NOTÍCIAS
25/01/2020 02:00 -03 | Atualizado 25/01/2020 02:00 -03

Sobreviventes de Brumadinho convivem com o luto e o impacto da lama 1 ano depois

Moradores lidam com casos de infecção pela água contaminada e terão indenização da Vale reduzida pela metade, apesar de a cidade ainda não ter se recuperado.

Washington Alves / Reuters
Manifestação contra a Vale, em Brumadinho, no último dia 20 de janeiro.

Há um ano, Michele Rocha, 34, lembra repetidamente aos três filhos pequenos que eles não podem mais pegar frutas dos pés do quintal. Nesse período, também perdeu as contas de quantas vezes teve que levar algum filho às pressas para o hospital com sintomas de intoxicação, como diarreia.

A casa da família fica a poucos metros da margem do rio Paraopeba, em Brumadinho (MG), que foi drasticamente afetado pelo rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão da Vale, em 25 de janeiro de 2019. A tragédia também levou Sueli, prima de Michele que, aos 39 anos, era funcionária da Vale e deixou duas filhas, uma de 9 anos e outra de 19. Ela foi uma das 259 mortes confirmadas. Onze pessoas seguem desaparecidas.

“É muito difícil ter que explicar para os meus filhos que eles não podem pegar frutas nos pés do quintal. Isso parece uma coisa muito pequena, mas faz muita diferença na nossa vida”, desabafou Michele ao HuffPost, às vésperas do marco de um ano do desastre, considerado o maior ambiental em termos de vítimas.

O caso de Michele e sua família está longe de ser uma exceção. Quem sobreviveu à tragédia em Brumadinho ainda tenta se reerguer da dor de ter perdido um parente próximo ou um amigo enquanto convive com as marcas deixadas pela enxurrada de rejeitos de minério na cidade mineira. Só no rio foram parar quase 13 milhões de metros cúbicos, que contaminaram a água, além de atingir a fauna e a flora.

Nas palavras de Michele, não há esperança de que a vida na comunidade melhore. 

“Fica um vazio. E se torna indignação. É um crime silencioso, continuado, ninguém vê, mas ele segue acontecendo”, diz. 

Arquivo pessoal
Michele, os três filhos e o marido: "É difícil explicar para as crianças e elas entenderem o que aconteceu". 
É um período de muita indignação, de muitos transtornos. A gente está de pés e mãos atadas.Michele Rocha, atingida pelo desastre de Brumadinho

Um dos principais problemas, segundo ela, é a condição da água. “No início, a Vale distribuiu água para o povo, depois pararam, mas não fizeram nada. Isso impacta em tudo. Crianças aparecem com manchas no corpo, com casos de diarreia, e os médicos dizem que é por causa da água. Além disso, o pessoal pescava, tomava banho nos rios, hoje não pescam mais.”

O caso da água tem sido monitorado pela Fundação SOS Mata Atlântica. Estudo divulgado esta semana mostra que, em alguns pontos do rio Paraopeba, não há sequer vida aquática. A instituição confirma presença de materiais pesados como ferro, manganês e cobre acima dos limites considerados seguros.

Coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental do Projeto Índice de Poluentes Hídricos (IPH), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Marta Marcondes corrobora a tese de Michele.

DOUGLAS MAGNO via Getty Images
Rio Paraopeba foi invadido por quase 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério.
Rejeitos de minério continuam na água e têm capacidade de trazer sérios problemas à saúde.Marta Marcondes, especialista da Universidade Municipal de São Caetano do Sul

“Rejeitos de minério continuam na água e têm capacidade de trazer sérios problemas à saúde. Se forem acumulados nos tecidos de pessoas ou animais podem gerar doenças hepáticas, neurológicas, renais”, afirmou ao HuffPost. 

O consumo de cobre, por exemplo, pode causar vômitos e náuseas. A SOS Mata Atlântica destaca ainda o risco de sintomas como tremedeiras das mãos, rigidez muscular e fraqueza, caso haja contaminação por manganês.

