20/02/2019 08:32 -03 | Atualizado 20/02/2019 15:49 -03

Catharine e Amanda, a dupla que faz do próprio corpo um templo da poesia falada

Juntas, elas fazem parte do 'Slam do Corpo', batalha em português e LIBRAS.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Catharine e Amanda são as entrevistadas da história 350ª do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Cada uma traz uma parte de si – que vai além das próprias experiências e vivências. Elas agregam sentidos. De forma subjetiva e literal. Catharine Moreira, 38 anos, poeta surda (entre outras coisas). Amanda Lioli, 31 anos, poeta ouvinte (entre outras coisas). Juntas, fazem mais do que poesia. Descobriram em dupla como compor e apresentar palavras. Perceberam que há várias formas de expressar um sentimento, uma ideia – e de serem ouvidas. Há seis anos elas trabalham juntas em diversos projetos artísticos. O primeiro – e um dos mais marcantes – foi uma poesia justamente com o nome Voz. Cada uma usando a sua. Com suas particularidades e potências.

A conversa é intensa. Antes de Amanda chegar, Catharine recebeu a reportagem do HuffPost Brasil em sua casa, onde mora sozinha. Oferece água, pede ajuda com a alça da roupa, pergunta se podia se maquiar enquanto aguardávamos e sugere que façamos contato com Amanda para checar se ela já estava chegando – foi um dia de muita chuva na cidade, o trânsito estava complicado. A reportagem não fala linguagem de sinais, mas isso tudo aconteceu sem isso mesmo. Com a presença de Amanda, a coisa fica diferente. Com a mão ela traduz tudo para Catharine, que responde com agilidade os sinais de seu corpo, que vira voz para nós, ouvintes, por meio de Amanda. E depois volta para ela através dos sinais e assim vai. Realmente tudo funciona quase como uma dança agitada em que cada um pede a vez, mas não deixa de falar enquanto a outra se expressa.

A língua de sinais é muito diferente do português e eu pude aprender muito mais do português e da cultura ouvinte, me quebrei um pouco como surda.Catharine
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há também o desafio da dupla de estar nos ambientes que não são “preparados” para o surdo.

É um jogo de corpo. De palavras e de línguas diferentes. Uma explosão de gestos e sentidos. E é para ser assim mesmo. “A Amanda como ouvinte me fez quebrar muitas questões. Eu estava muito fechada na comunidade surda, como se fosse uma limitação de sentidos. Quando percebi outros caminhos, a gente conseguiu criar. A língua de sinais é muito diferente do português e eu pude aprender muito mais do português e da cultura ouvinte”, explica Catharine sobre o trabalho com Amanda. As duas participam, como dupla, do Slam do Corpo, o primeiro Slam (batalha de poesias) de surdos e ouvintes do Brasil onde cada dupla se apresenta ao mesmo tempo em português e em Libras.

Para Amanda, esse encontro também quebrou algumas ideias que já tinha sobre o assunto. Estudiosa de Libras como uma disciplina da faculdade de pedagogia (interessou-se ao ver duas pessoas discutindo na rua em linguagem de sinais), as coisas mudaram para ela. “Eu imaginava trabalhar em escola ou com ensino de língua de sinais e depois que encontrei a Catharine me deu essa perspectiva de que a língua de sinais é sim uma potência performática, é sim uma potência artística. E que eu não queria ser intérprete”. Queria ser criadora. E mesmo Catharine, que sempre se expressou com a língua de sinais, também percebeu uma outra potência de sua forma de comunicação. “Eu vi que performance e língua de sinais era algo que dava para juntar e quando fui participar do Slam vi que era isso! Poesia não era só algo escrito, preso em um página de papel não. Poesia são pessoas, são experiências e super posso me vincular a isso”.

A Catharine me deu essa perspectiva de que a língua de sinais é sim uma potência performática, é sim uma potência artística e que eu não queria ser intérprete.Amanda
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Amanda, esse encontro também quebrou algumas ideias que já tinha sobre o assunto.

Foi o que fizeram. E seguem assim. As duas se encontram com frequência, debatem diversos assuntos comuns como machismo e também questões individuais de seus próprios universos e escrevem juntas as poesias que apresentam, as histórias que contam, as peças que encenam. E a atuação das duas vai muito além do Slam do Corpo. Hoje, depois de começar nesse espaço, Catharine já se apresenta em outros locais. Recentemente estava no Chile, em um festival de arte. E quer mais. Sua ideia é quebrar barreiras e sair dos espaços que parecem pré-determinados para ela.

