, os 4 veteranos Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.) voltam ao Vietnã décadas depois do final da guerra em busca do corpo do líder do esquadrão Blood, Norman (Chadwick Boseman) e de um tesouro em barras de ouro que eles esconderam na selva.

Lee faz aqui uma curiosa mistura de O Tesouro de Sierra Madre (1948) com filme de guerra e buddy movies que não deixa um segundo sequer de enfatizar o quanto os afro-americanos se sacrificaram por um país que não dá a mínima para eles. Que sempre os tratou como cidadãos de segunda categoria.

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Chadwick Boseman é Stormin' Norman, o comandante de um pelotão de soldados negros no Vietnã, os Bloods.

O filme pode soar didático demais às vezes, mas dadas as circunstâncias, ensinar sobre a cultura negra e seus heróis é uma obrigação por parte do cineasta, uma voz poderosa que precisa usar sua posição de destaque para passar sua mensagem contra o racismo e da necessária reparação aos afro-americanos.

Falando assim até fica parecendo que Destacamento Blood é um filme basicamente panfletário, mas não é nada disso. Lee sabe muito bem como entreter nos fazendo pensar. Há momentos que a história toma rumos surpreendentes. Para o bem e para o mal.

Spike Lee nunca fugiu de uma boa discussão, doa a quem doer, e é nesses momentos recheados de dilemas morais de seus personagens que seu filme brilha. Nem tanto quando ele parte para a ação, em cenas de batalha mal coreografadas e com excesso de uma trilha sonora que não combina bem com a situação.

Mas esses são detalhes que com o tempo serão totalmente colocados de lado. O senso de urgência de Destacamento Blood é tão aguçado que ele sempre será lembrado como o filme que simboliza um momento crucial na História dos Estados Unidos.