Saúde mental

A mudança no dia a dia da comunidade vem acompanhada de tristes relatos, como uma grande incidência da casos de suicídios. Além de Michele, mais uma pessoa relatou ao HuffPost o caso de um rapaz de 17 anos que era pescador e tirou a própria vida depois que não pode mais pescar.

“Ninguém está preparado para tamanha mudança”, afirma Michele, que é personagem de outra história comum na cidade no último ano: a das pessoas que começaram a fazer tratamento psicológico. “Perder um ente querido é complicado.”

Dados da Secretaria de Saúde do município mostram que, no ano passado, aumentou em 79% o uso de ansiolíticos e em 56% o de antidepressivos na comparação com o ano anterior. O número de suicídios foi de um para três em Brumadinho - se contabilizados os casos de mais áreas de região, ele sobe para cinco. 

Washington Alves / Reuters
Caso de Brumadinho é considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil em número de vítimas.
É um cenário de guerra. E essas histórias de mortes pós-rompimento da barragem não são computadas como vítimas da tragédia.Isis Medeiros, fotógrafa e documentarista

“É um cenário de guerra. E essas histórias de mortes pós-rompimento da barragem não são computadas como vítimas da tragédia. São inúmeras pessoas com problemas. Todos foram afetados de alguma forma. Todos têm uma história para contar”, diz a fotógrafa e documentarista Isis Medeiros.

Moradora de Belo Horizonte, ela acompanha o drama das famílias de Brumadinho desde a tragédia, e faz comparações com o que viu após outro desastre, o de Mariana. 

O rompimento da barragem do Fundão, também em Minas Gerais, em novembro de 2015, deixou 19 mortos e, assim como em Brumadinho, afetou todo o ecossistema da região. Os rejeitos de minério invadiram o Rio Doce e chegaram até o Espírito Santo.

“A longo prazo vemos os mesmos sinais de Mariana”, diz. Novamente, a água se torna o centro do problema. As manchas que as pessoas de Brumadinho relatam aparecer na pele, segundo Isis, são iguais as de Mariana. “Começa com uma vermelhidão na pele, uma coceira e depois aparecem pequenas erupções. A pessoa passa a sentir dor onde fere”, descreve.

Uma questão de renda

As coincidências não param por aí. Um problema comum às duas cidades é a situação financeira dos municípios. 

Após a tragédia, foi feito um acordo em que a Vale passou a pagar para os moradores impactados pelo rompimento da barragem um salário mínimo por adulto, meio por adolescente e um quarto por cada criança da família. É com esse dinheiro que boa parte dos moradores da cidades passaram a se sustentar. Esse valor, no entanto, foi reduzido pela metade agora em janeiro, após um ano.

“O que aconteceu foi que o preço das coisas na cidade aumentou muito. Tanto alimento, quanto gás, água. Quem já tinha renda baixa está pior agora, mesmo com auxílio emergencial”, diz. “Pelo que a gente viu em Mariana, eles [a Vale] vão cortar esse benefício no próximo ano, quando completar dois anos. E as pessoas da cidades acreditam que a cidade vai cair em uma miséria.”

Washington Alves / Reuters
Um ano após o desastre a cidade não se reergueu e a população reclama de descaso da Vale, empresa responsável pela barragem que se rompeu.

Michele é uma das pessoas que recebe essa renda indenizatória e aposta que a situação da cidade vai piorar ainda mais. “Já está difícil. O bairro que eu moro já é muito pobre, sair daqui nem é uma opção. Não temos o que fazer. A gente dependia das atividades que eram possíveis por causa do ambiente, que foi completamente devastado”, diz.

Sua maior indignação é em relação ao tratamento dado pela empresa. “A responsável é a Vale, mas ela não vale nada. Não tem um lado humano. Ninguém vê nossa situação. É desesperador”, afirma.

“Não entendemos como vai cortar a indenização, se ela servia para vivermos enquanto a cidade fosse reconstruída, mas nada foi feito. Qual critério usaram para cortar a indenização? Foi tudo feito a portas fechadas.”

