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12/05/2019 11:00 -03

11 sobremesas regionais do Brasil e suas origens históricas

Bolo de rolo, bolo de arroz, sagu: esses e outros doces regionais compõem a rica culinária brasileira e dizem muito sobre nossa História.

Quando o assunto é sobremesas, o Brasil dá de 10 a 0 em qualquer outra nação. Só por aqui você vai encontrar um bolo de rolo fofinho, um cremoso bolo de macaxeira e um sagu com gostinho de infância. 

Esses doces, além de deliciosos, também contam um pouco sobre as tradições, migrações, culturas e histórias do Brasil. 

Você sabia, por exemplo, que o doce baba de moça é de origem portuguesa e era o quitute preferido da princesa Isabel? Ou que a rapadura foi inventada para facilitar o transporte de melaço de cana para Portugal?

Veja abaixo 11 doces regionais brasileiros e suas curiosas origens:

Bolo de rolo, de Pernambuco

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Bolo de rolo é iguaria típica de Pernambuco.

O patrimônio de Pernambuco não é um rocambole: é um bolo feito cuidadosamente em camadas leves e com muito sabor. E sua história é antiga, lá do Brasil Colônia. 

O bolo de rolo é uma variação do colchão de noiva, um doce português de pão de ló recheado com amêndoas. Com a ausência das castanhas na região Nordeste, os portugueses adaptaram a receita com o recheio de goiaba, que era uma fruta abundante na Zona da Mata, adoçada com açúcar dos engenhos da região. A massa também passou a ser enrolada em camadas mais finas, diferente do rocambole. E o bolo levou seu nome por parecer um rolo. 

Pela Lei 13.436 de 2008, o bolo de rolo foi reconhecido como patrimônio imaterial de Pernambuco. 

Ambrosia, de Minas Gerais

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Ambrosia é feita de leite, ovos e açúcar.

Bem presente em Minas Gerais e também no Rio Grande do Sul, o doce também conhecido como manjar dos deuses é feito com leite, ovos e açúcar.

Ele tem origem lusitana. Nos séculos 18 e 19, Portugal era um dos maiores produtores de ovos da Europa, o que explica em parte por que tantos doces do país são feitos com ovos.

Com a fartura do açúcar por aqui, a ambrosia brasileira é bem doce e um exemplo da histórica fartura econômica do engenho do açúcar no Brasil. 

Cocada, da Bahia

Luiz Henrique Mendes via Getty Images
Vai aí uma cocadinha?!

A cocada é boa de todos os jeitos, seja ela dura ou cremosa, branca, marrom ou preta. Sua origem também reflete um capítulo triste da História brasileira. 

Historiadores acreditam que as negras escravas angolanas produziam estes doces para os senhores escravistas. Elas criaram o doce com ingredientes mais abundantes da Bahia da época: açúcar e coco.  

Bolo Souza Leão, de Pernambuco

O doce preparado com massa de mandioca, leite de coco, açúcar, manteiga e ovos tem uma origem pra lá de curiosa

O bolo tinha uma aura aristocrática e era servido apenas em ocasiões especiais. Ele foi criado há mais de 150 anos pela família Souza Leão, dona de enormes engenhos de cana na época do ciclo açucareiro em Pernambuco. 

O contexto em que o doce foi criado explica sua fórmula deliciosa: a quantidade extra de açúcar vinha do engenho e as gemas remetem aos doces portugueses, além de a mandioca dar o toque nordestino. Diz a lenda que até o sociológo Gilberto Freyre chegou a estudar o quitute. 

Cuca de banana, do Rio Grande do Sul

O bolo que leva farinha, ovos, manteiga, açúcar e banana é bem popular em toda a região sul do Brasil. A receita foi trazida pelos imigrantes alemães e se assemelha com a Kuchen, que é um bolo alemão. 

Rapadura, da região Sudeste 

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Rapadura é doce, mas não é mole, não.

A rapadura é bem conhecida na região Sudeste, mas ninguém sabe ao certo onde ela foi criada. Sua origem, porém, é curiosa e histórica. 

O açúcar de cana era uma das grandes produções nacionais desde os tempos de Colônia e a rapadura foi inventada para facilitar seu transporte: os portugueses resolveram transformar o melaço de cana em tijolos para facilitar seu transporte e conservação.

Bolo de arroz, da região Centro-oeste

O quitute que leva arroz, mandioca. açúcar, manteiga, coco e erva doce é tão popular em Cuiabá que foi declarado como prato típico do Estado do Mato Grosso em 2017

O bolo de arroz foi criado a partir da abundância das plantações de arroz da região e faz parte até hoje do dia a dia da população local.  

Sagu, da região Sul

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Delícia de sagu!

Muito comum no Sul, mas também sucesso em outras regiões do Brasil, o sagu é uma mistura deliciosa das receitas de imigrantes alemães e italianos e de ingredientes regionais: vinho e mandioca. 

A sobremesa tem origem na serra gaúcha. O processo de transformação da mandioca em bolinhas foi desenvolvido pelos descendentes de alemães de uma empresa chamada Lorenz1, no início do século 20. 

A pesquisadora Rosana Peccini conta sobre o poder histórico do doce:

“Essa sobremesa [sagu de vinho tinto] talvez seja o maior exemplo para entendermos a que vieram os imigrantes aqui no Brasil. Eles e seus descendentes, absorvendo a cultura existente, integraram-se a uma nova realidade, compondo novas formas, ou seja, nesse caso, uma nova receita com os sabores das etnias, índia e italiana, com a ajuda da tecnologia alemã. Essa comida não veio com os imigrantes, mas foi a sobremesa escolhida por sua fragrância, sabor e cor, para representar o gosto dos italianos nascidos aqui. Dessa forma é um doce que nos remete às nossas origens, mesmo que essa receita não exista lá na Itália. É por isso que muitos dos nossos hábitos alimentares causam estranheza aos italianos turistas em visita nessa região.”

Bolo de macaxeira, da região Norte

Muito presente na culinária brasileira, a macaxeira (ou mandioca ou aipim) já era utilizada na culinária indígena quando os portugueses conheceram a raiz. Já conhecida no Nordeste, a macaxeira foi acrescentada na receita de bolos, na falta de trigo na região. 

O bolo de macaxeira, inclusive, foi um dos doces servidos para a monarquia brasileira em 1889, segundo o livro Pequeno Dicionário da Gastronomia, de Maria Lúcia Gomensoro. 

Doce de cupuaçu, do Norte

Cupuaçu é um fruto de uma árvore originária da Amazônia, parente do cacaueiro. O fruto é típico da região norte brasileira, muito encontrada nos estados do Amapá, Pará e Amazonas. Ele é usado em doces, sorvetes e até em pratos agridoces pelos nativos da Amazônia.  

Baba de Moça, região Nordeste 

Com origem portuguesa, o doce nordestino foi criado a partir da sobremesa lusitana Ovos Moles de Aveiro, como é chamado em Portugal. Por aqui, os portugueses alteraram a receita e acrescentaram o leite de coco, que é abundante no Nordeste. Baba de moça era um doce servido apenas em ocasiões especiais e era o preferido da princesa Isabel.