Comportamento

Um passeio pela literatura e resistência do Slam Oz no Sesc Osasco

Um relato em 1ª pessoa sobre minha ida à apresentação do grupo que comemora 2 anos de poesia falada.
Segundo organizadores do Slam Oz, ônibus fretados, trem e 99 são meios de a galera acompanhar a apresentação do slam no Sesc Osasco.
Segundo organizadores do Slam Oz, ônibus fretados, trem e 99 são meios de a galera acompanhar a apresentação do slam no Sesc Osasco.

Estou na estação de trem Pinheiros (Linha 9 – Esmeralda da CPTM), localizada a uma caminhada de 10 minutos de minha casa. Entro no vagão e vejo o horário no meu celular: são 17h36. Estou em pé, a um passo de distância da porta. O carro já está repleto de pessoas e impregnado pelos odores de metal e suor. Algumas pessoas impedem as portas de se fecharem, segurando-as por alguns segundos para mais pessoas entrarem e ocuparem o pouco espaço disponível que resta dentro do vagão. É sexta-feira, e o trabalhador está voltando para casa — ou indo para o rolê.

Meu destino é Osasco. Mais especificamente, estou a caminho do Sesc Osasco para acompanhar o slam do Slam Oz, e esta será a primeira vez que eu vou assistir a um pessoalmente. Para mim, deslocamento prático para ter acesso à cultura é essencial. Sou da periferia de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Por muitos anos, antes de vir morar na capital paulista, enfrentava longos deslocamentos e péssimas linhas de ônibus intermunicipais para ver filmes em cinemas de rua, shows e exposições em São Paulo.

Hoje, morando a um pulo de estações de metrô e trem, aprecio a facilidade que tenho para ir a vários lugares — para ter acesso ao metrô, não preciso pegar o ônibus que frequentemente atrasa em até 40 minutos ou uma hora.

Esta será também a primeira vez que vou a Osasco, que fica na região metropolitana da capital paulista e cujo centro fica a aproximadamente 18 quilômetros de distância do centro de São Paulo. Após uma viagem de 11 minutos de trem, chego à estação Osasco, em que se interseccionam as linhas 8 – Diamante e 9 – Esmeralda.

Deixo o vagão e subo as escadas. Agora estou acima das plataformas, em um corredor por onde circulam pessoas apressadas, carregando sacolas — pequenas, médias e grandes — e crianças — pequenas, médias e grandes —, enquanto espero pela fotógrafa, Gabriela Burdmann. Ela chega não muito depois de mim, usando botas pretas de cano médio e trazendo seus equipamentos em uma grande mochila nas costas.

Para ir da estação de trem até nosso destino, pedimos um 99. É assim que várias pessoas geralmente fazem para acompanhar o slam nos dias em que ele acontece no Sesc, de acordo com os organizadores do evento.

O carro que vem nos levar é dirigido por uma motorista, a Heloísa. “Troquei o calor do Rio por São Paulo”, ela ri, enquanto avança pelo centro de Osasco. O trânsito está atipicamente carregado por causa de um evento na prefeitura, diz a motorista.

Heloísa mantém o bom humor e conversa com Gabriela e comigo. Mesmo trabalhando em pleno fim de sexta-feira, ela sente a energia contagiante do fim de semana que está chegando. Cantorola Não É Fácil, de Marisa Monte, que toca no rádio.

Trocamos impressões na subida íngreme da R. Dr. Mário Pinto Serva até a esquina com a Av. dos Autonomistas por vários minutos. Finalmente, quando começa a tocar Angels, de Robbie Williams — que Heloísa também canta junto —, chegamos ao Sesc. A corrida de dois quilômetros de distância durou 30 minutos. Heloísa recebe merecidas cinco estrelas, porque, sejamos sinceros, qualquer pessoa que persiste leve e alegre, até cantando em meio a um engarrafamento caótico, merece cinco estrelas.

Chegamos ao Sesc Osasco e caminhamos até a tenda em que acontecem as apresentações. Estamos atrasados, mas todo mundo está; o trânsito lá fora segue lento e pesado enquanto a equipe do Slam Oz prepara o espaço para a noite de poesia que nos espera. No palco, um DJ “aquece” as caixas de som tocando AmarElo, o hit de Emicida com Majur e Pabllo Vittar.