“Foi um processo de encontrar esse diálogo e uma aceitação tanto minha quanto dos ouvintes. Agora, os ouvintes que estão no Slam do Corpo já confiam em mim como poeta, como intérprete de mim mesma, isso foi um começo. E quando eu comecei a participar do Menor Slam do Mundo [batalhas de poesia com até 10 segundos], ninguém esperava que eu, uma surda, ganhasse porque eu era do Slam do Corpo, como se os surdos tivessem encerrados ali naquele universo e me senti empoderada quando eu venci o outro slam. Não tenho mais medo de me colocar nesses outros espaços, já provei que eu consigo”.

Os ouvintes que estão no Slam do Corpo já confiam em mim como poeta, como intérprete de mim mesma e me senti empoderada quando eu venci outro slam [para ouvintes]. Não tenho mais medo de me colocar nesses outros espaços.Catharine
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E mesmo Catharine, que sempre se expressou com a língua de sinais, também percebeu uma outra potência de sua forma de comunicação.

Ela consegue e já faz tempo. Catharine, surda de nascença, conta que teve um grande privilégio de sempre ter apoio familiar para conquistar sua independência. Desde cedo sua mãe identificou que ela estava sempre dançando, em movimento, mesmo sendo surda. Assim, colocou a filha ainda criança para fazer aulas de balé. “Ela me levou e foi muito interessante porque as pessoas tinham medo porque eram só ouvintes na sala. A professora me ajudou a quebrar a vergonha e o medo e isso me ajudou muito, isso me deu coragem e me ajudou a desenvolver”.

Com o apoio da família, também foi estimulada a estudar, explorar o mundo. Formou-se em engenharia da comunicação (anos difíceis, ela lembra, mas contou com ajuda de colegas), área em que trabalha até hoje (na raça, sem intérprete), dividindo seu tempo com o trabalho artístico. Aos poucos, foi perdendo o medo de interagir com o mundo e conseguindo encontrar seus espaços e hoje sabe bem aonde quer estar.

“Não quero dificuldades. Não gosto de só pelo fato de ser surda não estudar português, por exemplo. Ou dizer que não gosto de ouvinte porque eu sou surda, essas questões identitárias que alguns têm e colocam limitações para eles. Gostam só de libras, só de surdos, apenas ficar na comunidade e não. Eu gosto da comunicação aberta, me distanciei desse separatismo”.

Com a Catharine no Slam eu sou poeta, dupla, não intérprete. Mas é uma luta que ainda estamos nesse esforço de provar, ainda ficam questionando a minha presença.Amanda
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Assim como a palavra pode ser usada de muitas formas, o mesmo acontece com a voz. Das duas. 

Um separatismo que atinge as duas, de formas diferentes. Segundo Amanda, o preconceito é amplo. “Você tem preconceito dos dois lados e não é de sacanagem, não é por uma maldade é por falta de conhecimento. A gente tem que ir quebrando essas barreiras e mostrar que não é assim”. Às vezes ainda sente que precisa explicar, mas sabe que faz parte do processo. “Eu sou co-criadora com a Catharine. As poesias são nossas. Quando chamo pra contação de história, são nossas. Quando a gente faz uma peça de teatro, a criação é nossa. É um diálogo e conexão entre nós duas. No Slam eu sou poeta, dupla, não intérprete. Mas é uma luta que ainda estamos nesse esforço de provar, ainda ficam questionando a minha presença. As conquistas são recentes, são anos da comunidade surda sendo oprimidas então ainda é estranho ter um ouvinte”.

E há também o desafio da dupla de estar nos ambientes que não são “preparados” para o surdo. “A Catharine desabafa muito porque ela é surda, mas tem sons guturais e os ouvintes ficam incomodados, é uma coisa que magoa, porque ela tem voz, ela faz barulhos o tempo todo e os ouvintes têm preconceito por causa disso, quando na verdade é a voz dela e é uma das coisas mais marcantes da nossa poesia, como ela usa a voz”.

Assim como a palavra pode ser usada de muitas formas, o mesmo acontece com a voz. E com o corpo. E com a forma de se expressar. Realmente um encontro profundo de sentidos que, juntos, são puro significado. Quem está ali, pode ter certeza, vai entender tudo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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