LGBT
29/04/2019 08:00 -03

Por que 'Special’ quebra barreiras sobre homossexualidade e deficiência

A comédia de 8 episódios é baseada na vida de Ryan O’Connell, que é gay e tem paralisia cerebral.

A nova série da Netflix, Special é tão inteligente, leve e viciante que é fácil esquecer que estamos falando de um seriado inovador e subversivo – por mais que essas características sejam centrais.

Special tem 8 episódios e estreou na plataforma de streaming no início de abril. Ela conta a história de Ryan (interpretado por Ryan O’Connell, criador da série), um gay de 28 anos que sofre de paralisia cerebral.

Apesar de Ryan ter saído do armário há anos, ele logo se vê preso em outro quando convence seus colegas do Eggwoke ― um site de notícias fictício em que ele trabalha ―, que manca por causa de um acidente de carro.

Roteirista de Los Angeles cujos créditos incluem Awkward (da MTV) e o revival de Will & Grace, O’Connell construiu a série com base em sua experiência, explorando identidades que se cruzam – que também é tema de seu livro, I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (Sou especial: E outras mentiras que contamos para nós mesmos, em tradução livre). 

O’Connell, que agora tem 32 anos, saiu do armário aos 17. Mas ele só abraçou sua verdadeira identidade – um gay com deficiência – aos 28, mesma idade do personagem Ryan na série. Este é um dos vários pontos da trama que espelham em sua vida real.

“O que acontece na série aconteceu comigo”, disse em entrevista ao HuffPost US. “Quando eu tinha 20 anos, fui atropelado por um carro e quando me mudei para Nova York, para estudar, ninguém me conhecia e todos achavam que eu mancava por causa do acidente.”

“Nunca tentei corrigir as pessoas, porque cresci com leve paralisia cerebral e achei que não fazia parte do mundo das pessoas com deficiência, porque, bom, porque agora sei que existe esse tipo de internalização. Mas, na época, eu racionalizava.”

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Ryan O’Connell é o protagonista e criador de “Special”, série sobre um gay de Los Angeles que sofre de paralisia cerebral.

As tentativas de Ryan para afirmar sua identidade parecem aumentar sua autoestima. Contrariando sua mãe (Jessica Hecht), que tem boas intenções mas mantém relação de co-dependência com o filho, ele vai morar sozinho.

Ryan também faz uma melhor amiga, Kim (Punam Patel), perde a virgindade e começa a flertar com Carey (Augustus Prew), que vira o interesse romântico do protagonista. Mas é claro que a verdade é um risco constante para ele.

Como personagem, O’Connell tem uma presença natural e empresta um humor inteligente e sutil ao ele. O elenco perfeito era uma necessidade. Em 2015, logo depois de publicado, o livro de O’Connell chamou a atenção de Jim Parsons (o Sheldon de The Big Bang Theory) e de Craig Johnson (diretor de Irmãos Desastre). Trabalhando com O’Connell, eles começaram a adaptar o texto. Mas a resposta dos grandes estúdios se alternou entre “não” e “de jeito nenhum”, disse O’Connell. Foram 4 anos entre tentativas frustradas.

Finalmente, eles conseguiram fechar com a produtora Stage 13, especializada em conteúdos curtos (cada episódio de “Special” dura entre 15 e 20 minutos). E não demorou para que as dificuldades fizessem de O’Connel o ator. 

“Se você quiser interpretar a si mesmo, procure um lugar que não tem dinheiro. Eles não terão opção e serão obrigados a te escolher”, brincou ele.

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Durante toda a série, Ryan busca consolo nos braços da mãe, com quem mantém uma relação de co-dependência.

Depois de meses de aulas de atuação, porém, O’Connell estava confiante de que seus talentos cênicos estavam à altura do restante do elenco. “Talvez esteja morando em Los Angeles há muito tempo, mas sabia imediatamente o que seria necessário para dar vida a esse personagem.” Ainda assim, ele acrescentou: “Com certeza nos odiamos mutuamente.” 

Muito do burburinho inicial em torno de Special dizia respeito ao terceiro episódio da série, em que Ryan, marcado por sua insegurança ao se relacionar com outros homens, procura um profissional do sexo (Brian Jordan Alvarez). O que se segue é, sem dúvida, uma das cenas mais francas e detalhadas de sexo gay jamais exibidas numa série de TV mainstream.

A cena, disse O’Connell, foi a maneira de expressar frustração com filmes como Me Chame Pelo Seu Nome, que retrata relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, mas não tem cenas explícitas.

“Tipo: ‘Será que podemos falar de sexo anal, das posições?’ Porque ninguém faz isso”, explicou ele. “Então eu disse: ‘Foda-se, vamos fazer’, e aí a gente começa essa conversa. Antes tarde do que nunca.”

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Depois de contar para os colegas que manca por causa de um acidente de carro, Ryan sente-se confiante, fica amigo de Kim (Punam Patel) e começa a flertar com Carey (Augustus Prew), que vira seu interesse romântico.

Special nos lembra que pessoas com deficiência são muito subrepresentadas em filmes e séries de TV. Um estudo de 2017 da Annenberg School of Communication and Journalism, da Universidade da Califórnia, indicou que somente 2,7% dos personagens dos 100 filmes de maior bilheteria em 2016 foram retratados com deficiência.

Outro estudo, realizado pela organização GLAAD, indicou que somente 2,1% dos personagens que aparecem regularmente nas séries de TV do horário nobre americano tinham deficiência.

Mesmo que Special não tenha mais temporadas, O’Connell diz que, se o público tiver mais empatia pela experiência das pessoas com deficiência, sua missão terá sido cumprida.

“As pessoas ficam muito pouco à vontade quando estão perto de pessoas com deficiência. Elas têm medo de ofender ou fazer algo errado e, por isso, preferem nos ignorar”, disse ele.

“Somos fortes, independentes e emocionalmente complexos. Temos nossos desejos. Para mim, a série terá sucesso se as pessoas começarem a incluir pessoas com deficiência nas discussões sobre diversidade.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Us e traduzido do inglês.