Enquanto isso, sobre um tapete de tatame no chão, várias crianças brincam com almofadas. Espectadores começam a ocupar as cadeiras. Dá tempo de eu e Gabriela darmos um pulo na comedoria. Alguns minutos depois, um dos membros do slam vai lá nos buscar: está para começar.

O DJ permanece no palco mandando sons em momentos sem apresentações, enquanto diante dele, no chão, os slammasters Kauê Tavano Recski, Lucão Poeta e Bruna Rojas (foto acima) são rodeados por cadeiras em uma espécie de arena; eles andam em meio às crianças que brincam no tatame e interagem com elas. Uma lista começa a circular pela plateia, em que os poetas colocam seus nomes e esperam ser chamados. Gabriela circula por todo o espaço aproveitando a luz do ambiente para tirar fotografias.

“O Slam Oz completa 2 anos de existência e de resistência — assim como um médico faz com um paciente doente, o slam toma o pulso do Brasil, e os poetas têm diagnósticos e tratamentos a propor, sempre pelo ponto de vista da periferia.”

Alquimista encanta público do Sesc Osasco com sua performance.
Alquimista encanta público do Sesc Osasco com sua performance.

Hoje é uma noite especial para o Slam Oz. Eles completam dois anos de existência e de resistência — assim como um médico faz com um paciente doente, o slam toma o pulso do Brasil, e os poetas têm diagnósticos e tratamentos a propor. Transfobia, machismo, racismo, desemprego, sucateamento da educação e desigualdade social são mencionados por quase todos os poetas, que examinam essas questões pelo ponto de vista da periferia. E também pelo íntimo, expondo seus sentimentos e inquietações; o coletivo e o individual se cruzam nas palavras dos poetas, que defendem a autoestima e autocuidado de si mesmos e de seus iguais como estratégia de sobrevivência.

A primeira poesia da noite — chamada de “poesia de enforcamento”, para os juízes calibrarem as notas — é de Kauê. Descalço e gritando ao microfone com sua voz grave e rouca, ele defende a abolição do vestibular e uma educação de qualidade e de acesso democrático. Os jurados — pessoas da plateia escolhidas espontaneamente — levantam as plaquinhas com as notas: 9.8 (“Credooo!”, grita a plateia), 9.7 (“Credooo!”) e 10 (“Pow! Pow! Pow!”, bradam todos). Ao lado de Lucão e Bruna, Kauê puxa o grito de guerra do grupo: “‘Nóiz’ por ‘nóiz’!”, e a plateia completa urrando: “Slam Oz!”.

Uma das poetas que vêm em seguida é a jovem mulher transgênero Jetki$$, de 17 anos. Foi na poesia e no slam que ela encontrou uma linguagem e um espaço para expressar suas questões no período em que fazia a transição. “Escrevo poesias desde antes da transição do meu corpo, mas quando comecei transição a mente. Foi o refúgio que eu tive para não surtar”, ela me conta.

“Eu vejo o slam como resistência. Eu não estou ali só pelo meu corpo, mas por todos os corpos trans. Estou ali gritando pela gente. É sobre ocupar espaços, sabe? É sobre eu estar ali e dizer que a gente está viva”, diz. “Mesmo que haja quem queira apagar a nossa história, a gente está resistindo, a gente está gritando.”

Tawane Theodoro, como mulher negra da periferia, se se encontrou no slam.
Tawane Theodoro, como mulher negra da periferia, se se encontrou no slam.

A poeta Tawane Theodoro, 21, também se encontrou no slam. “Acho que tem uma pegada de referência em ser mulher preta da periferia, sabe? Porque a gente tem poucas, infelizmente. Eu tenho essa visão de poder inspirar alguém que pode inspirar outras”, explica.

“Antigamente, eu via mais homens do que mulheres nos slams, mas hoje vejo as mulheres pretas colando em peso. Geralmente, é bem difícil ver um slam que tenha um número muito desproporcional de homens e mulheres. Talvez seja pela necessidade de falar e de escutar poesia dessas temáticas.”

