Sou demissexual. Eis o que quero que você saiba

“Tinha 23 anos quando finalmente descobri que existia uma palavra para descrever minhas experiências e sentimentos.”
A autora com o parceiro.
A autora com o parceiro.

Sempre achei que tinha algo errado comigo.

Quando era adolescente, quando amigas falavam que alguém era “gostoso”, concordava, mas não entendia o que elas estavam sentindo. Nunca olhei para amigos, conhecidos ou estranhos e pensei: “Uau, que cara sexy”. Nunca. Tive crushes, claro, mas nada relacionado à aparência física das pessoas. Sempre tinha a ver com a personalidade.

Minhas amigas se derretiam pelos gatos da escola, e eu ia atrás. Confiava completamente nelas, então eles deveriam ser gatos mesmo. Né? Nunca entendi o que eles tinham de tão especial. Eram caras simpáticos, mas não tinha ideia por que minhas amigas queriam beijá-los. Eu não sabia quase nada deles. Não sentia atração física ou sexual por pessoas que não conhecia direito até bem depois da puberdade.

Hoje, adulta, sei que isso se chama demissexualidade.

Sinto atração por alguém somente depois de estabelecer uma conexão emocional mais profunda. Consigo contar nos dedos de uma mão os homens que beijei na vida ou pelos quais senti atração – e não tenho nenhum problema com o número. Não acho que tenha perdido nada, porque, pelo menos para mim, uma conversa de sete horas é muito melhor que a intimidade física.

“A melhor descrição é dizer que sinto atração pela personalidade antes e pelo corpo, depois. Os detalhes saborosos me atraem, não a aparência física.”

A melhor descrição é dizer que sinto atração pela personalidade antes e pelo corpo, depois. Os detalhes saborosos me atraem, não a aparência física.

Para uma pessoa sexual, podem surgir faíscas logo no primeiro encontro. Uma química repentina que une duas pessoas imediatamente. Para as pessoas assexuais, essa faíscas podem não aparecer nunca, mesmo depois de passado muito tempo. Para mim, esse frio na barriga só vem quando conheço a pessoa muito bem e já demonstramos interesse romântico um pelo outro.

No fundo, sou romântica. Nunca fui do tipo “fixar o olhar num estranho no bar”.

Sou demissexual. Quando conheço uma pessoa, apenas a vejo. Suas características físicas são simplesmente parte de quem elas são. Tem barriga de tanquinho? Ótimo. Um maxilar quadrado? OK, e daí? Só depois que começo a conhecer a pessoa atrás daquela figura é que esses atributos físicos começam a chamar minha atenção. Por isso eu sabia que não era assexual. Sinto atração, mas ela demora um pouco mais para se manifestar no meu caso.

Tive meu primeiro namorado aos 16 anos, meu primeiro beijo, meu primeiro entendimento do que é atração. Até então eu nunca tinha sentido vontade de beijar ninguém. Ele me fez me sentir linda, compreendida e vista. Pela primeira vez na vida, alguém estava interessado em quem eu era lá no fundo. Alguém queria saber tudo sobre mim. Meu primeiro beijo foi durante um filme. Ele se aproximou, meu estômago gelou na hora. Foi natural como a respiração. Tudo do que minhas amigas tanto falavam finalmente fez sentido. Quanto mais o conhecia, mais lindo ele ficava diante dos meus olhos.

Como toda colegial apaixonada, eu o tratava muito bem. Parecia estar entendendo enfim o que meus amigos viam em seus namorados e namoradas. Talvez aquela pessoa para o resto da minha vida e eu é que tinha dado a sorte de encontrá-la tão cedo?

Ficamos juntos por uns seis anos. Nossa separação foi terrível e veio meses depois de eu suspeitar que ele estava me traindo.

etalhes saborosos me atraem, não a aparência física.

Para uma pessoa sexual, podem surgir faíscas logo no primeiro encontro. Uma química repentina que une duas pessoas imediatamente. Para as pessoas assexuais, essa faíscas podem não aparecer nunca, mesmo depois de passado muito tempo. Para mim, esse frio na barriga só vem quando conheço a pessoa muito bem e já demonstramos interesse romântico um pelo outro.

No fundo, sou romântica. Nunca fui do tipo “fixar o olhar num estranho no bar”.

Sou demissexual. Quando conheço uma pessoa, apenas a vejo. Suas características físicas são simplesmente parte de quem elas são. Tem barriga de tanquinho? Ótimo. Um maxilar quadrado? OK, e daí? Só depois que começo a conhecer a pessoa atrás daquela figura é que esses atributos físicos começam a chamar minha atenção. Por isso eu sabia que não era assexual. Sinto atração, mas ela demora um pouco mais para se manifestar no meu caso.

Tive meu primeiro namorado aos 16 anos, meu primeiro beijo, meu primeiro entendimento do que é atração. Até então eu nunca tinha sentido vontade de beijar ninguém. Ele me fez me sentir linda, compreendida e vista. Pela primeira vez na vida, alguém estava interessado em quem eu era lá no fundo. Alguém queria saber tudo sobre mim. Meu primeiro beijo foi durante um filme. Ele se aproximou, meu estômago gelou na hora. Foi natural como a respiração. Tudo do que minhas amigas tanto falavam finalmente fez sentido. Quanto mais o conhecia, mais lindo ele ficava diante dos meus olhos.

