MULHERES
11/01/2020 02:00 -03

Tenho 61 anos e estou aceitando a possibilidade de que serei solteira para sempre

Eu não tenho um relacionamento desde que meu marido morreu há quase 21 anos.

Photo Courtesy of Edie Weinstein
"Amor e abuso viviam lado a lado no meu casamento. O abuso era essencialmente emocional, com dois incidentes físicos."

Quando entrei na igreja, em 2 de maio de 1987, para dizer “sim” ao homem que tinha conhecido sete meses antes, achei que passaríamos a vida inteira juntos.

Eu tinha 28 anos, e ele, 36. Um amigo em comum nos apresentou no intervalo de uma palestra do líder espiritual Ram Dass. Nosso casamento seria o que gosto de chamar de “paradoxal”, com amor, mas também muitos problemas que me dão arrepio só de pensar.

Ele tinha crescido com um pai alcoólatra, dado a ataques de raiva, e uma mãe depressiva. O divórcio dos pais não foi nada amistoso. A expectativa de ambos era que ele tomasse partido.

Meu casamento tinha uma dinâmica parecida. Se eu não estivesse do lado do meu marido em todas as ocasiões em que ele discordava de alguém, eu não estava sendo leal. A sensação era que eu estava sendo testada o tempo todo – nem sempre deixando a desejar. Achei que pudesse ajudar a curar as feridas emocionais dele, mas me dei conta de que isso dependia só dele. O sofrimento dele invadia nosso lar.

Amor e abuso viviam lado a lado no meu casamento. O abuso era essencialmente emocional, com dois incidentes físicos. Nas duas vezes ele demonstrou arrependimento, mas eu me perguntava se aquilo poderia se repetir. Senti vergonha de passar por aquela situação, pois sou terapeuta e, naqueles casos, minha recomendação era que meus clientes abandonassem o relacionamento. 

Em 1992, ele recebeu diagnóstico de hepatite C, e passei a cuidar dele, lembrando dos votos de “na saúde e na doença” proferidos no casamento. Minha esperança era que, como ele dependia de mim para coisas simples do dia a dia, ele se tornaria uma pessoa mais gentil e paciente. Naquele mesmo ano, adotamos nosso filho, na época com 5 anos, que chegou com sua própria história e bagagem. 

Fiquei decepcionada ao perceber que, apesar de ser uma terapeuta experiente, não sabia como facilitar uma relação saudável entre os dois, e entre Michael e eu. Um mês depois de adotarmos Adam, perdemos nossa casa por causa do furacão Andrew, que atingiu a Flórida em 1992. Poderia ser um prenúncio do fim do casamento, mas fomos fortes. 

Usei sites e aplicativos de relacionamento durante anos. Me deleitei e me decepcionei.

Michael morreu em 21 de dezembro de 1998, e desde então tive alguns relacionamentos de curto prazo. Mas não me comprometi com ninguém desde a morte do meu marido, 21 anos atrás. Me chamo de “poliamor incidental”, porque não foi uma escolha consciente, mas acabei tendo vários relacionamentos simultâneos.

Usei sites e aplicativos de relacionamento durante anos. Me deleitei e me decepcionei. Passei por uma experiência de catfishing faz mais ou menos um ano, e também conheci um cara que foi muito importante na minha vida, mas ambos sabíamos que não éramos almas gêmeas. Ainda nos falamos de vez em quando.

Meu filho me disse que jamais vou encontrar um homem com as qualidades que procuro; para isso, deveria estar com uma mulher. Digo a ele que nunca conheci uma mulher com quem eu me imaginasse casada, mas a aceitaria de braços abertos caso ela aparecesse.

Uma amiga divorciada há muito tempo diz que só uma pessoa excepcional a tiraria de sua vida de solteira. Gosto da liberdade de criar minha própria vida, mas sinto falta da companhia de um parceiro. Tenho amigos incríveis que suprem algumas das minhas necessidades. Eu gostaria de poder juntar todas as qualidades maravilhosas dessas amizades em uma só pessoa.