No início, conta Tawane, ela tinha vergonha de falar em público, mas a necessidade de abordar na poesia a condição da mulher negra periférica se sobrepôs às inseguranças. “Minha vontade quebra essa timidez. É uma constante desconstrução. A gente não aprendeu a fazer isso. Ninguém veio antes de nós e errou, então a gente aprende com os próprios erros e faz de novo, tenta de outra forma”, ensina.

Os jurados são frequentadores do slam, que levantam espontaneamente as plaquinhas com notas para as apresentações.
Os jurados são frequentadores do slam, que levantam espontaneamente as plaquinhas com notas para as apresentações.

Curiosidades sobre o slam

De acordo com o torneio nacional de slam, o SlamBR, o Brasil tem 210 grupos espalhados por 20 estados. O slam é uma competição de poesias faladas que misturam oralidade com performance — e passa longe do elitismo e da rigidez estrutural às quais a poesia geralmente é associada. Surgiu nos anos 1980 na cidade de Chicago, EUA, e foi criada pelo poeta Marc Smith.

As apresentações geralmente duram até 10 minutos, aproximadamente, e recebem notas dadas por 5 juízes selecionados da plateia. Toda competição é formada pelos organizadores — os “slammasters” — o público, os poetas e os jurados. O público participa ativamente reagindo às performances.

O microfone fica aberto por um tempo para quem quiser declamar seus textos sem se submeter às avaliações dos juízes. O slam foi trazido ao Brasil em 2008 pela poeta Roberta Estrela D’Alva, pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e o Zap! Slam.

O Slam Oz surgiu em 2017, fundado por Lucão Poeta e Laís Zuppa. Eles queriam levar as competições para a zona oeste da região metropolitana de São Paulo. Lucão, 22, é de Carapicuíba e conta a mim que criar o Slam Oz foi uma forma de dar “lugar de fala para os favelados e as faveladas”. “Por meio do slam, a gente chegou a escolas, penitenciárias, clínicas de reabilitação. A gente consegue a transformação social através da poesia”, diz.

As competições do grupo acontecem na “arena”, a praça próxima à estação de trem Osasco, toda última quarta-feira do mês, às 18h30. O microfone fica aberto até as 20h e, em seguida, eles iniciam a batalha com um número de poetas que varia entre 15 e 20, sempre buscando não ir além das 22h30.

“Centenas de pessoas passam pela estação e elas param para assistir àquela galera gritando poesia. Isso chama atenção delas, os trabalhadores e trabalhadoras do dia a dia, o pobre louco no corre da sobrevivência. Depois eles falam ‘pô, essa poesia que vocês declamaram parece a minha história, a história do meu irmão, da minha família’”, conta.

Quem vence o slam ganha um troféu. O deste ano é uma placa de acrílico transparente com uma fotografia do grupo acompanhada do número da edição e a data em que ela aconteceu; na parte de cima, o troféu traz “Oz” em letras garrafais, o “O” substituído por uma bomba preta e esférica e o “Z” destacado em amarelo.

Trupe do Slam Oz celebra os 2 anos de existência do grupo.
Trupe do Slam Oz celebra os 2 anos de existência do grupo.

No fim da noite, o vencedor é D. John, que chegou ao pódio com Tawane, que ficou em segundo lugar, e Alquimista, que ficou em terceiro. A noite de poesia está terminando. São 21h40 e todos cantam o parabéns para o Slam. Depois de sairmos, Gabriela e eu pedimos um 99 em direção à estação Osasco. Não somos os únicos. Desta vez o motorista é Júlio. Ele fica em silêncio por todo o trajeto, que fazemos em apenas 15 minutos.

Depois que descemos do carro e agradecemos Júlio — avaliado em cinco estrelas pela corrida —, a única conclusão a que chego é a de que nós dois ficamos um bocado comovidos com as performances que presenciamos. Como jovem vindo de periferia, entendo que o acesso à cultura e aos equipamentos culturais é fundamental para o nosso bem-estar.

Os vencedores do Slam Oz desta competição: Alquimista (3º), Tawane (2º) e D. John (1º).
Os vencedores do Slam Oz desta competição: Alquimista (3º), Tawane (2º) e D. John (1º).

*Este relato foi feito com base em testemunho do slam do Slam Oz em 29/11 e em entrevistas com seus membros. A reprodução dos trechos dos poemas foi autorizada por seus respectivos autores.