COMIDA
14/10/2019 03:00 -03

Temos mesmo de comer as sobras de comida em até 4 dias?

As diretrizes são rigorosas e nada práticas. Saiba como determinar quando você pode ser flexível.

Todo mundo comeu aquela sobra de comida da geladeira que provavelmente já tinha passado do ponto. Abriu o tupperware, deu uma cheiradinha, conferiu se não havia sinais de mofo e depois deu umas mordidas para ver se estava tudo bem. 

Mas, segundo a FDA, agência do governo americano que regulamenta alimentos e remédios, sobras de comida são extremamente sensíveis ao tempo. Eles devem ser consumidos em no máximo três ou quatro dias. Para ter uma ideia mais realista desse prazo, conversamos com o microbiólogo Andrea Casero e com o cientista de alimentos Guy Crosby. Ao que tudo indica, existe espaço para alguma flexibilidade.

O que dizem as recomendações da FDA

A FDA diz que restos de alimentos cozidos devem ser guardados na geladeira ou no freezer duas horas depois da preparação e consumidos três ou quatro dias depois da refrigeração.

Cuidados com a segurança dos alimentos são importantes, mas pouca gente coloca uma etiqueta com o prazo de validade das sobras.

Segundo Peter Cassell, porta-voz da FDA, “trata-se de uma recomendação geral, baseada em armazenamento correto e na taxa de crescimento das bactérias. Em geral, prazos de validade, com exceção de fórmula para bebês, não são datas exatas”.

O que dizem os especialistas

Segundo nossos especialistas, não existe uma regra única. Guy Crosby, cientista de alimentos e professor adjunto da faculdade de saúde pública da Universidade Harvard, explica ao HuffPost que “as recomendações são muito genéricas”. Em vez disso, ele recomenda considerar cada item com base na preparação da comida, como ela foi guardada e os ingredientes utilizados. 

Para entender o porquê, temos de relembrar um pouco das aulas de química. Os alimentos têm diferentes níveis de pH, umidade e ingredientes que potencialmente podem se ligar à água. Comidas com baixo nível de pH – como molho de tomate – tipicamente duram mais tempo, até uma semana, pois o ambiente ácido é mais inóspito para as bactérias. Sobras com níveis mais altos de pH – como peixe ou ovos – podem permitir um crescimento mais rápido das bactérias e devem ser descartados depois de três dias.

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Você sempre pode colocar uma etiqueta indicando quando a comida foi guardada na geladeira.

Outra consideração é o nível de umidade e os alimentos com ingredientes que se ligam com a água. Comidas com altos níveis de açúcar, como biscoitos e muffins, se ligam com a água e impedem o crescimento de bactérias e mofo. Elas podem ficar fora da geladeira, em recipientes bem fechados, durante até uma semana. Já alimentos com altos índices de umidade – como carnes e legumes cozidos – são um ambiente mais propício para a proliferação de bactérias, mesmo na geladeira. Esse tipo de sobra deve ser consumido em três dias, no máximo.

Crosby explica para o HuffPost que “uma torta de frutas tem alto teor de açúcar e também contém frutas ácidas, então ela pode ficar num recipiente fechado em fora da geladeira por até uma semana”.

Regras realistas que você pode seguir

Para ter certeza de que está guardando as comidas de forma adequada e segura, Crosby recomenda o uso de recipientes com boa vedação, pois o oxigênio ajuda na proliferação das bactérias.

  • Cheque a temperatura da sua geladeira para certificar-se de que os alimentos estão frios o suficiente – a recomendação geral é manter a temperatura entre 1,7 e 4,4 graus centígrados, segundo Crosby.
  • A parte de trás da geladeira tende a ser mais fria que a frente e as portas.
  • Use uma etiqueta para marcar quando as sobras foram guardadas na geladeira.
  • Se você realmente quiser que as sobras durem mais de uma semana, o ideal é guardá-las no freezer.

Uma medida preventiva adicional: “Se a comida ainda estiver quente na hora de ir para a geladeira, divida-a em vários recipientes pequenos. Assim, ela vai esfriar mais rápido, reduzindo a proliferação de bactérias. Um pouco de ácido, como vinagre ou suco de limão, também ajuda”, afirma Crosby.

Por que não fiquei doente depois de comer sobras ‘passadas’? 

Nunca teve “piriri” depois de comer aqueles restos suspeitos? Provavelmente a explicação tem a ver com um sistema imunológico saudável e forte, não com um “estômago de aço”, diz a microbióloga e fundadora da Biobusters Andrea Casero. “Nosso sistema imunológico tem um papel chave na prevenção de intoxicações alimentares. Comer muitas frutas, nozes, verduras e legumes, levar uma vida ativa e saudável, tudo isso ajuda a melhor nossas defesas”, afirma ele.

Casero também afirma que as condições de higiene da cozinha também são uma das principais causas de intoxicações alimentares. “Biofilmes bacterianos (um acúmulo de micróbios) são os ambientes ideais para a proliferação de organismos como E. coli, listéria e salmonela, entre outros. Eles gostam de ambientes mornos e úmidos – como esponjas, geladeira ou um recipiente que não foi lavado direito. Bactérias que crescem em biofilmes são altamente resistentes a desinfetantes, até mil vezes mais resistentes que aquelas não crescem em biofilmes. E elas podem contaminar suas sobras”, disse Casero ao HuffPost. Isso significa que sua comida pode estar contaminada antes mesmo de ir para a geladeira.

Segundo Casero, boas práticas incluem lavar bem as mãos antes e depois de tocar em alimentos crus e certificar-se de que os alimentos sejam guardados em recipientes adequadamente lavados. Isso significa trocar as esponjas da pia a cada uma ou duas semanas.

E aquela conferida com os sentidos pode não ser a proteção mais eficaz contra as intoxicações. Crosby e Casero afirmam que a ausência de mau cheiro ou de mofo não são indicadores 100% confiáveis, a menos que as sobras sejam velhas demais. O melhor a fazer é jogar fora tudo o que tenha mais de uma semana.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês. 

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