Superintendente de projetos da Prefeitura, Edmar Pinto destaca que o futuro econômico é incerto. “A cidade teve uma movimentação financeira importante por causa do fluxo de pessoas para fazer a reconstrução da cidade. Estima-se que a população cresceu de 40 mil para 60 mil habitantes, mas temos uma insegurança muito grande sobre como vai ser daqui para frente.”

O próximo impacto negativo, na avaliação dele, é esse corte na renda indenizatória. O superintendente, que também recebe a verba, afirma que a prefeitura e os movimentos sociais têm tentado pressionar a Vale pela manutenção do auxílio ao menos para os que foram diretamente atingidos, mas a empresa está irredutível. 

DOUGLAS MAGNO via Getty Images
Superintendente de projetos da Prefeitura, Edmar Pinto diz que a tragédia abalou a cidade em todos os aspectos. "A população está muito arrasada."
A população ficou um pouco dependente e está usando esse dinheiro para estar se estruturando e aguentar esse momento de lutoEdmar Pinto, superintendente de projetos da prefeitura

Segundo ele, se não forem tomadas medidas para mudar a dependência econômica que a cidade tem da mineração, Brumadinho pode entrar em um declínio “muito grande”.

Ele diz que a prefeitura trabalha na tentativa de criar alternativas, mas ressalta que infraestrutura não se cria de uma hora para outra. “É preciso estrada, escoamento, montar um parque industrial, atrair novas empresas e nada disso a gente consegue a curto prazo.”

“A gente tem um grande medo que Brumadinho se torne uma cidade dormitório. A tragédia nos abalou em todos os aspectos. A população está muito arrasada.”

O superintendente não perdeu nenhum parente direto, mas sua esposa perdeu seis familiares. “Todos tinham ligação com alguém. Eu tinha muitos amigos, muitos que estudaram comigo. Todo mundo sofreu muito e continua sofrendo. A cidade mudou, hoje é uma cidade triste.”

A resposta da Vale 

Ao HuffPost, a Vale encaminhou uma nota com um balanço das ações de reparação em Brumadinho. A empresa afirma que “continua empenhada na execução de ações que permitam a retomada da rotina das famílias afetadas direta ou indiretamente pelo rompimento”. Argumenta também que tem feito estudos de análises da água, do solo e de sedimentos.

Destaca que o atendimento psicossocial tem sido o foco principal de sua atuação. “Como se trata de um luto coletivo, os esforços voltados à saúde emocional devem envolver não só um trabalho direcionado aos familiares, mas à população como um todo.” Para exemplificar seus esforços, a empresa pontua valores repassados à prefeitura para ampliação de assistência à saúde.

Em relação à indenização, o texto da empresa afirma que, em novembro, o termo de acordo que concedeu o benefício foi renovado por mais 10 meses, com mudança no perfil das pessoas elegíveis. Acrescenta que “os valores mencionados acima serão pagos temporariamente a título de indenização emergencial e serão descontados e considerados de eventual indenização coletiva futura”. A íntegra da nota da Vale está aqui.

Ueslei Marcelino / Reuters
Ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, e outras 15 pessoas foram denunciadas por homicídio qualificado e crimes ambientais.

No último dia 21, o Ministério Público em Minas Gerais denunciou o ex-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, e outras 15 pessoas por homicídio qualificado e crimes ambientais.

O MP justifica que “os crimes de homicídio foram praticados mediante recurso que impossibilitou ou dificultou a defesa das vítimas, eis que o rompimento da barragem ocorreu de forma abrupta e violenta, tornando impossível ou difícil a fuga de centenas de pessoas que foram efetivamente atingidas pelo fluxo da lama”.

De acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM), a Vale sabia que havia anomalias na barragem, mas não reportou à autarquia. “Se a ANM tivesse sido informada corretamente, poderia ter tomado medidas cautelares e cobrado ações emergenciais da empresa, o que poderia evitar o desastre”, informou a agência em novembro. 

À época, a Vale respondeu que “todas as informações disponíveis sobre o histórico do estado de conservação da barragem foram fornecidas às autoridades que apuram o caso”.