Como toda colegial apaixonada, eu o tratava muito bem. Parecia estar entendendo enfim o que meus amigos viam em seus namorados e namoradas. Talvez aquela pessoa para o resto da minha vida e eu é que tinha dado a sorte de encontrá-la tão cedo?

Ficamos juntos por uns seis anos. Nossa separação foi terrível e veio meses depois de eu suspeitar que ele estava me traindo.

“Para mim, esse frio na barriga só vem quando conheço a pessoa muito bem e já demonstramos interesse romântico um pelo outro.”

Depois disso, voltei para aquele estado confuso de não entender quem eu era. Sentir atração por alguém significava muito investimento pessoal. Sou monogâmica e não tenho interesse em correr atrás de outro enquanto estou num relacionamento. Além de furiosa, estava muito confusa. Aquele namorado tinha sido a única pessoa a me atrair. Por mais próxima que estivesse de outras pessoas, só tinha aqueles sentimentos por ele. Demissexuais em geral não ficam com ninguém. Nossas relações físicas são construídas com pedaços de nossas relações emocionais.

Comecei a questionar tudo da minha sexualidade: será que tinha alguma coisa errada comigo? É normal não sentir-se atraída pela maioria das pessoas?

Sempre fui muito próxima da comunidade LGBTQA e tenho amigos incríveis, para quem posso falar dos meus sentimentos. Eles me disseram que era tudo normal. Alguns me contaram que eram assexuais.

“Não sou assexual”, eu respondia. “Eu sinto atração, mas é muito raro.”

Uma palavra. Existia uma palavra pra isso. Foi uma sensação de alívio tão grande ter uma palavra para descrever o que eu estava sentindo. Finalmente, aos 23 anos, conseguia me explicar para os outros. Demissexual. Sou e sempre fui demissexual. Não tinha nada de errado comigo.

“Foi uma sensação de alívio tão grande ter uma palavra para descrever o que eu estava sentindo. Finalmente, aos 23 anos, conseguia me explicar para os outros.”

É por isso que, como monogâmica e demissexual, a ideia de ficar com alguém não faz sentido. Preciso de algo mais profundo. Olho para outros seres humanos e penso: “Olha só, uma pessoa. Que legal”. Posso gostar da voz ou dos olhos ou do corte de cabelo, mas nada disso desperta reações físicas em mim.

Depois do fim do namoro e de finalmente entender minha demissexualidade, saí em busca daquela sensação de novo. O OKCupid foi uma dádiva. Os perfis completos eram muito melhores que os outros apps. Passava horas lendo, conhecendo os caras antes de mandar mensagens. Me dedicava a entender do que eles gostavam e do que eles não gostavam. Me perguntava se seríamos amigos antes de nos conectar.

No começo, as fotos de perfil eram intrigantes. Um sorriso gentil, uma espiadela numa aventura, uma selfie engraçada com os amigos. Mas, depois de ler os detalhes de suas vidas, os sorriso sempre pareciam um pouco mais gentis – ou então mais dissimulados. Só mandava mensagens pros caras se achasse que estavam sendo sinceros e pareciam interessantes. Meu “oi” inicial era sempre mais que um “oi”, deixando claro que eu tinha lido as informações e queria me conectar com alguma coisa específica.

Os aplicativos de relacionamento me deram a chance de conhecer as pessoas antes mesmo de pensar em sair com elas. Se a conversa andasse bem por mensagem, a chance de uma conexão na vida real seria muito maior. Algumas experiências não deram muito certo. Mas aí conheci meu futuro marido no OKCupid.

“Os aplicativos de relacionamento me deram a chance de conhecer as pessoas antes mesmo de pensar em sair com elas.”

Quando nos encontramos pessoalmente, estávamos trocando mensagens havia uma semana. Eu tinha deixado muito claro que era demi: “Só para avisar, sou demissexual. Só sinto atração por pessoas com quem estabeleço uma conexão emocional profunda.”

“Interessante! OK!” Ele não pediu mais explicações. Não foi enxerido. Ele nem sequer deu a entender que o que eu acabar de dizer era estranho. Ele me deixou muito à vontade comigo mesma. (E ainda é assim, todos os dias.)

Conversamos durante seis horas naquele primeiro encontro. Nosso índice de compatibilidade do OKCupid era de 96%. Ele foi a primeira pessoa que beijei que me deu frio na barriga. Nas raras vezes em que sonho com um novo relacionamento, ele sempre é o protagonista. Nunca tinha tido esse tipo de sonho antes de conhecê-lo. Nunca tenho sonhos sexuais com celebridades. E agora sei que nunca vou tê-los.

Aprendi mais sobre a demissexualidade. Fiquei mais aberta à ideia de me identificar assim. Meus círculos sociais se ampliaram, bem como a maneira como me entendo em relação às experiências comuns dos outros.

No final de 2019, não fiz uma resolução de fim de ano típica para 2020. Fiz uma promessa para mim mesma: a partir de então, seria mais direta em relação a minhas verdades enquanto ser humano. Uma dessas verdades é, sem dúvida, minha demissexualidade.

Fui contando aos poucos para os meus amigos, e muitas vezes eles não ouviram falar do assunto e ficam curiosos. Sou grata porque, assim como o homem maravilhoso com quem casei, ninguém mudou de opinião em relação a mim. Sou especialmente grata porque ninguém deixou de me contar as histórias de seus finais de semana malucos.

Demi ou não, ainda sou a mesma pessoa.