É tão menos complicado tomar sozinha as decisões que afetam minha vida, não ter de esperar ninguém se arrumar nem se preocupar com a bagunça alheia.

Segui todas as recomendações até de vários coaches de relacionamento: fiz feng shui em casa, detalhei minha visão, escrevi “a lista” das qualidades que desejo em um parceiro, limpei as gavetas da cômoda, agi como se estivesse em um relacionamento, escrevendo um diário, sendo a pessoa que quero atrair, amando a mim mesma como quero ser amada.

Fiz cerimônias de casamento nas quais me “casei” comigo mesma. Saí comigo. Não tenho medo de ir aos lugares sozinha. Filmes, jantares, shows, passeios no parque – tudo o que eu adoraria fazer de mãos dadas. Escrevi cartões e poemas para entregar para essa pessoa.

Olhei melancolicamente para casais fofinhos uns com os outros. Também ouvi histórias de brigas terríveis e de violência, o que me dá um certo alívio de não estar num relacionamento desses. É tão menos complicado tomar sozinha as decisões que afetam minha vida, não ter de esperar ninguém se arrumar nem se preocupar com a bagunça alheia.

Quando realizo casamentos ou sou uma das convidadas, sem um par ao meu lado ou na pista de dança, às vezes me vejo tomada por um sentimento de tristeza. Essa montanha russa de emoções conflitantes faz parte do meu dia a dia.

E se ficar solteira as próximas duas décadas? Estou aceitando essa possibilidade de uma vida sem parceiro.

Alguns coaches me ajudaram a tirar as camadas superficiais de mim mesma, para que eu pudesse me conhecer melhor. Mas isso ainda não atraiu o amor da minha vida.

Eu achava que, para se apaixonar, as pessoas tinham de ter pouca bagagem (ou pelo menos que ela fosse pequena o suficiente para caber no compartimento acima do seu assento), ser financeiramente independentes, saudáveis e pouco exigentes. Tudo arrumado num pacote perfeitinho. Mas muita gente como eu, que fez todo esse trabalho, segue em carreira solo. E tantas outras pessoas que atendem a poucos (ou nenhum) dos critérios listados acima encontraram parceiros dedicados. 

Sei que valho a pena, sou uma ótima pessoa, apesar das minhas feridas e do medo de repetir dinâmicas indesejáveis do meu casamento. Meus amigos tentam me acalmar, dizendo que evoluí muito desde a morte de Michael, há mais de duas décadas.

Uma parte de mim também morreu naquele dia. A parte que era, como ele disse de forma tão eloquente, “uma contorcionista emocional que se dobrava toda para agradar as pessoas, incapaz de tomar decisões e sempre preocupada com o que os outros estavam pensando”. Essa mulher já não existe faz tempo. Ela foi substituída por uma pessoa determinada e resiliente, que vejo refletida no espelho levando uma vida rica, plena e satisfatória. 

Enquanto isso, é essencial manter meu coração aberto. Sou e sempre serei o amor da minha vida.

Assim como muitas amigas e amigos solteiros na casa dos 50 anos ou mais, me pergunto: e se eu nunca mais tiver um relacionamento sério? Acabei de completar 61 anos e imagino que tenha mais uns 20 pela frente. E se ficar solteira essas duas décadas? Estou aceitando essa possibilidade de uma vida sem parceiro.

Como seria? Serei uma daquelas mulheres mais velhas e excêntricas, que levam uma vida não-convencional? Eu já sou assim, de acordo com meu filho. A “mãe hippie e esquisita”, de cabelo roxo, super efusiva, que o fazia morrer de vergonha quando ele era adolescente. Será que ficarei satisfeita em ter minhas necessidades atendidas como uma colcha de retalhos, com carinho, atenção, sexo e companhia aparecendo esporadicamente, de diversos cantos?

Às vezes, pergunto ao meu pretendido: “Será que é hoje que você vai aparecer? Será que estou escondida à vista de todo mundo?”. As pessoas sempre me dizem que, quando eu me render ao apego, essa pessoa realmente terá batido na porta do meu coração. Enquanto isso, é essencial manter meu coração aberto. Sou e sempre serei o amor da minha vida.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost